Os sucessivos fechamentos de estações rodoviárias pelo interior gaúcho escancaram uma crise no transporte intermunicipal. Fatores como pandemia, enchentes e mudanças comportamentais – busca por aplicativos de carona, por exemplo – agravaram o cenário, já afetado por estruturas que não acompanharam as transformações.
Com a queda no número de passageiros, a quantidade de terminais reduziu de 286 para 168 em cinco anos. Apenas em 2025, segundo o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer), 16 encerraram as atividades, o maior número desde 2020.
Esse panorama gera incertezas sobre o futuro das operações, inclusive em Teutônia. De acordo com o concessionário, Jorge Luis Labres de Souza, embora a situação não seja tão crítica em relação a outras cidades, requer atenção. Afinal, as vendas são variáveis. Há dias em que se chega a 100. Outros não passa de 30. A maioria corresponde a valores menores, até R$ 20.
Por mês, em média, são comercializadas 1,8 mil unidades. Para o equilíbrio da operação, seriam
necessárias, de acordo com estimativa interna, ao menos, 3 mil. “Mais atendo telefonemas do que vendo passagens em determinados períodos”, afirma Souza. Nos dias úteis, são 26 partidas, principalmente das empresas Expresso Azul, Planalto e Viação União Santa Cruz. Embora todas as faixas etárias utilizem o serviço, há especial demanda de pessoas acima dos 50 anos.
Outro ponto citado acerca da importância diz respeito às encomendas, serviço bastante utilizado tanto por profissionais do município, especialmente dentistas, quanto pelo público em geral. Os produtos vêm de locais como Porto Alegre, Lajeado, Estrela e municípios da Serra. Essas localidades também figuram entre os principais destinos.
Jorge está na rodoviária de Teutônia há 28 anos, quando abriu o restaurante (hoje lanchonete) junto com a esposa. Em junho de 2020, ele assumiu a concessão em função do desinteresse do antigo responsável. Foi feita a transferência devido ao risco real de interrupção. A autorização efetiva se deu apenas no começo de 2023.
Como trabalhou por 10 anos, em outras funções, na Rodoviária de Estrela, decidiu dar sequência ao que define como “desafio”. O aumento de um para três horários diários com destino à capital foi uma das principais mudanças implementadas na época.
Divisão, estrutura e subsídio
Em paralelo, há críticas sobre a divisão do faturamento. Segundo o concessionário, 89% têm de ser repassado às empresas, enquanto que 3% são pagos ao Daer via guia de recolhimento mensal. Outros 0,5% vão para a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs). Portanto, apenas 7,5% ficam, efetivamente, no caixa da rodoviária.
A avaliação é de que esses números deveriam ser revistos em nome da saúde financeira das estações. Outro ponto mencionado é o fato de que o terminal não receber valores se o passageiro embarcar nos bairros Teutônia e Canabarro, que integram o itinerário de algumas linhas.
Dentro dessa fatia, descontam-se despesas com limpeza, manutenção básica e demais encargos. Logo, faltam recursos para investimentos maiores. Jorge admite que o prédio construído em 1974 – portanto na chamada “era de ouro das estações” – necessita de reparos e pintura. A última foi feita há 12 anos. Alega, ainda, a impossibilidade de contratação de um funcionário por conta das limitações. Logo, quando precisa se ausentar por questões de saúde ou outro imprevisto, a rodoviária fica fechada.
Nesse contexto, uma das saídas apontadas seria um auxílio do Executivo para melhorar a aparência do terminal e, quem sabe, investir em pessoal, de olho numa eventual sucessão. Jorge afirma que a gestão anterior concedia incentivo mensal de R$ 2 mil, inclusive, aprovado pela Câmara. Contudo, o assunto não teria evoluído após a troca de governo.
“Antigamente, as rodoviárias eram consideradas pontos de referência, cartões de visitas para os municípios. Mesmo com os problemas, o serviço vai continuar enquanto tiver condições”, observa.
Sobre a questão do possível subsídio, a prefeitura disse que não tem uma posição sobre o tema neste momento.
Nos demais municípios da microrregião, não existem mais estações rodoviárias. Há apenas pontos de embarque e desembarque, nos quais, geralmente, as passagens são adquiridas na hora ou, de acordo com a disponibilidade, compradas por aplicativo. Porém, horários são limitados, especialmente aos fins de semana e feriados.

Prédio necessita de reparos estruturais e pintura. A última foi feita há 12 anos. Dificuldades financeiras impedem investimentos. Foto: Marcel Lovato
Improvisos preocupam
Para o Sindicato de Agências e Estações Rodoviárias no Estado do Rio Grande do Sul (Saerrgs), é necessário ampliar o diálogo entre todos os envolvidos para buscar soluções que contenham essa sangria. Sobre as paradas em locais informais ou improvisados, a entidade menciona “um vazio de responsabilidade” e ausência do mínimo padrão de atendimento aos usuários.
Entre os principais apontamentos, estão as dificuldades de acesso, ausência de salas de espera, banheiros e/ou ambiente adequado para se alimentar, bem como proteção contra o clima. Há ainda a distância em relação às áreas centrais e o fator segurança. Em algumas cidades, o desembarque ocorre até mesmo em rodovias. A Saerrgs ainda defende uma regularização e fiscalização mais rigorosa dos usuários dos aplicativos de carona, como o BlaBlaCar. Nele, o valor final da viagem, na maioria das vezes, é menor que o de uma passagem.
Algumas empresas também fazem campanha explícita contra a utilização dessas plataformas e alegam riscos à integridade dos usuários, com cartazes fixados no interior dos ônibus e nas rodoviárias.
Posição do Daer
O diretor-geral do Daer, Luciano Faustino, afirma que a autarquia tem atuado para “viabilizar soluções”, como a modificação de categoria das rodoviárias de modo a reduzir tarifas e a prorrogação de prazos para cumprimento de obrigações contratuais. São seis classificações, de acordo com a receita média bruta mensal. Conforme ata de março de 2023, a mais recente disponível, Teutônia consta no grupo 4 (até R$ 10.452,33).
“As dificuldades são decorrentes ainda da pandemia que mudou a forma como as pessoas se deslocam. O sistema de caronas remuneradas não é legalizado e o Daer não tem competência para fiscalizar”, complementa Faustino.
O que acontece após o encerramento?
A partir do término de uma operação, o Daer comunica a prefeitura. O município, esclarece a autarquia, verifica se comerciantes locais se interessam na venda de passagens, a fim de possibilitar o encaminhamento de uma autorização provisória para que o serviço volte a ser disponibilizado. Caso haja sinal verde, deve haver o comunicado para novo procedimento de contratação.
Faustino menciona, ainda, que o encerramento de uma concessão não implica na interrupção das operações da empresa transportadora. Isso significa que as linhas seguem com o atendimento normal, embora com adaptações no itinerário na maior parte das situações.

Assim como a maioria dos prédios ainda em atividade, terminal de Teutônia foi erguido na década de 1970. Foto: Arquivo Frederico Wessel/Divulgação