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DIREITOS HUMANOS

Brasil registra 84,7 mil desaparecimentos em 2025 e mantém tendência de alta

Média chegou a 232 casos diários. Números são 4% superiores aos registrados no ano anterior

Por: Agência Brasil

31/01/2026 | 11:24
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O Brasil contabilizou 84.760 casos de desaparecimento de pessoas em 2025, o equivalente a uma média de 232 ocorrências por dia. O número representa aumento de 4,1% em relação a 2024, quando foram registrados 81.406 casos.

Os dados são do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) e mostram que, mesmo após a criação da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, em 2019, o país não conseguiu conter o crescimento dos registros. Naquele ano, foram contabiladas 81.306 ocorrências. A política estabelece diretrizes para integrar ações de segurança, saúde e assistência social na localização de pessoas desaparecidas.

Desde 2015, quando houve 75.916 registros, o total anual só apresentou queda em 2020 (63.151) e 2021 (67.362), período marcado pelas restrições da pandemia da covid-19. Segundo especialistas, a redução está associada à dificuldade de acesso às delegacias e à subnotificação.

A coordenadora do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes/UnB), Simone Rodrigues, afirma que a diminuição naquele período foi circunstancial. “Há um consenso de que esta queda momentânea foi causada pela pandemia, pelo fato de as pessoas terem que ficar em casa”, disse.

Pessoas localizadas

O número de pessoas localizadas também cresceu nos últimos anos. Em 2020, 37.561 pessoas reapareceram ou foram encontradas. Em 2025, o total chegou a 56.688, alta de 51% no período e de 2% em relação a 2024, quando foram localizadas 55.530 pessoas.

Segundo Simone Rodrigues, o aumento reflete tanto o maior volume de registros quanto o aprimoramento das ferramentas de busca. “Tenho visto um maior empenho em promover a interoperabilidade dos dados e a comunicação entre instituições federais, estaduais e municipais”, afirmou.

A especialista destaca, porém, que os números oficiais não retratam toda a complexidade do problema, já que muitos casos estão associados a crimes não esclarecidos e não chegam a ser formalmente registrados.

Subnotificação

De acordo com Simone, contextos de violência, atuação de grupos criminosos e vulnerabilidade social contribuem para a subnotificação. “Em áreas com milícias ou outros grupos, familiares deixam de notificar. Indígenas e pessoas em situação de rua também raramente registram ocorrências. Mesmo elevados, os números não são fidedignos”, avaliou.

Ela acrescenta que os desaparecimentos podem envolver diferentes formas de violência, como feminicídio, tráfico de pessoas, trabalho análogo à escravidão, LGBTQfobia e ocultação de cadáveres.

Política Nacional

Para a coordenadora do ObDes/UnB, a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas representou um avanço inicial, mas ainda enfrenta limitações. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, considerado o principal instrumento da política, só foi criado em 2025 e conta com adesão parcial dos estados.

Segundo a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), 12 das 27 unidades da federação estão integradas ao cadastro: Acre, Alagoas, Amapá, Amazonas, Bahia, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Sergipe e Tocantins.

“Ainda é tudo muito fragmentado. Os dados biométricos são separados por estado e os sistemas não conversam entre si”, explicou Simone.

Crianças e adolescentes

Em 2025, 28% dos desaparecidos tinham menos de 18 anos. Enquanto o total geral cresceu 4% entre 2024 e 2025, os casos envolvendo crianças e adolescentes aumentaram 8%, passando de 22.092 para 23.919 registros.

Entre os desaparecimentos gerais, homens representam 64% dos casos. Já no público infantojuvenil, 62% das ocorrências envolvem meninas.

Segundo a especialista, parte dos casos está ligada a contextos de violência doméstica, o que exige cuidado na atuação do poder público. “O Estado tem a obrigação de buscar qualquer pessoa desaparecida, principalmente crianças e adolescentes, sem estereótipos ou prejulgamentos”, afirmou.

Ações e aperfeiçoamentos

O Ministério da Justiça e Segurança Pública reconheceu a subnotificação, mas afirmou que o aumento de 4% não indica necessariamente crescimento real dos casos. A pasta informou que trabalha na padronização das informações, capacitação das polícias civis, campanhas de coleta de DNA de familiares e ações de comunicação.

Sobre a adesão ao Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas, o ministério informou que a expectativa é integrar os demais estados ainda no primeiro semestre de 2026.

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