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Indústria moveleira

Mão de obra e inovação para para destravar potencial do setor

Qualificação profissional, cooperação entre empresas e investimentos em tecnologia são apontados como caminhos para ampliar a competitividade do segmento em Teutônia

Por: Marcel Lovato

07/03/2026 | 07:30 Atualização: 07/03/2026 | 11:03
Um dos aspectos mais destacados pelos empresários consiste em obter recursos para aprimorar maquinário. Fotos: Gabriela Arendt
Um dos aspectos mais destacados pelos empresários consiste em obter recursos para aprimorar maquinário. Fotos: Gabriela Arendt

Um setor amplo, forte, mas que precisa superar algumas barreiras para destravar todo o seu potencial, especialmente diante da proximidade com o polo da Serra Gaúcha. Este é o panorama da indústria moveleira em Teutônia. Hoje, são cerca de 50 empresas ligadas à fabricação e comercialização de móveis, esquadrias e outros componentes, conforme lista disponibilizada pela CIC Teutônia.

Sócio da 3F1B Móveis Estratégicos, Lari Flach destaca que o município está, no mínimo, 20 anos atrasado no que diz respeito à tecnologia, se comparado com Bento Gonçalves, por exemplo. Há, segundo ele, necessidade de mais inovação, automatização dos processos e estudos.

Investimentos e importância da colaboração

Investimentos na qualificação das máquinas e equipes, portanto, são primordiais para manter a competitividade. Nisso, a reserva de recursos faz toda diferença ou mesmo a busca de crédito. Buscar formas de evitar a acomodação. “Temos de estar preparados para atender clientes grandes. A estratégia é sempre entregar a solução adequada”, afirma. A empresa é especializada em mobiliário comercial para lojas, supermercados, farmácias, entre outros, com foco nos três estados do Sul e na capital paulista.

Também à frente da empresa, a gestora administrativa, Adriana Borgelt, destaca a alta carga tributária, mas a importância de uma mudança de mentalidade no setor local, com mais cooperação, troca de experiências e menos competitividade. Em sua visão, o mercado local deve entender que o diálogo e a sequência de bons exemplos são triunfos para os ganhos serem coletivos.

“Há clientes em todos os cantos e o aproveitamento das oportunidades depende de melhores estratégias de negócio e valorização do produto, que é de alto nível”, enfatiza Adriana. Nesse sentido, a empresária lembra quando a implantação de um “Selo de Qualidade” chegou a ser ventilada para os moveleiros de Teutônia. Contudo, não houve avanço justamente pelos padrões distintos observados no setor e pontos de vista conflitantes.

Ela e Flach entendem, ainda, que o poder público poderia apoiar na capacitação dos empresários e colaboração, com a realização de cursos e treinamentos, o que contribuiria para elevação do patamar moveleiro. A 3F1B possui capacidade diária de produção que varia entre 170 e 200 metros quadrados de MDF cortados.

Desafios com a mão de obra

Para o sócio da Esquadrias Baiana, Everton Luersen, uma dificuldade está na formação de marceneiros. De acordo com o empresário, é necessário, em média, de 8 a 10 anos para ele estar pronto. Hoje, todos que atuam na área de madeira são aposentados. Portanto, possuem longa experiência. Afinal de contas, a intervenção humana é indispensável em alguns processos e o conhecimento faz toda a diferença na configuração do produto final. Por isso, o profissional avalia como fundamental a adoção de medidas, de modo geral, para atrair as novas gerações e garantir a renovação da mão de obra nos próximos anos.

Vindas de estados do Centro Oeste, as madeiras Louro Freijó e Garapeira são as principais matérias-primas. Entre as curiosidades, está a secagem da resina, que, em alguns casos, pode chegar a 15 anos.
Em relação ao panorama do setor moveleiro local, o técnico Arthur Luersen sublinha a relevância de levar o nome de Teutônia para outras regiões, uma vez que os principais mercados são o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Esporadicamente, há pedidos de estados como São Paulo, Goiás e Amazonas.

Embora trabalhe também com madeira, o PVC representa uma importante frente de trabalho. O material, por exemplo, corresponde a 95% das esquadrias externas. Cada segmento possui um pavilhão próprio. A empresa gera em torno de 70 empregos diretos e indiretos.

Análise do setor

Para o diretor do setor moveleiro no Sinduscom-VT, Jovane Luiz Krützmann, houve uma evolução visível no nível tecnológico das marcenarias e demais empresas, com o acesso mais facilitado, na comparação com décadas atrás, aos softwares de desenho. Atualmente, a profissionalização tem sido encarada com mais ênfase, embora também entenda que a instabilidade do setor dificulta a retenção de talentos para qualificar.

“Existe uma enorme carência de profissionais com formação de nível técnico. A realidade de nosso

Formação de marceneiros em larga escala e atração de profissionais são pontos-chave para o futuro

sistema de educação praticamente extinguiu esta faixa de graduação, infelizmente. Hoje, a maioria das empresas acaba subdimensionando a produção por falta deste funcionário”, aponta.

Com a facilidade e democratização de acesso à matéria-prima, os marceneiros autônomos e informais acabaram se proliferando na mesma velocidade, contribuindo para o aumento da informalidade e sem geração de impostos sobre as vendas. Krützmann acrescenta, ainda, que o Sebrae oferece cursos de capacitação em gestão de processos, fluxo de caixa e outros, porém, ainda há muita resistência dos empresários em “abrir as portas” da sua empresa para que um consultor participe das operações e ofereça soluções inovadoras.

“Ainda há um longo caminho a ser percorrido para que a região do Vale do Taquari possa ser considerada referência moveleira. Temos muitos obstáculos, principalmente, a falta de cooperação mútua entre as empresas, como compartilhamento de operações específicas e a equalização da ociosidade, entre tantas outras”, acrescenta o dirigente. Sobre a proximidade com o polo moveleiro de Bento Gonçalves, a influência é indireta, uma vez que a relação se dá, quase que exclusivamente, pela participação das empresas de Teutônia e região nas feiras. Nesse sentido, o Senai da cidade serrana poderia contribuir no processo de qualificação e evolução.

Para ele, cabe a cada empresário, micro, médio ou grande, fazer seu planejamento, determinar claramente quem é seu cliente e, de forma organizada, buscar seu espaço dentro de um ramo que sempre terá demanda. Tudo vai depender se o cliente que ele determinou está num momento favorável e disposto a investir num projeto de mobiliário e interiores, para ter um nível elevado de conforto para sua família.

O que diz o Poder Público

A Prefeitura de Teutônia confirma que, atualmente, não há oferta de cursos específicos para áreas relacionadas ao setor moveleiro. Há apenas a habilitação para algumas formações do RS Qualificação, oferecidos pelo Governo do Estado, e que estão em fase de inscrição.

No entanto, o Executivo destaca que compreende a importância econômica do setor moveleiro e está aberto ao diálogo para a busca de soluções capazes de atender a essa demanda.

Panorama estadual

No cenário nacional, o Rio Grande do Sul se destaca como o segundo maior produtor de móveis. Conforme a Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Amovergs), são cerca de 2,4 mil empresas. Em 2024, ano do último levantamento, gerou cerca de 34 mil empregos diretos. O faturamento, por sua vez, alcançou os R$13,65 bilhões no período, o equivalente a 15,2% da receita nacional do segmento.

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