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“Ao rever meus ex-alunos eu sinto o reconhecimento, sinto que o dever foi cumprido”

O quadro Ilustre Cidadão entrevista Flávio Tiggemann

01/05/2026 | 12:37

O ex-professor e ex-diretor Flávio Tiggemann tem 69 anos. Natural de Linha Capivara, até os 29 anos trabalhou na agricultura e assumiu o cuidado dos pais. Iniciou como professor leigo em 1985, atuando nas escolas multisseriadas André Marcolino Mallmann, em Linha Capivara, até 1989, e Manoel Ribeiro Pontes, de 1989 a 2001. Concomitantemente, já lecionava na Escola Bento Gonçalves, em Boa Vista, onde permaneceu até 2023, somando, portanto, 38 anos dedicados ao ensino. Casado com Malia e pai de Jóice, Tiago e Alberto, o professor Flávio aproveita o momento curtindo o neto Benício, de 3 anos, e desenvolve a função de tesoureiro na Comunidade Luterana Betânia, de Boa Vista.

Como surgiu o convite para trabalhar como professor?

Professor Flávio – Certo dia, viajando na carroceria de um caminhão leiteiro – o que era de praxe naquele período – ouvi uma voz me chamando. Era o professor Selby Wallauer, que era o secretário de Educação, me dizendo que eu seria professor em Linha Capivara. Eu questionei se ele estava brincando comigo, mesmo porque eu não tinha formação e sugeri que ele procurasse outra pessoa. Mas ele insistiu, disse que tinha visto um relatório de atividades do E.C. Guarani que eu tinha escrito, que já havia falado com o prefeito Elton Klepker (in memoriam) e recebido a autorização para me contratar. Eles apostaram em mim e eu fiz o meu melhor. Iniciei como professor leigo em 1985 e logo busquei a formação no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (Cefap), em Estrela, e me formei em 1988. Depois, cursei Língua Portuguesa e Literatura em Canoas.

E como era trabalhar nas escolas multisseriadas?

Professor Flávio – Foram muitos desafios, mas a questão crucial foi a alfabetização, que é um problema da educação ainda hoje em dia. Mas posso afirmar que já no meu primeiro ano como professor utilizei todo o conhecimento que eu tinha para alfabetizar e consegui alcançar este objetivo com os cinco alunos da primeira série. Na mesma sala, eu tinha ainda os alunos do segundo ao quinto ano. Outros professores, como o Godofredo Lagemann (in memoriam), chegavam a ter cerca de 100 alunos em escola multisseriada e davam conta. Sabe por quê? Porque havia ordem e disciplina. Um detalhe importante: esses alunos vinham com educação e orientação de casa. Nós não gastávamos 10% do tempo para controlar eventuais intrigas e reclamações. Quanto ao conteúdo, era possível passar porque a gente abordava o mesmo tema para dois ou três anos, só que de forma segmentada, graduando dificuldades. Isso me levou a perceber que a capacidade do ser humano é inesgotável, não tem limite. Na hora que a pessoa é posta em situações difíceis, ela consegue resolver, consegue superar.

Quando o senhor assumiu integralmente a Escola Bento Gonçalves?

Professor Flávio – Foi em 2001. Além da escola, eu era responsável também pela administração da creche. A gente se desdobrava sempre fazendo o melhor, com comprometimento e seriedade, vestindo a camiseta. Permaneci na escola até 2023.

Como foi o processo da construção da nova escola no Bairro Boa Vista?

Professor Flávio – Foi um ganho muito importante. O antigo prédio não era da municipalidade e isso impedia fazer investimentos com recursos públicos. Percebemos que era hora de uma nova estrutura, o número de alunos estava aumentando e iniciamos o processo, após colher assinaturas num abaixo-assinado. Foi um processo demorado, mas em 2018 inauguramos o novo prédio da Bento Gonçalves. Ela vem crescendo muito e a tendência é que possa se tornar uma escola-polo, recebendo alunos dos bairros próximos.

Qual o sentimento que o senhor tem pela dedicação de tantos anos?

Professor Flávio – Um sentimento muito bom, porque, ao rever meus ex-alunos eu sinto o reconhecimento, especialmente nos abraços que recebo. Eu sinto que o dever foi cumprido. A gente fica até emocionado quando percebe, nas entrelinhas das falas e dos gestos desses ex-alunos, um carinho muito grande. E isso não tem preço. Essa é a maior riqueza que juntei: ter paz, tranquilidade e felicidade. Hoje sou uma pessoa tranquila, com o dever cumprido e para onde vou as portas se abrem pelas pessoas de todas as gerações, de todos os níveis sociais. Faria tudo outra vez e, quem sabe, um pouco melhor ainda, porque a gente vai acumulando experiências. Hoje eu sei interpretar e dialogar melhor e acho que em todas as atividades isso acontece. Não é por nada que a sociedade está buscando pessoas com experiência e que já estavam na inatividade

Hoje, aos 69 anos, o senhor se sente pronto para iniciar uma nova atividade?

Professor Flávio – Inteiramente pronto. Como professor e educador, deixei muitos exemplos. Deixo um recado bem simples aos professores: para você ter uma relação de empatia com o aluno precisa ter postura e compostura. Você efetivamente se apresentar como professor. Você não precisa ser o melhor, mas precisa mostrar a que veio, com seriedade. E lembrar sempre que onde você estiver, em qualquer ambiente, você é o professor e você está sendo observado. E são os pequenos gestos que trazem o sucesso. Você não precisa pressionar para que as coisas aconteçam, você tem que agir naturalmente. Se você faz a parte que lhe toca, o reconhecimento vai sendo construído paulatinamente e de maneira firme.

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