“Palavra de honra!”, foi a afirmação do chefe, que consentiu. O padre Bernardo Bolle poderia continuar sua ida para Poço das Antas. E assim resolveu-se o caso.
Padre Bernardo continuou o relato:
“Montei novamente meu cavalinho e segui para o destino. A gente de Poço das Antas, ao saber das peripécias por que passei, ficou profundamente alarmada, aconselhando-me que não arriscasse retornar pelo mesmo caminho. Mas era preciso voltar e eu voltei mesmo. Encontrei, porém, alterada a situação.
Altenhofen veio acampar em Teutônia, com a força sob seu comando, e assim foi fácil apresentar-me cumprindo a palavra empenhada. A tropa na ocasião da minha chegada estava fazendo exercício. Como não conhecia pessoalmente Altenhofen, tive que ser auxiliado para encontrá-lo. A recepção não foi nada cordial.
“O senhor também faz política?”, perguntou.
“Não, não me envolvo em política”, respondi.
“Mas o senhor disse que aqui só haveria paz depois que eu fosse embora!”, retrucou.
“Eu não disse isso”, reforcei.
“Essa afirmação, entretanto, ouvi de fulano e fulano”, insistiu Altenhofen.
“Além de tudo acredita o senhor que lutando por aqui é que vai derrubar o Rio de Janeiro?”, questionei.
“É… é… o senhor tem razão”, concordou Altenhofen, que gaguejava ligeiramente.
A entrevista durou quase meia hora, inclusive acompanhada por homens de crença evangélica. Entre outras expressões de um deles ouvi o seguinte: “Nada melhorará enquanto os nossos contrários (republicanos) não ficarem todos sem cabeça.”
Altenhofen convidou-me para tomar uma xícara de café e como não notei de sua parte intenção de encerrar o caso pedi-lhe: “Bem, agora mande conceder-me um passe para que eu possa voltar para casa.”
Assim aconteceu. Chegando à casa paroquial, encontrei os companheiros de moradia. Na hora da refeição, o padre Francisco Schleipen, superior missionário, estava entre eles. Schleipen era então o superior da missão da província alemã da Companhia de Jesus no Rio Grande do Sul. Ele perguntou:
“De onde vem o senhor?”
Respondi: “Diretamente do cativeiro.”
O episódio histórico decorreu com toda a ingenuidade e, como tal, aquele tempo eu o considerava e, por isso também, nada receava. Na realidade, porém, houve a intenção de que eu fosse degolado para que, segundo afirmara Altenhofen, se estatuísse um exemplo de sua imparcialidade. Se não obstante, me concedera a liberdade, isso assim acontecera, porque eu agira falando tão franca e corajosamente.
Padre Bernardo Bolle finalizou os registros dizendo: “Por ora era só…”
Esse relato fará parte do livro de minha autoria, intitulado “A Revolução Federalista no Vale do Taquari: Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul, Arroio do Meio, Encantado, Roca Sales, Teutônia e Taquari”, que está em fase final de produção. A publicação resgata os registros originais das pesquisas do padre Alberto Träsel, meu patrono da Academia Literária do Vale do Taquari (Alivat), realizadas de 1953 a 1973.