
O jornal Informativo Regional desenvolve, ao longo do mês de março, a série “Lugar de Mulher”, trazendo relatos de trabalhadoras que se destacam em profissões que, até poucos anos atrás, eram consideradas tipicamente masculinas. O objetivo é incentivar cada vez mais a igualdade de gênero na sociedade.
A segunda entrevistada é a tenente Eliane Leal Cruz, 44 anos. Natural de Santana do Livramento, ela ingressou na Brigada Militar em 17 de fevereiro de 2013, em Lajeado. Já atuou em outros batalhões, na região da Fronteira Oeste, na Serra e em Porto Alegre, antes de regressar a Teutônia, onde já havia trabalhado antes, por 11 anos, e onde possui residência.
Hoje, Eliane atua no 40º Batalhão de Polícia Militar (BPM), que é composto por três companhias sediadas em Teutônia (1ª Cia), Estrela (2ª Cia) e Taquari (3ª Cia), abrangendo estes três municípios, além de Westfália, Poço das Antas, Paverama, Bom Retiro do Sul, Colinas, Fazenda Vilanova, Imigrante e Tabaí.

Eliane Leal Cruz
Quais são tuas atividades do 40º BPM?
Tenente Eliane Leal Cruz – Sou analista de P1, que é a parte de gestão de pessoas. Faço a parte do encaminhamento da documentação do efetivo. Mas atuo também no policiamento externo, na fiscalização da área no batalhão em toda a área do 40º BPM quando sou escalada.
Como surgiu a oportunidade, há 23 anos, de ingressar na profissão?
Tenente Eliane – Eu já cresci nesse meio. Sou filha de policial militar – meu pai era antigo cabo da Brigada Militar –, tenho irmão, primos e meu esposo que também integra a corporação. Então, quase que foi natural, porque eu sempre admirei a profissão, desde criança. Quando eu tive a oportunidade, ingressei.
E como era em 2003? Havia muitas mulheres trabalhando na BM?
Tenente Eliane – Naquela época, a presença das mulheres já era mais comum, principalmente nas cidades grandes, como Porto Alegre e Santa Maria. Mas eu ainda peguei um período que isso era novidade, principalmente nos municípios menores. No interior, algumas localidades não tinham a presença de mulheres na BM. No entanto, todos os candidatos passam pela mesma seleção, de acordo com o físico. Claro, não dá para comparar a força física de um homem com a de uma mulher, até pela questão da genética. Algumas coisas são restritas pela nossa própria condição de ser mulher, mas conseguimos nos adaptar. Com o tempo, a própria instituição se adaptou às nossas necessidades.
Na tua visão, existe ainda preconceito de gênero na corporação?
Tenente Eliane – Eu acredito que em escala bem menor. No começo, nós mulheres surgimos como novidade na área de segurança, mas, com o tempo, todos fomos nos adaptando, tanto as mulheres quanto o próprio efetivo masculino. E eu não falo só da área de segurança, mas de todas as profissões. As coisas vão se adaptando e a presença feminina vai se tornando algo normal, do dia a dia.
Nesses 23 anos, o que mais te marcou?
Tenente Eliane – Uma das coisas mais marcantes para mim, como profissional, é a perda de um colega. Isso sempre deixa marcas, porque é uma convivência. Quando ingressamos na BM, fazemos o juramento, entendemos que nosso trabalho é de risco de vida, mas, mesmo assim, nunca esperamos perder um colega.
Quais os atendimentos que consideras mais desafiadores?
Tenente Eliane – As ocorrências que geram riscos, os atendimentos a incêndios, enfim, as situações que geram medo. Sabemos que o medo é necessário para o ser humano, até porque esse sentimento faz com que a gente possa ter reações, fazendo com que a gente tome outras atitudes e evite o mal maior.
Qual a tua mensagem para as mulheres que gostariam de encarar um trabalho classificado como diferente?
Tenente Eliane – Eu entendo que as mulheres devem procurar não só a igualdade, mas uma equidade: elas devem buscar atingir seus objetivos através da força pessoal, do seu crescimento, e nunca se achar inferior aos demais. Devem sempre mostrar a sua competência como mulher, porque o que vale mesmo é o conhecimento, o aprendizado e o legado que você pode deixar. O conhecimento é sempre contínuo e é fundamental repassá-lo a outras pessoas. Temos que mostrar aos demais que a mulher não é uma vítima da sociedade, mas sim alguém que vem a somar. E a gente consegue mostrar isso através do nosso trabalho. Dificuldades vão existir sempre, porém estamos aí para superar estes desafios.