Principal ligação entre o município e a BR-386, bem como Regiões Metropolitana, Sul e Litoral, a VRS-835 padece. A trafegabilidade limitada dificulta a vida de quem utiliza a rodovia diariamente ou necessita para o escoamento da produção.
Ao longo de 9,71 km, pertencentes ao Estado, o trecho apresenta buracos, trincas, afundamentos e valetas. Em alguns pontos, os condutores são obrigados a invadir a pista contrária para desviar das imperfeições, até pela ausência de acostamento.
O Informativo Regional percorreu toda a extensão na tarde de terça-feira, 3, e constatou outros problemas. Há apenas uma placa de sinalização da velocidade, já desgastada pelo tempo, e fixada na estaca de uma cerca. Não existem as indicações básicas como curvas ou declives. Apenas menções sobre atrativos turísticos, estas instaladas pela Associação dos Municípios de Turismo da Região dos Vales (Amturvales).
Ainda, a pintura da pista está fraca ou apagada na maior parte do trajeto, embora tenha sido feita há cerca de dois anos. Já a vegetação avança pela margem e até se aproxima da pista de rolamento. Essas situações podem ser observadas na área de responsabilidade do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer).
Problema antigo
Uma moradora lindeira à rodovia afirma que desde a pavimentação, realizada em 1989, a rodovia nunca passou por um recapeamento completo. Apesar de preferir não se identificar, ela menciona que reside na região desde antes da chegada do asfalto. Em quase quatro décadas, teriam ocorrido apenas manutenções paliativas, como as operações tapa-buracos.
Segundo ela, com o desgaste do asfalto, problemas mecânicos são frequentes. “Já perdi as contas de quantas vezes vi carros com pneus furados ou suspensão prejudicada”, cita. Outra questão diz respeito aos acidentes, que ocorrem tanto por conta das características da estrada, cheia de curvas, quanto pela imprudência. A moradora aponta o excesso de velocidade de alguns condutores, em especial nas descidas, o que amplia os riscos. A ocorrência mais recente, uma colisão frontal entre dois automóveis, ocorreu no dia 25 de janeiro.
Em seu site, o Daer afirma que o revestimento da estrada conta com a técnica “Pré-Misturado a Frio” (PMF), indicada para vias cujo tráfego é baixo. Por um lado, o material possui maior rapidez na execução e não necessita de estruturas complexos. No entanto, há limitações como a “como menor resistência e durabilidade”.
Trecho municipalizado
Parte da rodovia (2,11 km) foi municipalizada em novembro de 2017 na Assembleia Legislativa. O movimento iniciou dois anos antes e se justificou principalmente porque os moradores do Bairro Morro Bonito enfrentavam dificuldades com a regulamentação imobiliária.
Embora esteja em perímetro urbano, o trecho também pertencia ao Estado. Neste caso, as regras para a construção de imóveis comerciais e residenciais junto à faixa de domínio são distintas. A partir da concessão de autonomia, a prefeitura conduziu os trabalhos de ocupação das áreas.
No que tange ao asfalto, o cenário é o oposto ao estadual, com pintura nova, ampla sinalização e boas condições de trafegabilidade. Entre 2022 e 2023, essa parte recebeu investimento, via Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur), de R$ 800 mil para obras de revitalização por meio do programa Pavimenta RS. A contrapartida do município chegou a R$ 484.040,77.
Fora do radar
De acordo com a prefeita Michele Caroline de Vargas, ao menos quatro pedidos de intervenções mais amplas foram efetuados ao Daer desde o início de sua gestão, uma vez que os tapa-buracos já se mostraram pouco efetivos. “A VRS-835 possui pontos de infiltração justamente pela falta de acostamento. Logo, não basta apenas fazer reparos. A gente liga, cobra pessoalmente, mas o Estado alega que não tem recurso.”, afirma a administradora.
No penúltimo dia de 2024, o Executivo ajuizou uma ação no Ministério Público (MP) para exigir uma atenção mais ampla do Daer devido, conforme o texto, ao “descaso das autoridades”. Contudo, esclarece Michele, Taquari havia feito, semanas antes, o mesmo movimento em relação à Rodovia Aleixo Rocha (ERS-436), o principal acesso ao município, e que está localizada no sentido oposto da BR-386. Desta forma, esta ação teve prioridade. O processo paveramense está em andamento e existe uma perspectiva da administração acerca de desdobramentos nos próximos meses.
A situação se agravou a partir da instalação do pedágio da CCR Via Sul na BR-386, em fevereiro de 2020, a cinco quilômetros do entroncamento com a VRS-835. Muitos motoristas que seguem em direção a Teutônia, por exemplo, preferem cortar caminho para não terem de pagar a tarifa mínima de R$ 5,50.
Desta forma, a alta exponencial do tráfego acelerou a degradação de uma estrada já prejudicada pelo tempo, que, por sua vez, não estava preparada. Michele teme que o panorama fique ainda pior com a futura instalação dos free flows em rodovias próximas, como a Via Láctea e a RSC-453, previstas para receber pórticos de cobrança. Com esse cenário e a partir da experiência atual com o pedágio, a estrada poderia ser utilizada como uma “rota alternativa” e dificultar ainda mais a mobilidade.
Além disso, a prefeita criticou a burocracia para obtenção de autorizações simples, como a roçada das margens ou reparos feitos pela própria administração. A reclamação é pela demora ou negativa. No ano passado, um movimento comunitário também buscou executar os serviços por conta própria, mas houve recuo após a vinda das máquinas do Daer.
“O trecho está abandonado e precisa estar entre as prioridades. Não há um olhar cuidadoso. Nós imploramos uma solução. Tenho medo que aconteça uma tragédia”, conclui a prefeita.
O que diz o Daer
Em resposta aos questionamentos da reportagem, o Daer sublinhou que uma recuperação total da rodovia não está em cogitação, ao menos, por enquanto, devido a outras obras realizadas no Vale do Taquari e demais regiões. Atualmente, a autarquia concentra ações na ERS-129, entre Estrela e Roca Sales; na ERS-332, de Anta Gorda a Arvorezinha; e no acesso ao município de Travesseiro. Nestas três obras, cita, o investimento ultrapassa os R$ 175 milhões.
A assessoria informa que “serviços de recuperação de pontos críticos” foram realizados ao longo do ano passado, com a conclusão no mês de novembro. Quanto aos buracos, o problema foi atribuído às chuvas em excesso no fim do ano e ao próprio tráfego de veículos pesados, como carretas e caminhões.
Para este ano, garante que novas intervenções serão programadas, mas não há definição. Ainda, sublinhou um monitoramento constante e periódico para “garantir condições de trafegabilidade”.
Sobre a falta de placas, há ciência e a promessa é de que licitações vão ocorrer durante o primeiro semestre. Nelas, deverão estar inclusas as adequações nas sinalizações. Quanto à possibilidade de instalação de dispositivos de segurança como redutores de velocidade, foi enfatizado que essa demanda requer avaliação das equipes técnicas e poderá ser executada se houver “real necessidade e viabilidade financeira”.
Já a Secretaria Estadual de Logística e Transportes lembrou os investimentos feitos via programa “Pavimenta” em anos anteriores e que “está aberta ao diálogo com a administração para encontrar alternativas capazes de atender a demanda”.




