Impulsionada pelo crescimento da população a partir de 60 anos, a “Economia Prateada” ganha cada vez mais espaço no país. O termo é uma referência aos cabelos grisalhos de homens e mulheres que rompem históricos estereótipos atribuídos aos idosos.
Com expectativa de vida acima de 76 anos, renda e participação crescente nos mercados de consumo e negócio, esse público influencia o mercado nos mais diversos segmentos, em especial turismo, comércio e serviços, e contribui para o redesenho das estratégias.
Segundo levantamento recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Brasil possui 4,5 milhões de empreendedores com mais de 60 anos. Este número representa uma alta de quase 59% em uma década e simboliza, conforme o estudo, o desejo dessas pessoas em permanecerem ativas.
Hoje, uma em cada cinco indivíduos em idade de trabalho fazem parte deste grupo. Nos últimos anos, o setor movimentou entre 1,3 e 2 trilhões de reais. Quando se considera o contexto global, a quantia alcança US$ 7,1 trilhões, sendo a terceira maior atividade econômica.
No âmbito gaúcho, a entidade aponta que 16,5% dos lares são chefiados por idosos e esse grupo tem uma renda média de R$ 4.054, superior a de muitos adultos mais jovens. Além disso, o público sênior está cada vez mais digitalizado, uma vez que 66% usam a Internet regularmente e 81% realizam ou planejam compras on-line. Tais comportamentos reforçam que o mercado está aberto à criação ou adaptação de produtos e serviços, inclusive para atender a esse público.
Força no crochê
Dona da Biovest, loja especializada em produtos personalizados em crochê e bordados, no Bairro Languiru, Ingrid Borgelt Dickel, 66, empreende há quase 24 anos no negócio familiar. Ela iniciou na atividade após deixar a Cooperativa Languiru, onde era gerente de loja de confecção e compradora, incentivada por uma amiga.
Com o tempo, a filha Taís Dickel se tornou seu braço direito e a auxilia no dia a dia, especialmente com a tecnologia. O marido Ricardo e o filho Tomas também prestam suporte.
Segundo Ingrid, os crochês e bordados representam 80% das vendas. Ela conta com cinco crocheteiras, que trabalham nas suas casas. Elas recebem a matéria-prima e executam as demandas. Todas são da mesma faixa etária ou até de idade mais avançada. Logo, valoriza-se o conhecimento de um ofício aprendido por elas há décadas, ao mesmo tempo em que as mantém em atividade.
Em uma frase, o nome da empresa significa “vestir seu lar com mais vida”. Para a proprietária, um dos segredos da longevidade empresarial é a autenticidade, qualidade e atender bem o cliente, mesmo que ele não feche o negócio naquele momento, pois ele irá se lembrar da forma como foi tratado. A loja cultiva relações de parceria há mais de 20 anos, tanto que ainda guarda anotações daquele período.
Ingrid faz parte de uma família de vendedores. Logo, aprendeu as técnicas tanto na teoria quanto na prática. “O negócio tem de ser sólido, mesmo diante das dificuldades. Penso sempre no que podemos mudar, evoluir, para seguirmos firmes e fortes”, afirma. Ela acrescenta que isso inclui “fazer o crochê até as 23h enquanto assisto televisão”.
A empresária enfatiza a felicidade em estar na ativa e aconselha contemporâneos a seguirem o mesmo caminho, se for o desejo. “Acredito que sempre é válido tentar, mas é preciso cautela. A melhor forma é investir em um ramo com o qual você tenha afinidade. Trata-se de elevar a autoestima, ter a satisfação em contribuir. Necessitamos de mais empreendedores acima dos 60 anos, que dialoguem e compreendam nossas necessidades”, encerra.
Liberdade
Depois de uma vida inteira como engenheiro mecânico, profissão na qual ainda atua, e com passagem pelo ramo de energia solar, Jorge Prado Filho (68) abriu o próprio negócio há três anos. Ele comanda a Rhay Mobilidade Elétrica e se orgulha de fazer tudo no seu negócio: das vendas às peças gráficas para as redes sociais. Ainda, se considera um ser “didático e antenado às tendências”.
Após se aposentar, o empresário entendeu que a ociosidade não era uma opção. Então, buscou formas de aproveitar a bagagem intelectual. Primeiro, na energia e depois na mobilidade elétrica. Neste ramo, ele enxergou o crescimento em nível nacional e foi o pioneiro em Teutônia. A aposta se mostrou certeira.
Hoje, o seu principal perfil de cliente é justamente o idoso. “Mais do que mobilidade, eu vendo a liberdade de ir e vir, não depender de terceiros. O cliente 60+ consegue abrir horizontes, virar a chave e ficar mais contente. É importante oferecermos condições para esse público aproveitar a vida”, destaca Jorge. Paralelamente, sublinha o simbolismo de “nunca ser tarde para demonstrar o valor e transformar a própria trajetória”.

Há três anos, Jorge empreendeu na mobilidade elétrica quando o ramo
ainda não possuía representatividade local
O diferencial da experiência
O engenheiro elétrico, Rainer Büneker, 61 anos, lembra que os pais e avós tiveram várias profissões ao longo de suas vidas, conforme realidades e necessidades. Esse histórico serviu de inspiração para seguir, como define, na “contribuição com inovações e otimizar os recursos seja de clientes ou permissionários”. Atualmente, trabalha com instalações comerciais e industriais.
Para ele, o maior desafio é encontrar um ponto médio entre a tecnologia de ponta e aquela que realmente o consumidor tem condições de pagar e lhe traga um bom retorno. Ou seja, encontrar a viabilidade para cada cliente. Ao mesmo tempo, reconhece a importância de aprender sempre a lidar com as redes sociais e aplicativos. “Profissionais jovens são mais ágeis, mas não têm a vivência dos seniores”, aponta Rainer.
Em relação ao mercado, aponta uma exigência cada vez maior, principalmente no que tange ao preparo. Logo, os 60+ possuem boas chances por conta da experiência, ainda mais em serviços específicos, nos quais a chance de falha deve ser reduzida ao máximo. Os integrantes da Economia Prateada, então, podem levar vantagem justamente pela ciência dos procedimentos a serem adotados para garantir segurança, eficiência e competitividade.
Visão como consumidor
Ao avaliar o mercado enquanto consumidor, Rainer acredita que a paciência é uma das principais virtudes a serem trabalhadas por quem atende o público 60+. Essa questão deve ser trabalhada, inclusive, no âmbito corporativo na hora de troca de ideias entre as gerações para atualizações ou assessoramentos.
Para Jorge, os setores de comércio e serviços, principalmente, não estão preparados o suficiente para atender à sua faixa etária, o que se estende à infraestrutura pública em diversos aspectos. “Faz-se necessário uma série de melhorias para não sermos esquecidos, a começar pelo tratamento, a acessibilidade. O respeito e a consideração são fundamentais com aqueles que ajudaram a construir a nossa sociedade”, avalia.
Além desses pontos, Ingrid menciona a ausência de empatia em determinados atendimentos, o que inclui, no contexto teutoniense, o desconhecimento do idioma alemão. Essa situação cria uma barreira e dificulta a conexão entre empresa e cliente, pois muitos idosos, por exemplo, mal falam a língua portuguesa. “Parte dos jovens ainda não entendeu que um dia eles também serão idosos. Cabe às empresas investir mais em capacitação para lidar com esse público”, encerra.
