4 de abril de 2025
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Hospital Teutônia Norte

Do início em 1936 à prisão de médico na ditadura: conheça o passado da antiga casa de saúde

Prédio que pode ser alvo de demolição manteve atividades intensas por pelo menos quatro décadas. Conheça as origens da instituição, que faz parte da história de Teutônia

13/03/2025 | 15:50 Atualização: 13/03/2025 | 15:51
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A interdição nesta semana e a possibilidade de demolição do antigo Hospital Teutônia Norte, sugerida em laudo pericial à Defesa Civil do município, reativa as memórias em torno da histórica construção. Em estado de abandono há cerca de 40 anos, o local foi sede de importante instituição de saúde, cujas atividades iniciaram em 1936.

Os primeiros responsáveis foram Arnildo Schneider (1912-2002) e Hermina Schneider (1917-2002). Conforme texto do historiador Selby Wallauer – publicado na página do Facebook “Teutônia Antiga”, do pesquisador Frederico Wessel –, Hermina supervisionava a cozinha e mantinha a limpeza, coordenando sua equipe, enquanto que Arnildo mantinha a escrituração financeira em dia.

Entre os médicos que atuaram no hospital, o conteúdo menciona: Ernani Bernhardt, 1940; Hércio Pegas, 1948; Lino Eloi, 1964; Dr.Gehlen, Telmo de Aguiar, 1966; e Nelson Ruschel. Entre as enfermeiras, estiveram Anilda Huwe, Gerda Mukenfuss Wolff, Frida Schneider, Schwester Luisa e Gladis Luersen.

Destaque para o fato que, em 1964, o Dr. Lino Eloy foi acusado de pertencer ao “Grupo dos Onze”, liderado por Leonel de Moura Brizola, que supostamente tinha o objetivo de implantar no Brasil um regime socialista. Como consequência, o único médico do Hospital Teutônia Norte foi preso pelo regime militar.

“De imediato, a Comunidade Evangélica de Teutônia reagiu. Seu presidente Evaldo Driemeier, exaltado com o fato, procurou o contador do Colégio Teutônia, sr. Ovidio Driemeier, que prontamente organizou uma Comissão que se encaminhou ao ‘Dops’ (Departamento de Ordem Política e Social) conseguindo, em poucos dias, a soltura do médico ‘subversivo’”, consta no relato histórico.

LINHA DO TEMPO

Histórico fornecido pelo pesquisador Frederico Wessel. Datas se baseiam no relato de pessoas da comunidade.

  • 1936 – Início das atividades do Hospital Teutônia Norte, ainda com uma parte do prédio (onde está o letreiro). Construído por Adolfo Horst.
  • 1946 – Construção da ampliação (anexo), que fica à direita do prédio. Inclusão de novo acesso e uma nova ala com dois pisos. Construído por Arnildo Schneider (pai do médico Silvério Schneider), que era genro de Adolfo Horst.
  • 1964 – Regime Militar enfraqueceu o funcionamento do hospital. Médico da época foi preso.
  • Década de 70 – Arnildo Schneider vendeu o hospital. Há controvérsias até hoje sobre valores da negociação e o pagamento pela área. Não se encontrou registros de propriedade.
  • 1972/1973 – Encerramento das atividades como hospital.
  • 1975 – Pintura do prédio. Já não funcionavam as internações. Só consultas médicas.
Passado recente

O município de Teutônia tomou posse da área em 1° de abril de 2014, após decisão liminar expedida pela 1ª Vara da Comarca local. Para justificar a desapropriação, a prefeitura – durante o segundo mandato de Renato Altmann – informou que, “além do abandono, do péssimo estado de conservação e da má imagem”, a ideia era implantar uma área de lazer para a comunidade, com praça, bancos, brinquedos para as crianças, entre outros itens.

Quanto ao prédio, diversos usos foram cogitados na época: criação de um centro cultural, de um museu industrial, realização de oficinas de música e artes, ou mesmo um centro de atividades para os idosos durante o dia.

Para tomar posse, a prefeitura depositou em juízo, na época, o valor venal do imóvel, R$ 150.440.19, como ressarcimento ao proprietário. No entanto, a família ingressou na Justiça, discordando do valor proposto.

Após uma perícia de avaliação em 2017, o valor do imóvel foi estabelecido em R$ 1,350 milhão. Em abril de 2024, após uma década de batalha judicial, ficou definido o valor de desapropriação em R$ 4,5 milhões.

Leilões frustrados

A gestão anterior do governo municipal, liderada pelo ex-prefeito Celso Forneck, tentou leiloar o imóvel em pelo menos três ocasiões, mas não houve interessados. Na primeira tentativa, em 2023, a área foi oferecida para fins de turismo, gastronomia ou comércio.

Já em fevereiro de 2024, abriu-se a possibilidade também para criação de espaços culturais e de lazer ou estabelecimento comercial. A última tentativa foi no segundo semestre de 2024, após a prefeitura alterar o edital incluindo a possibilidade de fins residenciais.

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