A interdição nesta semana e a possibilidade de demolição do antigo Hospital Teutônia Norte, sugerida em laudo pericial à Defesa Civil do município, reativa as memórias em torno da histórica construção. Em estado de abandono há cerca de 40 anos, o local foi sede de importante instituição de saúde, cujas atividades iniciaram em 1936.
Os primeiros responsáveis foram Arnildo Schneider (1912-2002) e Hermina Schneider (1917-2002). Conforme texto do historiador Selby Wallauer – publicado na página do Facebook “Teutônia Antiga”, do pesquisador Frederico Wessel –, Hermina supervisionava a cozinha e mantinha a limpeza, coordenando sua equipe, enquanto que Arnildo mantinha a escrituração financeira em dia.
Entre os médicos que atuaram no hospital, o conteúdo menciona: Ernani Bernhardt, 1940; Hércio Pegas, 1948; Lino Eloi, 1964; Dr.Gehlen, Telmo de Aguiar, 1966; e Nelson Ruschel. Entre as enfermeiras, estiveram Anilda Huwe, Gerda Mukenfuss Wolff, Frida Schneider, Schwester Luisa e Gladis Luersen.
Destaque para o fato que, em 1964, o Dr. Lino Eloy foi acusado de pertencer ao “Grupo dos Onze”, liderado por Leonel de Moura Brizola, que supostamente tinha o objetivo de implantar no Brasil um regime socialista. Como consequência, o único médico do Hospital Teutônia Norte foi preso pelo regime militar.
“De imediato, a Comunidade Evangélica de Teutônia reagiu. Seu presidente Evaldo Driemeier, exaltado com o fato, procurou o contador do Colégio Teutônia, sr. Ovidio Driemeier, que prontamente organizou uma Comissão que se encaminhou ao ‘Dops’ (Departamento de Ordem Política e Social) conseguindo, em poucos dias, a soltura do médico ‘subversivo’”, consta no relato histórico.
LINHA DO TEMPO
Histórico fornecido pelo pesquisador Frederico Wessel. Datas se baseiam no relato de pessoas da comunidade.
- 1936 – Início das atividades do Hospital Teutônia Norte, ainda com uma parte do prédio (onde está o letreiro). Construído por Adolfo Horst.
- 1946 – Construção da ampliação (anexo), que fica à direita do prédio. Inclusão de novo acesso e uma nova ala com dois pisos. Construído por Arnildo Schneider (pai do médico Silvério Schneider), que era genro de Adolfo Horst.
- 1964 – Regime Militar enfraqueceu o funcionamento do hospital. Médico da época foi preso.
- Década de 70 – Arnildo Schneider vendeu o hospital. Há controvérsias até hoje sobre valores da negociação e o pagamento pela área. Não se encontrou registros de propriedade.
- 1972/1973 – Encerramento das atividades como hospital.
- 1975 – Pintura do prédio. Já não funcionavam as internações. Só consultas médicas.
Passado recente
O município de Teutônia tomou posse da área em 1° de abril de 2014, após decisão liminar expedida pela 1ª Vara da Comarca local. Para justificar a desapropriação, a prefeitura – durante o segundo mandato de Renato Altmann – informou que, “além do abandono, do péssimo estado de conservação e da má imagem”, a ideia era implantar uma área de lazer para a comunidade, com praça, bancos, brinquedos para as crianças, entre outros itens.
Quanto ao prédio, diversos usos foram cogitados na época: criação de um centro cultural, de um museu industrial, realização de oficinas de música e artes, ou mesmo um centro de atividades para os idosos durante o dia.
Para tomar posse, a prefeitura depositou em juízo, na época, o valor venal do imóvel, R$ 150.440.19, como ressarcimento ao proprietário. No entanto, a família ingressou na Justiça, discordando do valor proposto.
Após uma perícia de avaliação em 2017, o valor do imóvel foi estabelecido em R$ 1,350 milhão. Em abril de 2024, após uma década de batalha judicial, ficou definido o valor de desapropriação em R$ 4,5 milhões.
Leilões frustrados
A gestão anterior do governo municipal, liderada pelo ex-prefeito Celso Forneck, tentou leiloar o imóvel em pelo menos três ocasiões, mas não houve interessados. Na primeira tentativa, em 2023, a área foi oferecida para fins de turismo, gastronomia ou comércio.
Já em fevereiro de 2024, abriu-se a possibilidade também para criação de espaços culturais e de lazer ou estabelecimento comercial. A última tentativa foi no segundo semestre de 2024, após a prefeitura alterar o edital incluindo a possibilidade de fins residenciais.