Formada em Direito, com especialização em Direito Civil e Direito Processual, Miriam Guedes Santiago Krindges é natural do estado de São Paulo e tem 38 anos. Embora sua formação seja jurídica, hoje ela se dedica integralmente ao Sítio Rosa do Vale, em Boa Vista, Poço das Antas. Mulher negra, ela inseriu, no meio do turismo rural e do enoturismo – atividades tipicamente das colonizações germânica e italiana –, o afroturismo, como forma de combater o preconceito, possibilitando que a região conheça e compreenda melhor a cultura afro-brasileira.
Quais as atividades que o Sítio Rosa do Vale oferece?
Miriam Guedes Santiago Krindges – No Sítio Rosa do Vale trabalhamos em regime de agricultura familiar e desenvolvemos um conjunto de experiências voltadas ao visitante. Entre elas estão a visitação guiada pela vinícola, com degustação dos vinhos e espumantes produzidos no local; o passeio de trator pelos parreirais, que apresenta nossa rotina agrícola; e o piquenique entre as parreiras, criado para proporcionar contato direto com a natureza. Nosso trabalho integra turismo rural, afro turismo e enoturismo, sempre valorizando a cultura local e a produção familiar.
Recentemente, o sítio ganhou destaque ao promover a “pisa da uva”. Como é esta atividade?
Miriam – Sim, a experiência segue em andamento e é hoje uma das marcas do empreendimento. Somos a única vinícola do mundo a oferecer o Samba da Uva, uma experiência de pisa da uva acompanhada por uma roda de samba. A proposta une elementos da cultura africana, representada pelo samba, com aspectos da cultura germânica presentes na região, principalmente na gastronomia. Durante a vivência, servimos pratos típicos da comunidade como Kartoffelknödel (bolinho de batata), Hobelspäane (cueca virada), pão de milho, schmier, queijo, além da degustação de seis rótulos da vinícola e do passeio de trator. A pisa ocorre principalmente durante a vindima, entre janeiro e março. O simbolismo dessa iniciativa está na celebração da diversidade e no encontro de culturas – reconhecendo, valorizando e dando visibilidade às raízes afro-brasileiras.
Como é ser negra numa sociedade de maioria germânica?
Miriam – Ser uma mulher negra em uma comunidade de maioria germânica traz desafios, especialmente por, muitas vezes, eu ser a única pessoa negra presente em alguns ambientes. Isso naturalmente gera visibilidade, estranhamento e, em alguns casos, situações de preconceito, tanto velado quanto explícito. Apesar de já termos avançado, o preconceito ainda existe e se manifesta em pequenos comportamentos e expectativas sociais. Ao mesmo tempo, percebo que há disposição crescente para dialogar, aprender e reconhecer outras narrativas, o que torna essa convivência mais positiva e transformadora.
O que já evoluiu e o que precisa evoluir na sociedade na busca pela igualdade racial?
Miriam – Houve avanços importantes na discussão sobre identidade, consciência racial e reconhecimento da cultura afro-brasileira. Hoje o debate está mais presente, e iniciativas culturais ganham espaço para promover reflexão. No entanto, ainda precisamos evoluir muito para alcançar a igualdade racial na prática. É necessário ampliar oportunidades reais, combater desigualdades históricas e naturalizar a presença de pessoas negras em espaços de liderança, inovação e empreendedorismo. A mudança depende de educação, políticas públicas e também de atitudes individuais – e acredito que iniciativas culturais e turísticas, como as que promovemos no Sítio Rosa do Vale, contribuem para esse diálogo.