Natural de Roca Sales, mas vivendo desde a infância em Canabarro, Teutônia, o músico Daniel Schaeffer, o Xepa, sempre foi rodeado pela música. Nos encontros de família, o violão e a gaita, tocados pelos tios e pela própria mãe, eram presenças constantes nas confraternizações. Casado com Anelise e pai de Pedro e Sofia, Xepa desenvolveu estilo e repertório característicos. O músico de 58 anos é muito conhecido e renomado não apenas no Vale do Taquari, mas em diversas regiões do RS.
Qual é a tua origem e como a música surgiu na tua vida?
Xepa – Me criei aqui em Canabarro, no tempo que aqui era uma pequena comunidade, onde todos se conheciam. Eu tive a felicidade e o privilégio de a música ter sido ofertada a mim na infância. É algo que sempre me tocou de uma maneira especial. Lembro do jardim de infância, quando, em meio às brincadeiras caóticas, a professora, Tia Líria, nos colocava para cantar. Ali era o momento de aprender as músicas. Eu observava como aquilo nos levava a fazer algo em conjunto, daí também queria me apresentar, mostrar para minha mãe como a gente cantava. A gente anseia pelos momentos musicais e isso começa a direcionar um pouco o que a gente vai ser no futuro. E uma coisa que sempre me chamou bastante a atenção é observar como determinada pessoa usa a voz, ou como o instrumento está causando um tipo específico de emoção.
E quando decidiste que querias seguir a profissão de músico?
Xepa – Eu atuei na área de curtumes e de calçados. Fui buscar formação de curtimento de couro, mais ligado à tecnologia da produção. Acabei trabalhando bastante tempo no Vale do Sinos. Depois, o setor se retraiu e eu e a Anelise decidimos voltar para morar em Teutônia. Eu disse para ela que queria fazer algo diferente da minha vida, porque eu me sentia uma peça mal encaixada no quebra-cabeça do mundo industrial. Fui buscar na minha raiz aquilo que eu imaginava que fosse me dar o verdadeiro prazer pessoal e acabei encontrando na música essa realização. Passei a me imaginar capaz, porque eu sempre fui acumulando muito repertório. E por uma benção divina eu tenho facilidade em decorar as músicas. Eu me apresento e não uso caderno. Um dia, conversando com o Armando Post (proprietário da antiga Paineira Lanches) , a gente marcou de eu fazer voz e violão. Juntei alguns equipamentos que eu tinha em casa, que eu já usava para tocar guitarra, peguei algumas coisas emprestadas e fui tocar. Muitas coisas do meu repertório eram muito valiosas para mim, mas não tinham impacto para os outros. Assim também muitas músicas que para mim passavam despercebidas, quando eu tocava, impactava diferente nas pessoas. Então passei também a compor o repertório do meu exercício de fazer música para o público. Nessa filtragem, eu fui deixando para trás um repertório do qual eu gostava muito, mas que não estava exatamente bem colocado, por assim dizer, num bar. Quando eu passei a trabalhar com eventos, aconteceu o contrário: começou a ter demanda esse tipo de repertório, baseado em antigos sucessos internacionais, trilhas sonoras de filmes e novelas, de comerciais. Isso está muito na cabeça das pessoas e eu me sinto realizado tocando.
Tens também composições próprias e participações em festivais no RS?
Xepa – Sim. É legal quando a gente se atreve a compor alguma coisa sozinho, ou em parceria. Gravei algumas composições e participei de festivais. Fomos bem colocados no Festival do Sesi, em Porto Alegre, conquistando o terceiro lugar entre 550 bandas. Depois, em 2015, ganhei o Festival da Expovale, com uma música em parceria com o Lucas Brolese. Compor músicas é uma maneira de deixar para as pessoas um pouco do meu ponto de vista, da minha passagem pela vida.
Além da voz e violão, quais os principais grupos que integraste?
Xepa – O primeiro foi a banda Antivirtual. A formação com o Marcelo Bittencourt, com o Lucas Brolese e com o Lúcio Cristo foi a mais duradoura. Levamos com seriedade, ensaiamos muito e tínhamos um repertório consistente. Depois participei um tempo da Liverpool, em seguida na Rock and Roll Orquestra, que era uma big band para festas e bailes, e depois da Prô & Bídu´s, com a participação da Diana Dick e com arranjos e sopros. Foi uma fase muito legal, mas como todos eram músicos com outros trabalhos, achamos preferível engavetar o projeto, por tempo indeterminado, do que levá-lo adiante com menos qualidade. Até o ano passado, participei como vocalista da banda Legionários, de tributo ao Legião Urbana, e também saí por uma questão de sobreposição de datas. Atualmente sou vocalista da banda The Wall, que é um tributo ao Pink Floyd, um trabalho muito consistente e no qual eu gosto muito de cantar. Também sigo em trio com o Marcinho Staggemeier e com o Marcos Mangoni. Além disso, tem as participações que a gente faz com a Orquestra Henrique Uebel, recheada de jovens músicos, em diferentes eventos.
E o que que representa a música na tua vida?
Xepa – Voltando à raiz, creio que o mais importante é aquela sensação de estar fazendo alguma coisa junto com as pessoas, comungando. A gente acaba escolhendo a música, mesmo que às vezes de forma inconsciente. O convívio com a música é ofertado a todas as pessoas, principalmente quando criança. E como isso bate em ti, o que isso te leva a ter vontade de fazer é que te diferencia. Assim como existem pessoas com uma visão matemática e organizada do mundo, têm os que possuem uma audição e imaginação artística que são tocados de diversas outras maneiras. Eu acho que a música passa por aí. Ela me causa um imenso prazer de ouvir, de mostrar aos outros como consigo executar e de ver como aquilo que faço é melhorado pela audiência, que canta comigo. Com esse estímulo, noto que consigo fazer ainda melhor. Então, na verdade, é uma fonte inesgotável de energia da qual a gente pode se abastecer e, se Deus quiser, espalhar um pouquinho também pelo mundo.