Colaboração: Marcel Lovato e Sara Ávila
Sobrecarga da responsabilidade familiar, falta de políticas que conciliem carreira e maternidade e desvalorização profissional durante os períodos de afastamento. Essas são questões que afetam milhões de mulheres no Brasil.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE, referente ao ano de 2022, o país possui quase 11 milhões de mães-solo, ou seja, mulheres que criam os filhos sem auxílio do cônjuge.
A PNAD revela ainda que, no âmbito da renda, o salário médio de uma mãe-solo é 40% menor do que os vencimentos de um pai com cônjuge. Enquanto elas recebem, em média, R$ 2.322,00, eles são remunerados com R$ 3.869,00.
Susto e alegria
Um dos exemplos de mulheres que conciliam o mercado de trabalho com a maternidade é a teutoniense Grasieli Nabinger, de 30 anos. Mãe de Bernardo, de 7, e de Antônia, de 5, ela descreve a sensação de quando descobriu a primeira gravidez, aos 22: “foi a melhor coisa que aconteceu, um turbilhão de emoções. No primeiro momento deu aquele medo porque, afinal, nessa idade a gente não está preparada psicológica, emocional e estruturalmente. Mas quando eu conversei com o Douglas, o pai, ele também ficou super feliz. Nós tínhamos esse sonho, apesar de não ter sido planejado dessa forma.”
Grasi reconhece que procurar fazer tudo como ela havia planejado após o nascimento do primogênito, sem aceitar a ajuda da rede de apoio, foi um erro. O afastamento de todos que se dispuseram a auxiliar, justamente por ela querer seguir à risca seus princípios e valores, tornou a maternidade mais desafiadora. “Durante a gestação vieram várias questões da minha infância, de traumas, de coisas que talvez eu precisasse reformular para que meus filhos não tivessem que passar por essas situações. Mas foi um tempo para me reconectar comigo mesma, me reconhecer como mãe.”
Grasi lembra que o retorno ao trabalho foi rápido, menos de quatro meses após o nascimento de Bernardo. A gravidez de Antônia também representou um “sustinho” na vida da jovem mãe, mas ela confessa que ter dois filhos era um desejo que nutria desde sempre. “Foi e é hoje ainda a maior realização. Os filhos são as coisas mais preciosas. A maternidade nos traz muitas vivências, é uma felicidade imensa e um desafio extraordinário. A gente aprende a cada dia, cresce muito, se desenvolve e amadurece. É sensacional.”
Sensibilidade
Mesmo com a guarda compartilhada e presença do ex-companheiro na vida dos filhos, ela enfrenta muitos desafios no dia a dia. “Tem a rotina da casa, o trabalho, a necessidade da presença efetiva para educar as crianças. A agenda precisa ser muito bem organizada e ajustada”. Atualmente trabalhando na área de marketing no mercado imobiliário, a jornalista considera fundamental contar com o apoio e com a visão mais sensibilizada dos colegas. “Há dias que durante a reunião eu preciso dar uma saída. Ou então, por alguns momentos eu tenho que me afastar do trabalho para cuidar de algo relacionado à maternidade. Tenho essa compreensão da equipe, o que me tranquiliza bastante.”
Grasi entende que a maternidade é vida e ressignificação. Para ela, os filhos são o maior presente de Deus e lhe trouxeram motivação para superar os desafios. “A maternidade me trouxe muito mais vida, me trouxe de novo essa vontade de viver e de buscar um objetivo. Tudo que eu faço, todos os meus planos hoje são para deixar a vida dos meus filhos melhor, para que eles tenham saúde física, emocional e psicológica.”
Apesar dessa consciência, Grasi acredita que não existe uma receita para ser bem-sucedida como mãe, até porque cada pessoa vive situações específicas na vida. “O que eu sinto hoje é que a gente precisa olhar com mais carinho para aquilo que fazemos como mãe, porque os desafios existem. A gente sabe que é muita coisa para encaixar nessa rotina de ser mãe, de trabalhar, de ter uma vida e também de cuidar de si”, completa.

Diana Feldens nunca mediu esforços para que o primogênito Tiago pudesse desenvolver suas habilidades. A chegada de Vinícius completou a alegria da família (Foto: Sara Ávila)
Mães Atípicas somam cerca de 16 milhões
Seguindo com os dados de 2022 da PNAD Contínua, no Brasil 18,6 milhões de pessoas a partir dos dois anos possuem algum tipo de deficiência ou transtorno. Em relação a quem cuida dessas pessoas, conhecidas como “Mães Atípicas”, 86%, ou 15,996 milhões, são genitoras de crianças e adolescentes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou deficiências múltiplas. Destas, cerca de 80% criam seus filhos sozinhas, o que reflete, conforme pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na saúde dessas mães: 78% sofrem de estresse emocional severo e 48% apresentam sintomas de depressão clínica.
Tecnóloga em transações imobiliárias, Diana Tietz Feldens tem 43 anos. Ela lembra ter ficado em choque quando, durante a primeira gravidez, com apenas 21 anos, foi advertida pela médica, após a ecografia da translucência nucal, que o bebê – Tiago Henrique, hoje com 21 anos – poderia nascer cego, surdo, mudo, sem braço, sem perna ou então ter síndrome de down. “Aquilo fez com que eu bloqueasse. Foi um choque muito grande”.
Diana lembra que a notícia foi um verdadeiro balde de água gelada nos planos dela e do marido, Márcio. Mesmo assim, eles procuraram o médico e desistiram de realizar o teste de punção do líquido amniótico para confirmar se Tiago tinha a trissomia do cromossomo 21, porque havia o risco de romper a bolsa e perder o bebê.
“Fiz um exame de sangue e a probabilidade de ele nascer com síndrome de down era de uma em 1.500 e, pela medida da nuca, de uma em 500. Então nos tranquilizamos, seguimos fazendo as ecografias e o desenvolvimento dos órgãos estava perfeito, visivelmente não havia nada. E o meu querer ser mãe era tão grande que eu fui apagando aquela possibilidade tão remota que a médica lá no início relatou.”
O diagnóstico foi confirmado somente uma semana após o nascimento. “Como eu disse, eu queria tanto o bebê que indiferente da joia que Deus mandasse para nós ele iria ser o mais amado. De todas as coisas, ter nascido com down para nós não é nada, porque a gente sempre tratou ele de forma normal, sempre exigimos dele como exigiríamos de qualquer criança. Nunca fizemos distinção”.
Desenvolvimento e aprendizado
Diana lembra que, desde cedo, foi buscar auxílio profissional na Apae para estimular o desenvolvimento cognitivo e físico de Tiago. Garante que sempre conseguiu conciliar a maternidade, com os cuidados específicos que o filho necessitava e com a atividade profissional. “Eu só precisei me afastar do serviço quando ele, aos 5 anos, teve que fazer uma cirurgia cardíaca por ter desenvolvido hipertensão pulmonar em virtude do sopro. Ficamos 10 dias no Instituto de Cardiologia em Porto Alegre. Ele teve alta e quando voltamos ele logo já saiu para jogar futebol com os amigos na rua.”
Após concluir o Ensino Fundamental na Escola Leopoldo Klepker e os primeiros anos do Ensino Médio em escola estadual, a família optou em colocá-lo no 3º ano da Educação de Jovens e Adultos, em 2024. “Ele é muito autônomo, faz as coisas dele sozinho e é super independente. E frequentar o EJA foi um aprendizado muito grande para ele e para nós também. Ele aprendeu e ensinou muito aos colegas, porque nada como ter contato com uma pessoa diferente para entender que o diferente também é normal, que ele precisa ser acolhido e que tem muito amor para dar.”
A família ficou completa quando veio o segundo filho, Vinícius Gabriel, que hoje tem 12 anos. “Foi uma surpresa muito grande, porque o Vini é nossa pimentinha. Ele e o Thiago se entendem super bem, brincam e brigam muito, o que é o normal de todo irmão. Eu sempre digo que não poderia ter tido dois filhos melhores, porque os dois são totalmente diferentes, mas ao mesmo tempo, se completam. É maravilhoso”, conclui Diana.
Origem do Dia das Mães
- A celebração possui raízes antigas, como o culto às deusas mães na Grécia Antiga.
- Fundadora: Anna Jarvis criou a data para homenagear sua mãe, Ann Reeves Jarvis, uma metodista que criou clubes de trabalho para diminuir a mortalidade infantil e cuidou de soldados na Guerra Civil norte-americana; posteriormente, Anna Jarvis criticou a comercialização excessiva em torno da data.
- Primeira Celebração: Ocorreu em 1907 na Virgínia Ocidental, EUA, após a morte de Ann Reeves em 1905.
- Oficialização nos EUA: O presidente Woodrow Wilson oficializou o segundo domingo de maio como Dia das Mães em 1914.
- Chegada ao Brasil: A primeira comemoração brasileira ocorreu em 12 de maio de 1918, organizada pela Associação Cristã de Moços (ACM) de Porto Alegre.
- Oficialização no Brasil: Em 5 de maio de 1932, o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 21.366, fixando a data no segundo domingo de maio.
