1 de maio de 2026
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ESPECIAL DIA DO TRABALHADOR

Novos tempos impõem adaptações para empresas e profissionais

Cenário cada vez mais dinâmico redefine vínculos e políticas voltadas ao clima organizacional. Ao mesmo tempo, enfatiza importância do alinhamento

Por: Marcel Lovato

01/05/2026 | 09:29
Setores da construção civil e calçadista estão entre os que mais apresentaram transformações ao longo dos anos, tanto em estrutura quanto na cultura dos profissionais (Fotos: Marco Mallmann e Gabriela Arendt)
Setores da construção civil e calçadista estão entre os que mais apresentaram transformações ao longo dos anos, tanto em estrutura quanto na cultura dos profissionais (Fotos: Marco Mallmann e Gabriela Arendt)

O Dia do Trabalhador evidencia uma realidade cada vez mais dinâmica. Entre a busca por estabilidade e demanda por adaptação constante, trabalhadores convivem com desafios renovados e perspectivas ainda em construção, independente da experiência.

Este contexto de reinvenção faz parte da vida da empreendedora Juliana Lippert da Silva. Em março, ela transformou o gosto por plantas em oportunidade ao abrir uma floricultura no Bairro Canabarro. Uma mudança ampla para quem, durante 28 anos, trabalhou em uma empresa calçadista, de aprendiz à gerência de montagem. Primeiro, em Igrejinha, sua terra natal, e depois, Teutônia.

O ciclo terminou no ano passado. Após a saída, foram cinco meses de preparação para abertura do negócio próprio. Nesse período, houve pesquisa de mercado, levantamento das necessidades, escolha do local e organização. Todas as etapas conduzidas por Juliana.

“Cheguei a gerenciar 440 pessoas e agora trabalho sozinha. Houve o estranhamento inicial, mas estou vivendo um propósito”, destaca. A fase, descreve, se divide entre a apreensão para o negócio dar certo, ainda mais em um ano de incertezas, e a satisfação de seguir o sonho. Ela enfatiza que as oportunidades existem e é preciso estar atento, seja qual for o cargo. No âmbito das mudanças de rota, principalmente a decisão de abrir um negócio, cabe avaliar o nível de dedicação, maturidade e ter a ciência de que haverá muito a ser feito.

Há dois meses, Juliana empreende com uma floricultura. Reinvenção ocorreu após quase três décadas de atuação em ramo completamente distinto (Foto: Gabriela Arendt)

Relações dinâmicas

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Calçadistas de Teutônia, Roberto Müller, destaca que o início de maio é, historicamente, um período de baixa produção. Em relação ao mercado interno, a aquisição de calçados é considerada abaixo do ideal, menor que em outros tempos. A isso, soma-se a concorrência externa cada vez mais ampla, principalmente de produtos vindos de países como Paquistão, Vietnã, Índia e China.

Müller recorda que, enquanto um dos motores econômicos locais, o setor foi o primeiro emprego de centenas de profissionais na região. Ao mesmo tempo, sempre apresentou uma grande rotatividade, especialmente por conta das condições de trabalho e dos salários, por vezes superiores em outras categorias.

Modificações ocorreram tanto com a introdução de melhorias graduais nas fábricas quanto no ponto de vista dos funcionários nas décadas seguintes. Nesse sentido, o entendimento do sindicato é de que, diferentemente do senso comum, existe mão de obra. No entanto, essa mesma mão de obra possui exigências maiores na hora de definir se aceita ou não determinada oferta.

“O profissional quer trabalhar, mas busca flexibilidade e qualidade de vida. Ou você entende o trabalhador como parceiro, suas necessidades e problemas, faz com que ele se sinta parte do processo, ou você irá perdê-lo. Ninguém aceita mais regime ‘ditatorial’. Se antigamente a demissão era sinônimo de humilhação, hoje é encarada com certa naturalidade e se tornou algo corriqueiro”, analisa Müller.

Para o presidente, é fundamental também que gestores busquem não tratar o bom funcionário e o “mais problemático” da mesma forma. Por outro lado, cabe ao trabalhador fazer a sua parte no desempenho de suas funções para garantir a melhor entrega.

E sobre avanços, a avaliação do Siticalte é de que o setor calçadista está melhor posicionado do que outros, com menos restrições, remuneração maior, banco de horas e escala 5×2 estabelecida (enquanto se discute o fim da 6×1, veja no box). Todos estes pontos acordados em convenções coletivas.

Para os próximos anos, o setor calçadista deve ter uma “leve baixa”. Mesmo assim, não deverá perder a sua relevância. Além das questões econômicas, uma importante tarefa futura será entender e integrar ainda mais os empregados ao time, a fim de cessar a alta migração.

Mercado em transição

Na visão da mentora de carreira e especialista em RH, Cintia Schmidt, o mercado de trabalho vive uma “transição profunda”, marcada pela migração de relações estritamente salariais para modelos que valorizam propósito, flexibilidade e protagonismo individual. Segundo ela, embora a tecnologia tenha agilizado processos, também gerou distorções, como a expectativa de “sucesso fácil”.

“A principal transformação é a necessidade de resgatar o valor do protagonismo. O mercado está ávido por pessoas que queiram evoluir, mas precisamos combater o desânimo e a falta de perspectiva que atingem uma parcela da força de trabalho”, acrescenta. O maior desafio do trabalhador é a gestão da própria empregabilidade em um mundo volátil, no qual deve ser estabelecido um “conceito de carreira”, baseado no autoconhecimento, desenvolvimento e construção de vivências.

A especialista alerta para o risco da “estagnação por assistência”, pois políticas de amparo devem estar associadas a oportunidades de crescimento. Caso contrário, estimulam a dependência e falta de ambição para transformar a própria realidade.

No campo regulatório, aponta que a legislação brasileira avançou, mas ainda não acompanha a velocidade das transformações tecnológicas e dos novos formatos de trabalho, como o modelo híbrido e as plataformas digitais. Para Cíntia, o ponto crucial não é apenas ter leis, mas promover o equilíbrio entre proteção ao trabalhador e competitividade das empresas para gerar oportunidades.

Sobre a atualização da NR-1, destaca a incorporação dos riscos psicossociais (estresse, Síndrome de Burnout e assédio, por exemplo) na gestão de segurança, com a equiparação aos físicos e operacionais. A norma reforça a prevenção participativa e amplia o papel do trabalhador na identificação de riscos. Nesse contexto, a saúde mental deixou de ser um tabu para se tornar um indicador estratégico, com atuação mais ativa do RH na prevenção, no monitoramento de clima organizacional e na qualificação das lideranças.

Como tendência, Cíntia projeta a “humanização tecnológica”, com avanço da inteligência artificial aliado à valorização de competências humanas, como empatia e ética. Na gestão de pessoas, o foco deve ser cada vez mais individualizado, com atenção às diferentes gerações e trajetórias. “Precisamos resgatar a crença de que o esforço e o aprendizado contínuos são o único caminho real para o avanço social. Que empresas e trabalhadores possam celebrar o trabalho como uma forma de legado de conquista de autonomia. Não existe data de validade para o potencial humano”, encerra.

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