Em dezembro de 1874, o trem trouxe um jovem casal a São Leopoldo. Wilhelm e Marie Rotermund haviam sido enviados com o objetivo de reunir os alemães protestantes no Rio Grande do Sul.
A Colônia ainda estava em polvorosa. Junto ao Morro Ferrabrás, colonos haviam sido exterminados. Outros seriam exterminados na Terra dos Bastos e na Fazenda Pirajá. Eram depreciados com o nome Mucker. Mentiras levaram a conflito e o conflito degenerou em matança. Triste capítulo.
O casal logo verificou que baixa estava a autoestima. Reuniram os dispersos. Difundiram literatura. Criaram Almanaque, o “Rotermund-Kalender”, abriram jornal (Deutsche Post), publicaram material didático, começando por cartilha (Fibel), agenda para os professores, um jornal para protestantes (Sonntagsblatt, Folha Dominical, hoje: Jornal Evangélico Luterano). Tiveram gráfica e editora.
No início de 2026, sua última publicação: a Agenda Rotermund deixou de existir e o trabalho valoroso iniciado em 1874 chegou ao fim. Esse término no início de 2026 teve pouca repercussão. Rotermund ainda é nome de ruas e avenidas, mas poucos sabem de quem se trata. Somos um país de memória muito curta, não se trabalhou para preservar a memória.
Eliminamos populações originárias, fomos o último país do planeta a eliminar a escravidão, só tivemos os primeiros cursos superiores no Século 19 e as primeiras universidades no Século 20. Escola era considerada despesa.
O casal Rotermund foi exceção: escola deveria ser a base da sociedade. Os alemães protestantes imigrados em 1824, ao lado de alemães católicos, haviam logo construído e mantido escolas. A mais antiga delas ainda existente comemora 200 anos em 2026.
Em 1874 a situação ainda era bastante precária. Faltava o material didático. Os Rotermund publicaram cartilha, livro de leitura, de matemática, geografia, História do Brasil, catecismo, livro de religião. Tudo era bilíngue. Eles sabiam que as crianças da escola falavam o alemão em casa, mas tinham como pátria o Brasil. A alfabetização começava com a língua materna, mas logo passava para o português.
Com o Almanaque (Kalender) e com o Jornal, os Rotermund buscaram influenciar os pais, elevando sua autoestima. Trabalho que não deve ser esquecido. Eles não retornaram à sua terra natal.