Entusiasta do dialeto sapato de pau (Plattdüütsk) e neto de sapateiro que fabricava o calçado típico, o professor Lucildo Ahlert, nascido em 1950, em Linha Schmidt Fundos, é uma pessoa sempre pronta a assumir novos desafios. Depois de 53 anos de atuação profissional, como gestor em empresa industrial, professor na área de gestão e estatística, pesquisador na área de gestão, de história e línguas, Ahlert segue atuando como genealogista e escritor. É autor, organizador e editor do Dicionário da Língua Westfaliana Brasileira, compilado que reúne seis mil palavras, em ordem alfabética, com o significado em sapato de pau, alemão e português
Qual é sua formação e quais as principais atividades desenvolvidas?
Lucildo Ahlert – Aos 17 anos, integrei o Clube 4-S Unidos Venceremos, cuja atividade era desenvolvida pela Ascar, hoje Emater, junto aos jovens rurais, para introduzir novas tecnologias que modernizaram as propriedades. Foi ali que fiz a minha primeira palestra, construí novas amizades e encontrei aquela que é hoje a minha esposa. Cursei, por correspondência, no Instituto Universal Brasileiro, obtendo a aprovação para o curso de Madureza Ginasial.
Em 1970, ingressei no Colégio Agrícola Teutônia para fazer o curso de Técnico Agrícola, em conjunto aos estudos do Segundo Grau, que concluí em novembro de 1972. Em 1973, iniciei a primeira atividade profissional na Souza Cruz, que durou até 1998. Mesmo assim, as minhas relações com a comunidade de origem se mantiveram nos finais de semana. Entre 1976 e 1980, paralelamente ao trabalho, cursei Economia na Fates, hoje Univates.
Fiz especialização em Gerência de Produção na Universidade de Santa Cruz do Sul, no biênio 1995 e 1996. Entre os anos de 1987 a 2012, atuei como professor, pesquisador e prestador de serviços de extensão na Univates. No período de 1999 a 2001, cursei mestrado em Engenharia de Produção, na Universidade Federal de Santa Maria. Entre 2011 e 2012, participei do curso de especialização em Aprendizagem na Língua Alemã, no Instituto Superior de Educação Ivoti, que me possibilitou atuar como idealizador e coordenador, de forma voluntária, do grupo Amigos do Sapato de Pau, que trabalha pelo resgate e preservação da cultura westfaliana, em Westfália, desde maio de 2013.
Como o senhor se envolveu com o trabalho de pesquisas e genealogia?
Ahlert – Em 1988, iniciei atividades de pesquisa histórica e genealógica, que possibilitaram contatos com a Alemanha, que visitei em 1993. Isso me permitiu desenvolver uma parceria entre entidades da Igreja de Westfália e de Lengerich-Hohne na Alemanha, estimular a fundação do grupo de Danças Westfälische Tanzgruppe, que hoje é atração na região do Vale do Taquari, além da organização da Associação Cultural da Família Ahlert, com sede na Westfália, da qual fui presidente, e de integrar a comissão organizadora de eventos da cultura westfaliana, que já organizou mais de cinco atividades.
Qual a importância do Dicionário da Língua Westfaliana Brasileira?
Ahlert – Concluir uma obra dessa magnitude representa a superação do inimaginável. Foi uma realização pessoal que me exigiu lidar com textos da Alemanha, nas mais diferentes vertentes do Plattdüütsk, fazer uma regressão à minha infância e adolescência nas profundezas da minha memória e contar com a colaboração de verdadeiros discípulos da causa westfaliana. Isso está no dicionário. O conteúdo retrata a história do município, significado de sobrenomes, origens e curiosidades de Westfália.
Qual a importância de preservar o dialeto sapato de pau como língua co-oficial de Westfália?
Ahlert – Esta pergunta norteou o início das atividades do Grupo Amigos do Sapato de Pau e foi feita em uma pesquisa com a população da Westfália, em 2012. As respostas, em sua maioria, foram enfáticas no sentido de ser preservada, pois o nome de Westfália identifica-se com a língua falada e com a origem dos antepassados. O dialeto é fundamental para o município manter a tradição. É uma cultura diferenciada que existe em poucos lugares do mundo. Sem ela, o município perde a sua identidade, pois a história construída deixa marcas profundas e a cultura é uma direção para o município.
Outros acrescentaram que é necessária sua preservação através da prática, nas famílias e na escola, pois se os filhos ouvissem alguma coisa na escola sobre o dialeto teriam mais interesse em aprender e continuar falando. É a valorização do que se aprendeu dos antepassados que deve ficar como algo fundamental para as futuras gerações. Pessoas não nascidas em Westfália consideram que o município é um lugar especial, com características diferentes, em que há o símbolo do sapato de pau nas paradas de ônibus, há uma estrutura típica na cidade formada pelo agrupamento da igreja, escola, cemitério e salão de festas e onde falam o dialeto Plattdüütsk.
Depois de 12 anos de atividades do nosso grupo, estamos sendo reconhecidos na região, nos meios de comunicação, nas universidades, tanto no Brasil, quanto no exterior, como no Jornal The New York Times, na Deutsche Welle e temos as nossas obras, dicionário e gramática, guardadas na biblioteca da Igreja do Mórmons em Utah.
Qual o trabalho que o senhor desenvolve hoje?
Ahlert – Atualmente, desenvolvo atividades profissionais de consultoria na Macrovisão, com ênfase em planejamento e acompanhamento de campanhas políticas, pesquisas de soluções para a gestão pública municipal e pesquisa de opinião e de mercado para empresas privadas. Na vida, muitas vezes busca-se conhecer qual é a área em que se deve atuar. Mas, pelo andar da minha vida, vi que tudo que se faz tem um início, meio e fim. Assim, para ampliar a vida útil, descobri que assumir novos desafios e conhecer novas áreas de atuação permite trilhar um novo período.