14 de janeiro de 2026
25ºC | Parcialmente nublado

ILUSTRE CIDADÃO

“O sentimento é de que eu fiz o que tinha que fazer”

O quadro Ilustre Cidadão entrevista Jaime Schneider Barbosa

Por: Marco Mallmann

04/12/2025 | 14:48 Atualização: 04/12/2025 | 15:36
Jaime Schneider Barbosa
Jaime Schneider Barbosa

Um dos precursores na prevenção às cáries nas escolas de Teutônia, o dentista Jaime Schneider Barbosa nasceu em 29 de novembro de 1956. Aos 69 anos, orgulha-se dos 45 dedicados à odontologia. Inspirado pelos dentistas Alberto Reinheimer e Plínio Ari Reinheimer, que eram amigos da família, formou-se pela Universidade Federal de Santa Maria, em 1980. Apaixonado por saúde pública, lembra, com carinho, os 16 anos em que atuou no posto de saúde, no Bairro Languiru, e os aprendizados e conhecimentos importantes que adquiriu na atividade. 

Como foi tua formação e o início do trabalho?

Jaime Schneider Barbosa Me formei como técnico em Contabilidade, mas vi que isso não era para mim. Daí fiz cursinho intensivo em Santa Maria e consegui entrar na vaga 64, de um total de 70, no ano de 1977. Antes, fiz dois semestres de medicina veterinária. Porém, cada vez tive mais certeza de que havia acertado na escolha da odontologia. Desde aquela época, minha opção foi atuar no básico, atender aquilo que a população precisava, a preços acessíveis. Nas periferias de Santa Maria, fiz atendimentos com prevenção de cáries e palestras. Depois, quando eu já atuava com consultório particular aqui em Languiru, procurei uma especialização, em 1981, quando surgiu a oportunidade, através de Milton Schneider (in memoriam), aqui no Hospital Ouro Branco, para montar uma rede de postos de saúde aqui. Acabei gostando e participei de cursos de especialização de saúde pública odontológica, que eram fragmentados, ocorrendo em diversos locais. Eram profissionais muito capacitados, com quem a gente aprendia muito sobre as mais diversas doenças. Um dia, uma enfermeira me abriu os olhos. Ela me disse que, como integrante da equipe de saúde, eu iria atender pessoas diversas e precisava saber orientar em todas as áreas. Esse é o lado que me traz muita saudade do trabalho em posto de saúde. Hoje, a internet ajuda muito para que a gente se mantenha atualizado e mantenha a mente esclarecida.

Quais as principais diferenças do atendimento odontológico da época para a atualidade?

Barbosa Na época, as pessoas perdiam muitos dentes, mas era a opção que havia. Não podemos criticar os profissionais antigos, porque a extração era a opção que eles tinham para aquele momento. Se tirou a dor e depois compensou com uma prótese, o profissional fez o que tinha que fazer. Hoje existem diversas opções, recursos mil, pode-se fazer muita coisa. Os problemas são os mesmos e estão relacionados com os fatores econômico e cultural, só que hoje o cultural melhorou, as pessoas dão mais valor e investem muito mais em reabilitações ortodônticas. 

Como foi o início do trabalho de prevenção às cáries?

Barbosa Implantamos a prevenção de cáries nas escolas, juntamente com a Emater e a prefeitura. Iniciamos a aplicação tópica de flúor, tivemos a participação de profissionais do Sesi. Foi algo necessário, porque havia uma incidência muito alta de cáries nas crianças e adolescentes, causando muitos traumas, afetando a situação emocional. Depois, veio a ordem da Anvisa de aplicar flúor na água, mas como o flúor é um halógeno muito reagente e acaba acarretando outros problemas de saúde, parei de fazer e sugerir a aplicação. Minha recomendação hoje é para que se utilize apenas em questões pontuais, sob recomendação do dentista. Mas a prevenção segue sendo fundamental, com movimentos de sobe e desce, ou circulares, com escova macia ou extra-macia, aplicação de pouco creme dental e uso do fio.

O que consideras mais importante na profissão de dentista?

Barbosa O fato de conseguir tirar a dor de uma pessoa é algo fantástico. Na faculdade, aprendi uma frase em latim, atribuída a Hipócrates, considerado o pai da medicina, que viveu na Grécia Antiga, na segunda metade do Século V antes de Cristo, que dizia: “Sedare dolorem opus divinum est”. Ou seja: “aliviar a dor é uma obra divina”. Achei isso muito bonito. Mas, além da dor, há também a reconstituição das pessoas, a recuperação do sorriso e da autoestima, que também são fundamentais. O dentista tem, ainda, a obrigação de chamar atenção de pacientes que estão com problemas, pelos mais diversos casos.

Qual o teu sentimento após 45 anos de atuação? 

Barbosa O sentimento é de que eu fiz o que tinha que fazer, assim como qualquer profissional deve atuar, com dedicação. Importante também é encaminhar o paciente ao profissional capacitado. Sempre procurei fazer isso. Algumas coisas eu lamento, por não ter conseguido fazer mais por pessoas de quem eu gostava muito. Mesmo alertando, perdemos pessoas queridas, o que foi muito duro. 

Quais os teus planos para o futuro? Tens disposição para continuar?

Barbosa – Infelizmente, 70% dos dentistas têm morte natural por doença cardiovascular, ou algum tipo de câncer. Sempre me cuidei, não fumo e não bebo. Procuro ser um bom sujeito, um bom cidadão, um profissional que valoriza a família e a amizade. Considero que isso é o principal de tudo, valorizar as outras pessoas, ser altruísta, dar de si para os outros. Sempre houve muito trabalho na minha área e hoje as pessoas procuram cada vez mais por atendimentos em saúde. E a boca está junto. Tenho a ideia de seguir trabalhando por um tempo, iniciando um desmembramento gradual e passar a me dedicar ao trabalho no campo, do qual gosto muito. Me alegra saber que os novos colegas de profissão estão chegando com conhecimento muito maior do que o meu. 

Leia também as Edições Impressas.

Assine o Informativo Regional e fique bem informado.