5 de março de 2026
32ºC | Tempo nublado

SABEDORIA E FÉ

Quaresma: quando o caminho da cruz passa por dentro de nós

Opinião do Pastor Márcio Sedinei Frank, da Paróquia Teutônia Centro

Por: Pastor Márcio Sedinei Frank

05/03/2026 | 11:24

Todas as manhãs, seu Schubert fazia o mesmo trajeto. Atravessava a Major Bandeira ainda meio vazia, cumprimentava o vizinho que já estava no chimarrão com um aceno tímido e seguia até o banco da praça. Schubert não era homem de muitas palavras, mas carregava no rosto o peso de quem sabia que ali precisava parar. Naquela quarta-feira de cinzas, após o Carnaval, o qual para ele dizia pouco, sentou-se em silêncio. Não pediu nada. Apenas respirou fundo. Mais tarde, diria: “Eu precisava me ouvir”. 

A Quaresma começa assim. Não com barulho, não com festa, mas com uma pausa. São quarenta dias que nos convidam a desacelerar, olhar para dentro e reconhecer aquilo que muitas vezes evitamos: nossos erros, nossas durezas, nossos silêncios que ferem, nossas palavras que machucam. É um tempo que não nos aponta o dedo, mas nos oferece o espelho.

Vivemos numa cultura que foge do arrependimento. Errar virou tabu; pedir perdão, sinal de fraqueza. A Quaresma caminha na contramão disso. Ela nos lembra que reconhecer o próprio pecado não nos diminui, nos humaniza. Arrependimento, na fé cristã, não é culpa paralisante, mas mudança de direção. É admitir que o caminho que estamos trilhando não leva à vida e aceitar o convite para recomeçar.

Cristo caminhou até a cruz por nós. Esse caminho não foi apenas físico; foi um percurso de entrega, amor radical e obediência. A cruz não é símbolo de derrota, mas de um amor que vai até o fim. Na Quaresma, somos convidados a acompanhar esse caminho, não como espectadores distantes, mas como gente real, com histórias reais, dores reais e esperança possível.

Tá, mas o que isso significa na prática? Significa aprender a silenciar um pouco mais. Menos ruído, menos pressa, menos distrações que anestesiam a alma. Às vezes, a maior penitência é desligar o celular, ouvir de verdade quem está ao nosso lado ou encarar conversas que estamos adiando há anos. Já pensou se você lesse a Bíblia 10% do tempo que estás no celular?

Quaresma significa exercitar o arrependimento no cotidiano: pedir perdão dentro de casa, reconhecer erros no trabalho, rever atitudes que ferem relacionamentos. Pequenos gestos, mas com grande poder de transformação. Significa também praticar a fé com os pés no chão. Fé não é negar a dor, mas confiar mesmo quando o caminho é pesado. É acreditar que a cruz não é o ponto final. A Quaresma sempre aponta para a Páscoa. Onde há cruz, há ressurreição prometida.

Seu Schubert, ao final daquele tempo, continuou fazendo o mesmo trajeto pela praça. Nada externamente havia mudado. Mas quem o conhecia percebia algo diferente: um olhar mais leve, uma paciência nova, uma fé menos falada e mais vivida. Ele não se tornou perfeito. Tornou-se mais verdadeiro. Talvez seja isso que a Quaresma espera de nós: não pessoas impecáveis, mas corações sinceros. Gente disposta a caminhar com Cristo, mesmo sabendo que o caminho passa pela cruz, porque confia que, depois dela, Deus sempre faz nascer vida nova.

Reflita nesta quaresma. 

Leia também as Edições Impressas.

Assine o Informativo Regional e fique bem informado.