
Seguindo com as entrevistas da série “Lugar de Mulher”, na edição desta semana a protagonista é a agricultora Bruna Taís Mörschbächer. Ela tem 21 anos e é natural de Linha São Jacó. Formou-se no curso Técnico em Agropecuária no Colégio Teutônia, em 2024, e realizou estágio na Cooperagri. Há cerca de quatro anos, ao lado do namorado, André Luís Strehl, e dos sogros, auxilia em todas as atividades da propriedade, localizada na divisa entre Teutônia e Estrela. Além de vacas confinadas no sistema free stall para produção leiteira, a propriedade conta com criação de suínos e lavouras, mas a principal atividade é a produção de feno para alimentação animal, serviço que a família também terceiriza, por ter o maquinário específico.

Bruna Taís Mörschbächer
Como surgiu o interesse em atuar no setor primário?
Bruna Taís Mörschbächer – Os meus avós foram produtores e meus pais são criadores de aves. Então, eu sempre estive nesse ramo. Sempre estive envolvida e sou muito curiosa. Se tem alguma coisa que eu não sei fazer, eu sempre tento ir atrás para saber como fazer, independentemente do tipo de serviço: com martelo, com trator, ou mesmo fazer uma cerca. Qualquer coisa, eu sempre tento me virar e fazer. Aí, se não consigo, eu peço ajuda de alguém. Quando comecei a namorar o André, surgiu a oportunidade de eu trabalhar aqui. Não que na casa dos meu pais não houvesse trabalho, mas o meu interesse maior era na criação de vacas. Daí eu também fiz o curso Técnico em Agropecuária, me aprofundei um pouco mais e continuei na lida com as vacas.
Quem é tua inspiração para atuar no setor primário?
Bruna – Com certeza a inspiração vem da minha mãe. Ela é uma pessoa muito dedicada, ela se mete, se precisa fazer algo ela vai e faz. Ela é a inspiração para eu seguir neste ramo. Por isso que eu continuo sempre me esforçando, para ser igual a ela. Minha mãe se dedicou muito, desde sempre, lutou bastante. Desde que eles fizeram o aviário, eu sempre via o esforço dela, pegando a roçadeira, cortando capim nos morros, cortando a grama, dirigindo trator e levando cavaco nas fornalhas. Isso é uma grande inspiração. Com certeza, eu vou seguir esse caminho.
Quais os principais desafios que enfrentaste até hoje na lida do campo?
Bruna – Principalmente os olhares maldosos, aqueles questionamentos duvidando da minha capacidade: “será que ela consegue?”; “Ah, mas tu só levas o trator na roça…” Não, eu faço o serviço do trator que eu estou levando. Por exemplo, eu faço o enleiramento – que é agrupar o pasto cortado e pré-secado em linhas longas –, enfim, todo serviço que eu tenho pra fazer, eu faço. São vários olhares de desconfiança, principalmente. Isso que eu percebo bastante.
Acreditas que ainda tem muito preconceito nesse meio?
Bruna – Sempre quando eu falo que vou tratar e fazer serviços pesados com o trator, as pessoas me questionam seu não faço a ordenha, que é geralmente o serviço que a mulher continua fazendo. Eu respondo que quem faz esse serviço são meus sogros e eu e o André fazemos as outras coisas, que às vezes são mais de boa e às vezes são mais pesadas, como lidar com a roça, realizar o plantio do milho. A gente sempre se ajuda.
E qual a importância hoje da mulher no campo?
Bruna – Eu acredito que ela é fundamental na coordenação, para as coisas darem certo. Às vezes, a gente está ali para ajudar, às vezes a gente fala e dá a sugestão de como algo deve ser feito. Eu acho que essa observação, o olhar da mulher em cima do serviço, muitas vezes funciona melhor. Limpar o cocho de água, por exemplo: essas coisas chamam mais atenção da mulher. Ela tem uma sensibilidade que, muitas vezes, o homem não tem.
Quais os principais trabalhos que executas aqui na propriedade?
Bruna – Aqui, produzimos a própria ração. Então, eu faço a pesagens dos sais minerais que vão na composição da ração; trato o pré-parto, que antecede 30 dias antes do nascimento dos bezerros, faço essa ração todos os dias; trato também o leite para os terneiros e realizo todo o manejo de pesar, ver como está o desenvolvimento; tem ainda os terneiros desmamados, para os quais é preciso ter sempre um olhar minucioso para ver se está tudo certo; faço o trato das ovelhas e as camas das vacas, com serragem, para que elas tenham o máximo de conforto possível, e realizo a limpeza dos cochos de água todos os dias, que é a minha preferência. São pequenos detalhes que fazem muita diferença na produção.
Te sentes realizada neste trabalho?
Bruna – Com certeza. Faço o que gosto, que é lidar com as vacas. Gosto muito de estar nesse meio. É algo que vai seguindo de geração em geração: minhas avós, minha mãe, agora eu e, com certeza, as futuras gerações também. A ideia é que os meus filhos, que virão, também permaneçam e continuem o trabalho.
Qual tua mensagem para as outras mulheres?
Bruna – Acredito que tem que encarar, não ter medo, aprender a fazer tudo o que puder. Se tu não souberes fazer sozinha, pede ajuda, mas tenta fazer. Além disso, é fundamental sempre se dedicar a tudo que estiver ao teu alcance, sem se importar com a opinião dos outros. Tem que ser metida, fazer acontecer, e não ficar esperando.