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ORIGENS DE WESTFÁLIA

Tradição, coragem e trabalho na construção de uma comunidade

Colonizado a partir de 1869 e emancipado em 1996, município construiu uma trajetória marcada pela organização, preservação cultural e persistência

Por: Marcel Lovato

22/03/2026 | 10:00
Ao longo das semanas que antecederam o plebiscito, uma série de comícios foram realizados em diferentes salões. Foto: Anésio Beckenbach
Ao longo das semanas que antecederam o plebiscito, uma série de comícios foram realizados em diferentes salões. Foto: Anésio Beckenbach

A trajetória de Westfália é marcada pela força do trabalho comunitário, preservação das tradições culturais e avanços significativos.. Uma história que começou ainda em 1869, quando o território foi colonizado por imigrantes alemães vindos da Renânia do Norte-Westfália.

Município foi formado pelas localidades de Linha Frank – o reduto inicial –, Linha Schmidt, Linha Berlim, Picada Moltke, Picada Bismark, Picada Horst e Linha Paissandu, antiga Picada Krupp.
De acordo com o professor e pesquisador Lucildo Ahlert, as origens estão na Colônia Teutônia, formada anos antes. Com a chegada de 21 famílias, os westfalianos iniciaram um novo ciclo de ocupação.

Com o tempo, escreveram cartas para parentes e amigos para atraí-los. Muitos iriam para os Estados Unidos, mas mudaram de ideia. Ter a própria terra era a maior aspiração. “Vendia-se o Brasil como um paraíso, embora tivesse algumas dificuldades”, explica Ahlert.

Dificuldades

Um dos entraves foi a religião. Afinal, os imigrantes eram evangélicos e estavam em um país amplamente católico. Cultos e demais reuniões até poderiam ocorrer, mas discretamente. Igrejas, como a da Comunidade Sião, em Linha Frank, foram erguidas sem torre no começo por conta da legislação.
Ahlert destaca que até 1888 os batismos e casamentos não foram oficializados porque a Igreja Católica era a referência. “Se as famílias quisessem fazer, teriam de se converter, o que mudou apenas com a Proclamação da República. Por isso, os livros preservados pelas comunidades possuem tanto valor”, acrescenta.

No âmbito das terras, os imigrantes não ganharam nada. Segundo o pesquisador, todos pagaram. Alguns com dificuldade, outros sequer conseguiram e a missão coube aos descendentes. O trabalho no campo e a venda da banha foram as principais atividades econômicas.

O dialeto Plattdüütsch

Língua cooficial do município, o Plattdüütsch, mais conhecido como Sapato de Pau, é o que se manteve mais uniforme, sem interferência de outras línguas. “Até os oito anos,o dialeto foi a minha vida. Eu não entendia outra coisa. Está impregnado na mente”, recorda Ahlert. Essa identificação rendeu frutos a partir da década passada.

Com o intuito de preservá-lo, Ahlert formou o Grupo Amigos do Sapato do Pau, que reúne outros entusiastas da região. Uma pesquisa foi realizad quanto à importância da preservação do dialeto. Houve unanimidade. A caminhada se fortaleceu e culminou na “Gramática da Língua Westfaliana Brasileira”, lançada em 2022. Trata-se de um dicionário com mais de 6 mil palavras traduzidas em português e alemão. “ Ele faz a ligação de Westfália com a a Alemanha”, conclui.

A emancipação

De acordo com o escritor Norberto Grave, o então prefeito de Teutônia, Elton Klepker, ao inaugurar a subprefeitura de Linha Schmidt em 1993, teria dito que a localidade até poderia se emancipar, mas não possuía lideranças.

A declaração mexeu com os brios de Norberto e do irmão dele Enio Grave. Cientes de que a missão seria árdua, eles decidiram encarar o desafio. Ao longo dos meses seguintes, durante confraternizações da comunidade, foram realizadas uma série de conversas. Em pauta, as vantagens de Linha Schmidt se tornar uma cidade. A ideia ganhou corpo. Mais uma dezena de moradores aderiu, o que culminou na formação da comissão emancipacionista em 17 de agosto de 1994.

Norberto ficou responsável por todas as questões burocráticas. O empresário Ido Sulzbach chegou a ser escolhido para ser o presidente. A decisão gerou reações de Klepker e do prefeito de Imigrante, Elimar Rex, que cortaram as relações entre os municípios e Ido, que prestava serviços para ambas. “Não se tratava de ser contra as duas cidades, mas de pleitear mesmos direitos”, argumenta.

Os prefeitos tentaram barrar o processo de diferentes formas. Depois, Enio assumiu a comissão e Ido se tornou o 2º vice-presidente”. Enio, inclusive, fez todo o levantamento fotográfico da localidade. O primeiro nome pensado foi “Vale Verde”. No entanto, havia outra localidade candidata à autonomia com esse nome e esta obteve êxito na pauta em 1995. Desta forma, por conta das ligações coloniais, decidiu-se pelo “Westfália”. Coube a Norberto elaborar o mapa que norteou os trabalhos.

Norberto e Ido se envolveram em todo o processo de emancipação, que atravessou a década de 1990. Já Lucildo possui um histórico de serviços prestados à preservação da história e do dialeto Plattdüütsch. Foto: Gabriela Arendt

Votação na assembleia e novo desafio

Depois de dezenas de articulações, em outubro de 1995, o pedido de Westfália e outras 29 localidades foi apreciado pela Assembleia Legislativa. A pauta do município recebeu 27 votos a favor e 22 contrários. Contudo, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) recuou na marcação das consultas populares porque os municípios não teriam o mínimo de 1.800 eleitores.

Também impactados, representantes de Coronel Pilar e São José do Sul procuraram o advogado Arno Eugênio Carrard, especialista na defesa de movimentos emancipacionistas. Ao saber disso, Norberto procurou o profissional e pediu ajuda para a causa westfaliana. Uma conversa ocorreu em Porto Alegre.

Dito e feito. Em 29 de fevereiro de 1996, por 4 votos a 3, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorizou a realização dos plebiscitos. Segundo Norberto, Carrard obteve êxito ao argumentar que, no caso dos distritos, o número de domicílios ou residências devia ser considerado para fins de pleito. Na semanas seguintes, a comissão criou um hino específico, realizou comícios e até mesmo um fusca identificado foi utilizado na campanha.

“Foi uma das comissões que mais trabalharam. Em um dia, conseguimos tirar uma pedra do caminho na Assembleia. No outro, havia mais duas”, afirma Ido. Ele recorda que todo o movimento foi custeado pela própria comissão.

Vitórias definitivas

O plebiscito foi realizado no dia 24 de março. Na data, 1.765 eleitores da compareceram às urnas, o que representou 91,2%. Deste total, 64,9% disseram “Sim”. A criação do município se deu ocorreu em 16 de abril, por meio da Lei 50.574.

Um processo movido pelo governador Antônio Britto (1995-1998), contrário às emancipações, impediu eleições imediatas. Coube a Olívio Dutra, em 1999, dar fim à batalha judicial e permitir o pleito. Enio não acompanhou esse desfecho, pois faleceu um ano antes. Em 2014, foi homenageado com um busto em frente ao Centro Administrativo.

Em outubro de 2000, enfim, os moradores de Westfália tiveram o direito de escolher seus representantes. Alcido Lindemann (PMDB) e Airton Guilherme Grave (PPB) disputaram o Executivo, vencido pelo emedebista. A instalação se deu no dia 1º de janeiro de 2001.

“Uma das características do Enio e da comissão foi a persistência. Sinto muito orgulho de tudo que construímos”, afirma Norberto. Ido acrescenta que o desenvolvimento da Westfália ao longo dos 30 anos demonstra “o quanto tudo valeu a pena”.

Prefeitos e primeiros vereadores

Prefeitos e Vices

• Alcido Lindemann e Rudimar Hinnah (2001-2008)
• Sérgio Marasca e Otávio Landmeier (2009-2016)
• Otávio Landmeier e Evanete Inez Horst Grave (2017-2020)
• Joacir Antônio Docena e Clécio Spellmeier (2021-2024)
• Cesar Juliano Bloemker e Simone Aline Tischer Landmeier (Desde 2025)

Legislatura (2001-2004)

• Valério da Fonseca
• Sérgio Marasca
• Otávio Dahmer
• Cesar Juliano Bloemker
• Otávio Landmeier
• Décio Brune
• Simone Lindemann
• Anelise Sulzbach
• Jorge Fiegenbaum

Comissão Emancipacionista –  Formação em 17/08/1994

  • Presidente: Enio Grave
  • Vice: Nelson Horst
  • 2º Vice: Ido Sulzbach
  • Secretária: Glaci Sieben
  • 1ª Vice Secretária: Claudete Kunzler Beckenbach
  • 2º Vice Secretário: Otávio Landmeier
  • Tesoureiro: Otávio Dahmer
  • 1º Vice Tesoureiro: Dirceu Ahlert
  • 2º Vice Tesoureiro: Renato Dörr
  • Conselho Fiscal: Idílio Lindemann, Jaime Antônio Kohl e Edio Rex
  • Suplentes: Evanete Inês Horst Grave, Rudi Wiethölter, Norberto Grave, Norberto Dörr, Vera Ahlert Dörr, Danilo Jasper e Lauro Wiethölter.

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