Meses de preparação, expectativas e planos estarão em jogo a partir da tarde deste domingo, 8, quando inicia a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Conforme o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 5 milhões tiveram a inscrição confirmada. No Estado, serão 206,5 mil.
Em relação ao Vale do Taquari, o número chega a 4.926, cerca de 33% a mais que no ano passado. A aplicação será realizada em Lajeado, Estrela, Encantado, Arroio do Meio, Taquari e Teutônia. 671 estudantes realizarão a prova na Capital do Canto Coral. Em 2025, eram 545.
Muito além das horas de estudo
Estudante do Colégio Teutônia, Isabella da Costa Anschau (17), prestará o exame pela terceira vez, com um objetivo bem definido: conquistar vaga no curso de Medicina. A jovem também acumula experiências em outros processos seletivos, inclusive com aprovação no Vestibular de Inverno da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Ainda, também pretende disputar vagas em quatro instituições federais: UFPR, FURG, UFSM e UFRGS.
Segundo Isabella, a preparação ganhou intensidade no fim do ano passado, quando houve a aquisição de um material com questões de edições anteriores. Durante as férias, passou a acompanhar aulas online e a aprofundar os conteúdos. Inicialmente, dedicava longos períodos aos estudos, mas o método nem sempre se traduzia em aprendizado. “Com o passar dos meses, fui entendendo melhor meu próprio processo de aprendizagem e percebi que não precisava necessariamente estudar mais horas, mas aproveitar melhor o tempo disponível”, relata.
A partir daí, adotou estratégias de revisão periódica e passou a priorizar a resolução de exercícios, com a retomada de conteúdos estudados e identificação das dificuldades, a fim de consolidar os conhecimentos .A familiaridade com provas anteriores também contribui para diminuir a insegurança. Conforme Isabella, o exame apresenta características próprias na formulação das questões e na abordagem dos assuntos, o que amplia a importância dessa prática.
Além das aulas, a estudante frequenta um cursinho em Lajeado. A rotina inclui períodos de aula à noite e compromissos no período vespertino. Com a carga de estudos, atividades físicas e outros interesses pessoais nem sempre encontram espaço na agenda.
A proximidade da prova também exige atenção ao equilíbrio emocional. “O Enem é uma prova tão mental quanto conteudista, pois precisamos saber administrar o cansaço, a ansiedade e as próprias expectativas”, observa.
Como parte desse cuidado, Isabella e algumas amigas organizaram uma atividade de meditação e
respiração para o sábado anterior ao exame. Outro desafio está nas comparações estimuladas pelas redes sociais, onde relatos de rotinas aparentemente perfeitas podem criar expectativas difíceis de alcançar. Nesse processo, também destaca o papel da família, amigos e docente. “Às vezes, o papel de um professor vai muito além de ensinar: é acreditar no aluno, principalmente quando ele mesmo está inseguro sobre sua capacidade”, conclui.
Caminho para a escolha profissional
Com 39 anos de experiência, o professor Vitor Ernesto Krabbe destaca que o estudo estimula o pensamento crítico, a interpretação de informações e a capacidade de argumentação, competências que também encontram aplicação no mercado de trabalho.
Além disso, a estrutura do exame incentiva os jovens a superarem os limites da simples memorização, ao propor questões que exigem raciocínio, leitura e resolução de problemas. “O conteúdo decorado, em pouco tempo, é esquecido, mas a estrutura mental construída durante a preparação permanece para a vida inteira”, afirma Krabbe. Esse aprendizado contribui para o amadurecimento intelectual, o desenvolvimento cognitivo dos estudantes.

Com a experiência de quem acompanhou todas as edições, professor Vitor destaca o estímulo ao desenvolvimento cognitivo e à construção de teses mais sólidas. Foto: Marcel Lovato/Arquivo Informativo Regional
Entre as competências exercitadas estão a compreensão de textos complexos, a leitura de gráficos e a interpretação de dados. Conforme o educador, a capacidade de identificar informações essenciais, estabelecer relações entre diferentes assuntos e construir análises fundamentadas é importante tanto para a leitura de artigos científicos na universidade quanto para a avaliação de relatórios profissionais.
A redação também desempenha um papel nesse aprendizado. Ao exigir a organização lógica das ideias, a defesa de uma tese e a apresentação de propostas de intervenção, a prova estimula a comunicação escrita e a construção de argumentos consistentes. Para Krabbe, essas habilidades favorecem a participação em debates, a elaboração de projetos e o exercício de funções de liderança.
Ademais, o professor também considera que a participação no Enem pode auxiliar estudantes que ainda não definiram uma profissão. Afinal, as diferentes áreas do conhecimento oportunizam as afinidades com determinados campos de estudo e servem de referência para compreender melhor as aptidões.
Krabbe ressalta a responsabilidade das instituições de ensino em aproximar os conteúdos trabalhados em sala de aula das possibilidades de formação e atuação. “A escola precisa atuar como uma ponte entre o conhecimento acadêmico e a realidade das profissões”, destaca. Ir além de testes vocacionais e investir cada vez em visitas técnicas, feiras de profissões e encontros com ex-alunos que construíram carreiras em áreas diversas.
Apoio do Estado
O Estado anunciou, nessa quinta-feira, 5, o repasse de R$ 1,9 milhão para auxiliar estudantes da rede estadual, via Programa Agiliza Educação. Essa verba deverá ser utilizada para aquisição de kits de alimentação, compra de canetas esferográficas transparentes e/ou ressarcimento de despesas com transporte intermunicipal.
Essa distribuição considera a quantidade de alunos matriculados no terceiro ano do ensino médio e as condições de infraestrutura dos municípios. Estabelecimentos localizados em cidades sem aplicação do exame recebem valores maiores, a fim de compensar os custos de deslocamento. Nesses casos, o reembolso da passagem poderá ser solicitado mediante apresentação do bilhete de transporte ou da Declaração de Comparecimento, emitida na Página do Participante.
Histórico do Exame
Criado em 1998 pelo Ministério da Educação (MEC), o Enem tinha o objetivo simples de avaliar o aprendizado dos estudantes ao longo da educação básica. Nos primeiros dez anos, a prova era realizada em apenas um dia, com 63 questões interdisciplinares e a redação. Apenas algumas instituições utilizavam o resultado como critério de ingresso.
A principal mudança ocorreu em 2009, quando houve a reformulação feita para ampliar o acesso ao ensino superior. Na época, o número de questões passou de 63 para 180. Com a redação mantida, a aplicação passou a ocorrer em dois dias. Também foi adotada a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia que considera, entre outros fatores, a dificuldade das questões e a coerência das respostas.
O MEC estima que mais de 123 milhões de estudantes se inscreveram desde a primeira edição. Este número, contudo, não representa o total de participantes, uma vez que a cada ano, milhares deixam de fazer as provas por conta de atrasos, problemas de saúde e outras situações.
