
No fechamento da série “Lugar de Mulher”, que ao longo do mês de março destaca profissionais em atividades que até a alguns anos eram tipicamente masculinas, a entrevistada é Cláudia Beatriz Dickel Müller. Aos 54 anos, natural de Linha Gamela, Teutônia, ela é casada com Jorge Volmir Müller, tem três filhas e reside no Bairro Canabarro. Para auxiliar na empresa do marido, a JV Turismo, habilitou-se a dirigir ônibus. Hoje, depois de 25 anos de atuação como motorista, superou as dificuldades, a desconfiança e o preconceito e até já fez escola: a filha Jéssica Eduarda, 28 anos, formada em medicina veterinária, também aprendeu a profissão, fez carteira de motorista de ônibus em 2019 e dirige regularmente uma linha da empresa.

Cláudia Beatriz Dickel Müller
Como surgiu a oportunidade, ou necessidade, de aprender a dirigir ônibus?
Cláudia Beatriz Dickel Müller – O Jorge já trabalhava em transporte com o pai dele. Então, ele sempre tinha essa vontade de comprar ônibus e trabalhar na área. Quando ele foi comprar o segundo ônibus, me pediu para fazer a carteira, o que foi muito desafiador, porque eu não dirigia nem carro. Na época, eu havia feito a minha carteira para dirigir moto e de carro eu sabia só o básico. Então, em 2001, comecei a pegar o carro para praticar e depois fui fazer a carteira de ônibus. Eu não tinha nem ideia de que esta acabaria sendo minha profissão. Comecei a andar devagarinho. No início foi difícil, porque eu sou pequena. Na verdade, dirigir ônibus é pesado, mas é algo pelo qual me apaixonei. Hoje eu digo que quero ter saúde para dirigir meu ônibus até ficar velhinha.
Com quais linhas de ônibus tu trabalhas?
Cláudia Müller – Hoje faço praticamente só o transporte escolar municipal e auxilio quando falta motorista no transporte de funcionários para empresas.
Como é o trânsito para quem dirige um veículo grande?
Cláudia Müller – Os outros motoristas não querem ficar atrás de um ônibus, ou de um caminhão. Até nós, quando estamos de carro, somos assim. No trânsito, as pessoas têm muita pressa e falta paciência para aguardar os veículos maiores fazerem a conversão para ingressar em outra rua, quando ligam o pisca. O ônibus é grande e quem vem atrás precisa ter um pouco de paciência para aguardar.
Enfrentaste situações de preconceito, ou comentários maldosos de passageiros?
Cláudia Müller – No início, sempre teve aquele olhar de desconfiança das pessoas quando eu chegava nas paradas para levar passageiros. Quando eu ainda estava fazendo a carteira, um senhor disse que deveria pedir para a prefeitura fazer os postes de borracha. Mas hoje em dia acho que não tem mais isso. As pessoas me conhecem e sabem que não é mais tão incomum uma mulher dirigindo.
É uma profissão que atende as necessidades econômicas da família?
Cláudia Müller – Sim. Custeamos a faculdade das filhas e a mais nova ainda estuda. Financeiramente, não dá pra dizer que é tudo aquilo, até porque a concorrência é grande, no setor público é tudo por licitação. Mas dá para viver bem.
Qual a mensagem para as mulheres que desejam atuar em áreas que não são tão comuns para elas?
Cláudia Müller – Que vão em frente. Se têm vontade, que façam. Hoje em dia, acho que não existe mais essa divisão de profissão de homem e profissão de mulher. Querendo, tendo condições, acho que a pessoa tem que ir adiante, em busca daquilo que quer fazer. Para a pessoa se realizar, ela precisa ter essa coragem de encarar os desafios. Eu nunca pensei em ser motorista, mas hoje sou apaixonada. A profissão surgiu na minha vida do nada e hoje em dia não me vejo fazendo outra coisa.

“Quero ter saúde para dirigir meu ônibus até ficar velhinha”