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LUGAR DE MULHER

“Quero ter saúde para dirigir meu ônibus até ficar velhinha”

O quadro Lugar de Mulher entrevista Cláudia Beatriz Dickel Müller

26/03/2026 | 10:12 Atualização: 26/03/2026 | 10:14

No fechamento da série “Lugar de Mulher”, que ao longo do mês de março destaca profissionais em atividades que até a alguns anos eram tipicamente masculinas, a entrevistada é Cláudia Beatriz Dickel Müller. Aos 54 anos, natural de Linha Gamela, Teutônia, ela é casada com Jorge Volmir Müller, tem três filhas e reside no Bairro Canabarro. Para auxiliar na empresa do marido, a JV Turismo, habilitou-se a dirigir ônibus. Hoje, depois de 25 anos de atuação como motorista, superou as dificuldades, a desconfiança e o preconceito e até já fez escola: a filha Jéssica Eduarda, 28 anos, formada em medicina veterinária, também aprendeu a profissão, fez carteira de motorista de ônibus em 2019 e dirige regularmente uma linha da empresa.

Cláudia Beatriz Dickel Müller

Como surgiu a oportunidade, ou necessidade, de aprender a dirigir ônibus?

Cláudia Beatriz Dickel Müller O Jorge já trabalhava em transporte com o pai dele. Então, ele sempre tinha essa vontade de comprar ônibus e trabalhar na área. Quando ele foi comprar o segundo ônibus, me pediu para fazer a carteira, o que foi muito desafiador, porque eu não dirigia nem carro. Na época, eu havia feito a minha carteira para dirigir moto e de carro eu sabia só o básico. Então, em 2001, comecei a pegar o carro para praticar e depois fui fazer a carteira de ônibus. Eu não tinha nem ideia de que esta acabaria sendo minha profissão. Comecei a andar devagarinho. No início foi difícil, porque eu sou pequena. Na verdade, dirigir ônibus é pesado, mas é algo pelo qual me apaixonei. Hoje eu digo que quero ter saúde para dirigir meu ônibus até ficar velhinha. 

Com quais linhas de ônibus tu trabalhas? 

Cláudia Müller Hoje faço praticamente só o transporte escolar municipal e auxilio quando falta motorista no transporte de funcionários para empresas.

Como é o trânsito para quem dirige um veículo grande?

Cláudia Müller Os outros motoristas não querem ficar atrás de um ônibus, ou de um caminhão. Até nós, quando estamos de carro, somos assim. No trânsito, as pessoas têm muita pressa e falta paciência para aguardar os veículos maiores fazerem a conversão para ingressar em outra rua, quando ligam o pisca. O ônibus é grande e quem vem atrás precisa ter um pouco de paciência para aguardar. 

Enfrentaste situações de preconceito, ou comentários maldosos de passageiros?

Cláudia Müller No início, sempre teve aquele olhar de desconfiança das pessoas quando eu chegava nas paradas para levar passageiros. Quando eu ainda estava fazendo a carteira, um senhor disse que deveria pedir para a prefeitura fazer os postes de borracha. Mas hoje em dia acho que não tem mais isso. As pessoas me conhecem e sabem que não é mais tão incomum uma mulher dirigindo.

É uma profissão que atende as necessidades econômicas da família?

Cláudia Müller Sim. Custeamos a faculdade das filhas e a mais nova ainda estuda. Financeiramente, não dá pra dizer que é tudo aquilo, até porque a concorrência é grande, no setor público é tudo por licitação. Mas dá para viver bem.

Qual a mensagem para as mulheres que desejam atuar em áreas que não são tão comuns para elas?

Cláudia Müller Que vão em frente. Se têm vontade, que façam. Hoje em dia, acho que não existe mais essa divisão de profissão de homem e profissão de mulher. Querendo, tendo condições, acho que a pessoa tem que ir adiante, em busca daquilo que quer fazer. Para a pessoa se realizar, ela precisa ter essa coragem de encarar os desafios. Eu nunca pensei em ser motorista, mas hoje sou apaixonada. A profissão surgiu na minha vida do nada e hoje em dia não me vejo fazendo outra coisa.

“Quero ter saúde para dirigir meu ônibus até ficar velhinha”

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