29 de maio de 2026
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LEGADOS CULTURAIS

A harmonia que depende de nós

Opinião de Rosita Jussara Schneider, coralista e corretora de seguros

29/05/2026 | 09:39

Toda tradição carrega consigo uma pergunta silenciosa: quem dará continuidade? 

Tradições não desaparecem de repente. Elas se enfraquecem quando deixam de ser vividas. O canto coral, que atravessou o oceano com nossos antepassados e fez de Teutônia a Capital Nacional do Canto Coral, chegou até aqui porque alguém, em cada geração, decidiu assumir a responsabilidade de mantê-lo vivo, não foi automático. Houve e há ensaios após longos dias de trabalho, lideranças que organizam grupos, famílias que incentivam seus filhos, jovens que dizem “sim” ao convite de cantar. A continuidade sempre foi – e continua sendo – construída por decisões concretas. 

Hoje vivemos um tempo em que as opções se multiplicam e o compromisso coletivo já não é algo natural. Participar exige escolha. Permanecer exige dedicação. E talvez seja justamente aí que esteja o ponto central: a continuidade não é herança garantida – é compromisso assumido. Existem grupos ativos que seguem honrando essa história. Mas para que essa realidade se mantenha forte, não basta admirar apresentações ou celebrar o título que nos orgulha. É preciso participação real. O canto coral precisa de vozes novas, de lideranças jovens, de famílias que compreendam que tradição não é algo distante – é algo que se constrói em cada ensaio. 

Provocar continuidade é provocar consciência. É perguntar aos pais: que experiências estamos oferecendo aos nossos filhos além das telas e da pressa? É perguntar aos jovens: que história vocês querem contar sobre o lugar onde cresceram? Participar de um coral não é apenas aprender música, é aprender a ser comunidade. A beleza de um coral está na soma das diferenças. Cada voz entra no seu tempo, encontra seu espaço e aprende a harmonizar com as demais. Assim também é a cultura: ela só permanece viva quando diferentes gerações se reconhecem parte da mesma melodia. Talvez o maior desafio não seja começar algo novo, mas não deixar que o que já existe se perca por falta de continuidade. 

O canto coral já atravessou mudanças, crises e silêncios. Agora, mais uma vez, depende de nós. Porque tradição não é aquilo que recebemos pronto – é aquilo que escolhemos sustentar. E a pergunta que permanece é simples, mas decisiva: quem continuará cantando? E quem terá a coragem de fazer da própria voz a ponte entre o passado e o futuro?

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