28 de março de 2026
28ºC | Parcialmente nublado

Reflexos da guerra

Falta de diesel pressiona preços e atinge cadeia produtiva

Conflito internacional e gargalos logísticos reduzem oferta, encarecem operações e mantêm alerta para desabastecimento

Por: Marcel Lovato

28/03/2026 | 08:00
Produtores enfrentam dificuldades para garantir o abastecimento das máquinas agrícolas. Combustível é um dos principais insumos para manter as operações nas propriedades rurais. Foto: Marco Mallmann
Produtores enfrentam dificuldades para garantir o abastecimento das máquinas agrícolas. Combustível é um dos principais insumos para manter as operações nas propriedades rurais. Foto: Marco Mallmann

O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel chega ao 27º dia nesta quinta-feira, 26, ainda sem perspectiva real de um cessar-fogo. Essa tensão contínua influencia o mercado internacional de petróleo e pressiona os custos dos combustíveis. Na região, transportadoras, produtores rurais e postos de combustíveis estão entre os mais impactados.

Dono de uma rede de postos ligados à Charrua em Teutônia, o empresário Clóvis Mörschbächer afirma que as unidades têm recebido apenas metade do volume de diesel solicitado. Há muitas restrições, embora postos com bandeira sejam mais atendidos pelas distribuidoras por conta da prioridade. Já os que atuam de forma independente possuem mais dificuldades na aquisição do combustível.

As limitações influenciam no preço médio, que aumenta gradativamente, entre 10 e 20 centavos ao dia. O repasse ao consumidor se torna inevitável, em especial nos estabelecimentos sem contrato. “Cada posto tem a sua experiência, mas buscamos, na medida do possível, o equilíbrio. Valores muito acima de mercado são casos pontuais. Infelizmente, não vejo uma perspectiva de resolução a curto prazo”, destaca Clóvis.

Reflexo no campo

O empresário apontou, ainda, a carência na agricultura, pois muitos produtores trabalham com o Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRR). São empresas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), que compram combustíveis a granel, em especial o diesel, para revenda e entrega direta ao consumidor final. E neste momento, o acesso está ainda mais racionado. Há relatos de que o valor dessa operação chega a ser maior em comparação com os postos.

Nesse sentido, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Teutônia, Westfália e Poço das Antas (STR), Liane Brackmann, salienta que o impacto se torna significativo aos agricultores. “O diesel é um insumo fundamental tanto para a produção quanto transporte dos alimentos. Assim como o abastecimento das máquinas e dos veículos, os fertilizantes também estão ligados ao petróleo. Ou seja, os custos estão elevados e, sem a disponibilidade adequada do combustível, a produção diminui de forma considerável. É uma reação em cadeia”, aponta.

A dirigente criticou o fato de alguns postos e distribuidores terem reajustado os valores “antes mesmo do impacto real da guerra” por conta, segundo ela, da própria existência do livre mercado. Esse movimento teria surpreendido alguns produtores e impediu uma preparação mais adequada para lidar com esse panorama adverso. Assim, enquanto “aguarda o fim da intensa disputa de poder”, o STR tem orientado os associados a, se houver possibilidade, armazenar combustível e otimizar processos.

A conta vai chegar

Um dos diretores da Tomasi Logística, transportadora com unidades em municípios como Lajeado, Estrela, Caxias do Sul e fora do estado, como São Paulo, Rodrigo Tomasi atua diretamente com o setor de compras. De acordo com o empresário, a situação está cada vez mais difícil. Ele chancelou os aspectos restritivos e mencionou a existência de disponibilidade por conta do “ relacionamento de longo prazo com as distribuidoras”.

Mesmo assim, os pedidos programados para uma segunda-feira, por exemplo, chegam apenas às quartas. Muitos têm de ser refeitos. A frota é composta por cerca de 380 veículos, a maior parte dependente do Diesel. O alto consumo do S10, de maior refino, contribui para inflacionar os custos.

Tomasi explica que o repasse para os clientes ocorre, mas não no mesmo montante em que as operações da empresa se elevam, tampouco no tempo considerado adequado para a operação ficar equilibrada. “Às vezes, não chega na hora, mas com certeza, daqui a um mês,no máximo o consumidor perceberá os reflexos nas gôndolas dos supermercados. E quando isso acontecer, será instantâneo e em larga escala caso o contexto não melhore”, prevê o empresário.

Em relação aos fretes, a Associação Nacional de Transportes de Cargas e Logística (NTC&Logística) divulgou, nessa semana, que a alta média em todo o Brasil já chega a 10%. Para regiões mais distantes ou de difícil acesso, o acréscimo beira os 50%. A tendência é de manutenção dessa escalada nos próximos dias. A cotação mais recente divulgada pela Petrobras aponta que o preço médio no estado está em R$ 7,28.

Setor de transportes alega que repasses aos clientes e aumento dos custos logísticos não ocorrem na mesma proporção. Foto: Arquivo/Informativo Regional

Conjunto de fatores

A economista Cintia Agostini enfatiza que o Petróleo é a grande matéria-prima mundial e está presente em quase 3 mil itens. Assim, a percepção do consumidor se dá tanto direta (combustíveis) quanto indiretamente (inflação das mercadorias). Embora o Brasil seja um produtor, há necessidade de importar 30% do diesel consumido por conta do tipo. Logo, essa dependência mostra que o país é vulnerável às crises internacionais.

Além disso, a Petrobras adota uma política de contenção de preços, o que gera uma defasagem em relação ao mercado internacional. Em outros países, o repasse é imediato quando o valor do barril de petróleo aumenta. O preço médio do insumo subiu de 60 para cerca de 120 dólares. Também há gargalos estratégicos no Oriente Médio, como o fechamento do Estreito de Ormuz, a principal rota global para o transporte, e os próprios ataques às estruturas petrolíferas.

Cíntia destaca ainda as reações internacionais, as quais incluem liberação de reservas e ajustes estratégicos – como o uso de estoques pelo Japão e a flexibilização de sanções pelos EUA –, com forte volatilidade nos preços. Ao mesmo tempo, em âmbito nacional, aponta as tentativas de contenção pelo governo com a redução de tributos e pressão sobre os estados para o corte do ICMS. Internamente, os preços sobem e a logística dificultosa se evidencia, acompanhada do risco de desabastecimento.

Esse movimento impõe necessidade de cortes de serviços e ajustes operacionais em setores públicos e privados. Ainda assim, o cenário é de incerteza. “O tempo desse conflito determinará muito o que vai acontecer. Temos pouca capacidade de ação, pois a solução não está na nossa mão. Portanto, vamos ter de lidarmos com o possível agravamento e buscarmos alternativas diante desse cenário”, conclui Cintia.

Setor público

Consultadas pela reportagem, as prefeituras da microrregião informaram que não enfrentam, até o momento, problemas referentes à falta do combustível. No entanto, o panorama é distinto em outras regiões. Conforme o relatório mais recente da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), em torno de 170 cidades relataram o problema, o que compromete a prestação de serviços essenciais e corrobora o diagnóstico de Cintia. Destas, cinco decretaram emergência: Júlio de Castilhos, Formigueiro, Tupanciretã e São Sepé.

Desta forma, alguns prefeitos alegam necessidade de priorizar áreas como a saúde e transporte escolar, enquanto obras que dependem de maquinário, aos poucos, estão suspensas justamente pela escassez. O levantamento da entidade aponta que oito municípios do Vale convivem com esse dilema: Anta Gorda, Arvorezinha, Dois Lajeados, Progresso, Roca Sales, Santa Clara do Sul, Taquari e Vespasiano Corrêa.

Leia também as Edições Impressas.

Assine o Informativo Regional e fique bem informado.