ILUSTRE CIDADÃO

“Olhar para a evolução do HOB e saber que participei de uma parte dessa história é motivo de muito orgulho”

O quadro Ilustre Cidadão entrevista André Emílio Lagemann

Por: Marco Mallmann

21/08/2026 | 09:34 Atualização: 21/08/2026 | 09:36
André Emílio Lagemann
André Emílio Lagemann

Ex-diretor do Hospital Ouro Branco, André Emílio Lagemann tem 54 anos. Natural de Colinas, é casado com Rosemeri Krindges e pai de Matias Lagemann. É graduado em Economia pela Univates e pós-graduado em Administração e Estratégia Empresarial pela Ulbra. Iniciou sua trajetória na Cooperativa Languiru, onde trabalhou de 1991 a 1997. Em 1997, ingressou no Hospital Ouro Branco, inicialmente como assessor administrativo, e assumiu a direção no ano seguinte, exercendo a atividade até 2020, portanto 23 anos e meio de ligação com a casa de saúde. Desde 2020, atua como superintendente da Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos do Rio Grande do Sul, coordenando a equipe técnica e atuando, ao lado da presidência, na representação institucional e política da entidade.

Como foi o início do trabalho no Hospital Ouro Branco? 

André Emílio Lagemann – Nesses mais de 23 anos acompanhei diferentes ciclos do HOB e também profundas transformações na organização da assistência hospitalar da região. Quando ingressei, em 1997, havia diversos hospitais próximos, como o Hospital 25 de Julho, em Poço das Antas; o Hospital São João, em Paverama; o Hospital e Policlínica Arroio da Seca, em Imigrante; e o próprio Hospital Redentor, no Bairro Canabarro, em Teutônia, que acabaram encerrando as atividades. No HOB, tive o privilégio de aprender com Milton Schneider e Décio Michel, que conduziram a instituição por mais de 40 anos. Pude contar com a experiência deles durante um período de transição. Foi uma escola de gestão e, sobretudo, de compromisso com a comunidade.

Quais as principais transformações do HOB ao longo desse tempo?

Lagemann Em 2010, avançamos na modernização e ampliação da capacidade resolutiva do hospital. Foram realizados investimentos na área de diagnóstico por imagem, com a renovação de equipamentos e serviços de ecografia, mamografia, tomografia e densitometria, além da implantação de uma nova estrutura física para o laboratório de análises clínicas. Em 2012, inauguramos o novo centro cirúrgico, investimento que ajudou a consolidar o HOB como referência regional. A partir dessa estrutura, foi possível habilitar e fortalecer serviços em áreas como traumato-ortopedia, otorrinolaringologia e cirurgia vascular, atendendo pacientes de diversos municípios da região.

E quais os principais desafios enfrentados?

Lagemann A sustentabilidade financeira foi um deles. Entre 2014 e 2018, vivemos um período especialmente difícil, marcado por sucessivos atrasos nos repasses do governo. Administrar um hospital nessas circunstâncias exige planejamento, responsabilidade e capacidade permanente de tomar decisões difíceis sem perder de vista aquilo que é essencial: garantir o atendimento à população. E então veio a pandemia, um dos períodos mais desafiadores de toda a minha trajetória profissional. Havia muitas incertezas sobre o comportamento da doença, os protocolos e a própria capacidade de resposta do sistema de saúde. Trabalhávamos praticamente 24 horas por dia para preparar o hospital para receber os primeiros casos, proteger os profissionais e criar condições seguras para atender os pacientes.

Qual o sentimento por teres contribuído tão significativamente com a saúde?

Lagemann – O sentimento é de gratidão e realização. Tenho consciência de que pude contribuir para uma instituição que faz parte da história da comunidade e, por consequência, ajudar muitas pessoas ao longo desses anos. Mas sempre faço questão de reconhecer que nenhuma realização dentro de um hospital é individual. Tive a oportunidade de trabalhar com pessoas e equipes técnicas extremamente qualificadas e comprometidas. Administrar um hospital com atendimento 24 horas significa conviver diariamente com o imprevisível. A qualquer momento pode chegar um acidente grave, uma emergência ou uma situação que exige decisões rápidas e responsáveis. Por isso, talvez um dos maiores desafios da gestão hospitalar seja justamente tomar decisões todos os dias sabendo que, por trás dos números, dos processos e dos recursos, existem vidas. Olhar para a evolução do Hospital Ouro Branco e saber que participei de uma parte importante dessa história é motivo de muito orgulho. Mais do que estruturas, equipamentos ou serviços implantados, o que permanece é a certeza de ter contribuído para ampliar o acesso da população a uma assistência de saúde mais qualificada e resolutiva.

E o que esse convívio de mais de três décadas no setor te trouxe de ensinamentos?

Lagemann Aprendi que a saúde é construída essencialmente por pessoas. Estruturas, equipamentos, tecnologia e recursos financeiros são indispensáveis, mas são as pessoas que fazem o sistema funcionar. São profissionais que estão nos hospitais todos os dias e comunidades que, especialmente no interior, ajudaram a construir e continuam defendendo suas instituições. Também aprendi que gestão exige capacidade de adaptação. Passamos por mudanças no SUS, crises financeiras, transformações tecnológicas, dificuldades de financiamento e uma pandemia. Em todos esses momentos, foi necessário encontrar caminhos, dialogar e tomar decisões. Hoje, na Federação, procuro levar comigo a experiência de quem conhece a realidade de um hospital por dentro. Quando discutimos financiamento, políticas públicas ou sustentabilidade, as decisões podem significar a manutenção de um serviço, a contratação de profissionais, a aquisição de um equipamento ou a possibilidade de um paciente ser atendido perto de sua casa. Por isso, acredito muito na força da representação coletiva e do diálogo. Os desafios da saúde são grandes demais para serem enfrentados isoladamente. Precisamos de hospitais bem geridos, políticas públicas responsáveis e uma relação de parceria entre instituições, municípios, Estado e União. No final, o objetivo precisa ser sempre o mesmo: garantir que a população tenha acesso a uma assistência de qualidade e que os hospitais tenham condições sustentáveis para continuar cuidando das pessoas.

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