LEGADOS CULTURAIS

Economizar é vital

Opinião de Everton Augustin, professor e gestor escolar

07/08/2026 | 11:29 Atualização: 07/08/2026 | 11:29

A economia, em todos os seus aspectos, estava entranhada na cultura imigrante. Tudo tinha que durar, preferencialmente para todo o sempre, amém. 

A roupa de domingo só não era mais usada quando não servia mais mesmo, tendo, obviamente, passado por todos os ajustes e gerações possíveis. Se a roupa era do irmão mais velho, passava para o mais novo. Depois que a função domingueira tinha sido executada até se tornar praticamente um farrapo, tiravam-se as partes aproveitáveis. Os retalhos eram guardados e poderiam virar tapetes ou colchas. Se não houvesse uma Singer, tradicional máquina de costura tocada a pedal, as peças eram unidas com agulha mesmo, buscando pontos perfeitos de acordo com a destreza da costureira. Na divisão das tarefas, essa geralmente cabia às mulheres. Da roupa destinada a outras funções, pano de chão que fosse, antes ainda, os botões eram cuidadosamente retirados e guardados. Sempre poderiam ser reutilizados, nem que fosse para jogar moinho ou futebol de botão. Estávamos sempre de olho nos grandões guardados cuidadosamente junto com os outros materiais de costura.

Poupar era algo inerente a quem tinha escassos recursos ou difícil acesso às mercadorias. Mesmo com o crescimento do comércio, a cultura do economizar permaneceu arraigada nos descendentes dos imigrantes. Aliás, eles haviam saído de sua terra natal, por conviverem com a total escassez, sem a certeza do pão diário na mesa. Por isso não se esbanjavam alimentos de forma alguma. O que sobrava da refeição de um dia era reaproveitado em alguma refeição posterior. Eu adorava o bolo de arroz com canela da minha avó. Esse só acontecia quando sobrava arroz de dias anteriores. Mesmo que deteriorada alguma comida, ela poderia servir de alimento para algum animal da propriedade que era cevado para ocasiões especiais: batizado, confirmação, casamento ou Kerb (quermesse).

Lembro ainda da fala do meu avô, em seu dialeto, quando reclamávamos da pouca quantidade de sobremesa: “Wer ‘s Kleene net ehrt, is es Grosse net wehrt.” 

Gravadas na memória, essas e outras lições forjaram um modo de ser.

“Wer das Kleine nicht ehrt ist des Grossen nicht wehrt.” (A quem o pouco trata com desdém muito não convém.)

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