CASAL DE YOUTUBERS

De malas sempre prontas para registrar novas histórias

Por meio do canal “Vida de Aposentado55”, Cláudia e Derli Kerber relatam viagens, interagem com seguidores e exaltam o privilégio de explorar o mundo na terceira idade

Por: Marcel Lovato

29/08/2026 | 07:30 Atualização: 29/08/2026 | 09:29
Com o uso da tecnologia e o parceiro inseparável, o Chevrolet Equinox, Cláudia e Derli apresentam as paisagens de todo o Brasil e incentivam o público a seguir os passos. Foto: Gabriela Arendt Schwingel
Com o uso da tecnologia e o parceiro inseparável, o Chevrolet Equinox, Cláudia e Derli apresentam as paisagens de todo o Brasil e incentivam o público a seguir os passos. Foto: Gabriela Arendt Schwingel

Um famoso ditado afirma que “a vida começa depois dos 60”, quando o maior tempo livre e a sabedoria oportunizam viradas de chave capazes de tirar sonhos do papel e promover roteiros dignos de ficção. Embora há quem discorde desta tese, o casal Derli Eloi Kerber (69) e Cláudia Kerber (65) mostra o quanto a aposentadoria também pode ser um sinônimo de reinvenção.

Engenheiros agrônomos e naturais de Dionísio Cerqueira (SC) e Iraí, eles se conheceram em Nova Santa Rosa, no oeste paranaense, onde eram ligados à Emater. Posteriormente, o casal se mudou para Sinop, norte do Mato Grosso. Por lá, chegaram a ter um restaurante. Em Minas Gerais, trabalharam na reestruturação de um colégio agrícola no município de Teófilo Ottoni. No ano de 2005, então, ocorreu a vinda para Teutônia, a fim de os deixar mais próximos de familiares. A ligação de Cláudia com Teutônia se deu especialmente porque sua mãe, Waltraude Wartschow, foi professora e a autora do hino do município.

Quando chegaram, precisavam arrumar um emprego. Foi então que decidiram empreender, com base na experiência no ramo alimentício. Ainda naquele período, o casal criou a Nova Delícia Sorvetes, na Rua Daltro Filho, Bairro Teutônia, com investimento em fabricação própria, linha italiana. A empresa se consolidou e foi um ponto de referência pela qualidade dos produtos durante quase 17 anos. O trabalho ocorria de domingo a domingo e por longas jornadas. No último trimestre de 2022, a decisão de encerrar as atividades abriu o caminho para novas experiências.

Da estrada para o digital

“Quando eu cheguei aos 65 anos, eu entendi que estava na hora de parar. Queria aproveitar a vida, viajar”, lembra Derli. Cláudia ficou tensa, pois adorava a sorveteria. Mesmo com a saudade, concordou em encarar a missão. A estabilidade financeira, adquirida e preservada ao longo de uma vida inteira de trabalho, foi um fator que contribuiu para o desejo ser levado adiante. Além da aposentadoria, o casal mantém outras fontes de renda, como aluguéis comerciais.

Segundo Derli, os passeios começaram pela região. A criação de um canal no Youtube começou a ser maturada porque amigos faziam uma série de perguntas e o casal se repetia nos relatos. Desta forma, a filha mais nova, Luíza, criou o “Vida de Aposentado55”. O número foi uma imposição da rede social para diferenciá-lo de outros semelhantes. Em 8 de março de 2023, publicaram o primeiro vídeo, sobre uma trilha realizada em Linha Harmonia. Desde então, já são 211 conteúdos e mais de 4,3 mil inscritos.

Uma gravação feita após a enchente de 2024 lidera, com cerca de 99 mil visualizações. Desde então, já apresentaram até mesmo pontos turísticos de países como Alemanha, Itália, Suíça, Holanda, Argentina, Paraguai e Uruguai. O tour europeu, por exemplo, rendeu 24 postagens.

As viagens são feitas sem extravagâncias. Há limites de gastos, tanto que na maior parte das ocasiões dormem na barraca que levam na Chevrolet Equinox, junto com uma porção de equipamentos como eletrônicos, minigeladeira, corda, lanterna, extensões, utensílios domésticos e o que for necessário. Hotéis e pousadas mais estruturados costumam ficar reservados para ocasiões especiais, como os aniversários de ambos e do casamento.

Canal Vida de Aposentado tem mais de 4,3 mil inscritos e audiência predominante de internautas acima dos 50 anos. Foto: Gabriela Arendt Schwingel

Retorno ao Centro-Oeste

A viagem mais recente durou quase um mês e levou o casal ao Centro-Oeste, com paradas em pelo menos dez municípios, inclusive em Salto Del Guairá, no Paraguai. Não há um roteiro fechado antes de cada saída. O caminho pode mudar conforme o que surgir. Se uma placa turística desperta a curiosidade, o casal para e inclui o atrativo no passeio. Entre os destinos, esteve novamente Sinop, onde Derli e Cláudia reencontraram amigos e visitaram familiares.

Em Campo Novo do Parecis, também no Mato Grosso, o casal visitou duas aldeias abertas ao turismo. Lá, tiveram contato mais próximo com a cultura indígena e conheceram alguns dos atrativos naturais existentes nas comunidades, como Rio Sacre, famoso por suas águas cristalinas. A passagem também trouxe um aprendizado relacionado à produção dos vídeos. Em uma das gravações, relata Cláudia, uma criança apareceu com a autorização dos pais. No entanto, o Youtube desativou os comentários do conteúdo e enviou uma advertência ao canal por contada exposição. O vídeo em si não foi afetado.

Outro ponto marcante foi o tráfego pela Transpantaneira, rodovia que liga Poconé ao distrito de Porto Jofre, no Mato Grosso. São quase 150 quilômetros de percurso, parte deles em estrada de chão, com numerosas pontes pelo caminho e muitos caminhões, o que exige atenção redobrada dos motoristas.

No fim do trajeto, Derli e Cláudia acamparam às margens de um rio, próximo ao local de onde partem os barcos com turistas interessados em observar onças-pintadas. O contato com a natureza também os fez superar medos, como de altura e de “tudo”. Reforça a autoconfiança e, acima de tudo, a cumplicidade. O próximo destino deverá ser a Patagônia argentina, a fim de presenciar a floração das tulipas.

Produção

As experiências são transformadas em vídeos com duração média de 20 minutos. Cláudia opera a GoPro e reforça a importância de estar atenta aos detalhes. “Às vezes, a filmagem é uma questão de segundos”, reforça. Além de motorista, Derli é o responsável pela operação do drone e pela edição, processo no qual aprende a cada dia. Quando há atualizações no software e na rede social, pede o apoio dos genros e da filha mais velha, Ana Lívia, que são da área de Tecnologia da Informação.

Sobre o drone, o aprendizado se deu por meio de um curso realizado em apenas um dia na capital. Quanto à edição, Derli define que os primeiros vídeos eram “rudimentares”. Hoje, durante o processo criativo, tranca-se no escritório. “Fico chateada porque o Derli não me deixa mexer”, brinca Cláudia. Ela, então, se responsabiliza pelas postagens no Instagram.

O casal estima que o acervo já ultrapassa 13 mil fotografias armazenadas em um HD. Nem todo o material, porém, chega ao arquivo: Eventualmente, vídeos e imagens são perdidos. “Nós usamos apenas a inteligência natural, nunca a artificial. Não é sobre ganhar dinheiro. É se sentir feliz e ser bem tratado por onde passa. Eu me emociono quando edito e lembro que estive naquele lugar”, descreve Derli.

Atividades como trilhas, acampamentos e mergulhos em rios de águas cristalinas fazem parte das viagens da dupla. Roteiros nunca são definidos com antecedência. Foto: Arquivo Pessoal

O legado

Para Cláudia, a espontaneidade é um dos diferenciais do canal, como uma simples saudação animada de “Bom Dia”, sem forçar a barra. “Queremos sempre mostrar coisas bonitas, de uma forma leve, com toque de humor, improviso e criatividade. Mais que isso, buscamos incentivar o internauta a conhecer, ao menos, o parque da sua cidade”, explica.

Segundo ela, jovens mostram os vídeos aos pais da mesma faixa etária do casal, a fim de motivá-los a se mexer. Não à toa, o público predominante é o 50+. Toda essa conexão se traduz no carinho expresso nos comentários e até em cortesias concedidas por estabelecimentos.

Derli entende que o engajamento demonstra o quanto há demanda para esse tipo de conteúdo. Além disso, mostra que aposentadoria não é sinônimo de ficar em casa, mas uma chance para explorar o mundo.

“O nosso maior legado não está somente no conhecimento geográfico, mas nas pessoas que você encontra, interações, receptividade, costumes, comidas, cheiros, estilo de vida. É até difícil descrever”, conclui. Seu maior conselho é: trabalhar e economizar para desfrutar na hora certa.

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