Quem atravessa Boa Vista hoje encontra um bairro de perfil predominantemente residencial, cortado pela ERS-419 e integrado à expansão urbana de Teutônia. O ritmo mais lento do presente contrasta com uma época na qual essa região era um dos alicerces econômicos e sociais. Diversos empreendimentos e entidades intensificaram a vida comunitária. Nascido na localidade, o professor e historiador Selby Wallauer testemunhou esse período.
Segundo Selby, ainda no fim da década de 1860, o imigrante alemão Wilhelm Schonhorst desenvolveu uma serraria e carpintaria. Em uma colônia onde casas, galpões, altares, escolas, móveis e equipamentos precisavam ser produzidos quase do zero, a madeira assumiu papel central. Ele também ficou ligado à construção de edificações em estilo enxaimel.
A organização da comunidade avançou para além do trabalho. Ainda no fim do século XIX, o bairro sediou a Loja Maçônica Rosa de Teutônia. Pai do futuro presidente Ernesto Geisel, August Geisel, e Henrique Brackmann, dono de uma casa comercial, eram alguns dos integrantes. Em 1910, Wilhelm Schonhorst construiu o prédio que mais tarde se tornou o Salão Böhmer, atualmente em ruínas.
Décadas depois, quando pertencia a Gustavo Ahlert e Leopoldo Wessel, vendeu tecidos, roupas, bijuterias, farinha, açúcar a granel e produtos trazidos de Porto Alegre. Em outros momentos, o mesmo espaço recebeu apresentações do grupo de teatro da comunidade, totalmente no idioma alemão, e sessões de cinema, com faroestes e filmes de O Gordo e o Magro, além, é claro, dos famosos bailes de Carnaval. Quase em frente, funcionava o Clube de Bolão Teutônia. A extensa edificação existe, está à venda, mas parcialmente destruída.

Empreendimento da Família Wallauer reunia serraria, carpintaria e até mesmo geração de energia. Foto: Acervo Selby Wallauer
Eletricidade e fábrica de manteiga
Em 1932, o Arroio Boa Vista voltou a assumir um papel decisivo. Conforme Selby, Henrique Sommer implantou uma barragem e uma estrutura de geração de energia elétrica. A pequena usina passou a abastecer Boa Vista e localidades próximas, entre elas Languiru e Linha Frank, em um período no qual a eletrificação do interior ainda era restrita. A rede seguia até o cruzamento onde atualmente funciona o Supermercado Zart.
Anos depois, Afonso Wallauer, pai de Selby, e Emílio Rex compraram a usina e a administraram até 1960. Duas turbinas faziam o serviço. No entanto, o sistema estava diretamente sujeito às condições do arroio: nas estiagens, faltava volume suficiente; nas cheias, a operação também enfrentava dificuldades. Eles também mantinham serraria, marcenaria e carpintaria. “Caixões eram fabricados lá e sob medida. Se houvesse um barulho alto de madrugada, o pessoal sabia que alguém havia morrido e os trabalhos estavam em andamento”, explica o pesquisador.
Paralelamente, a fábrica de manteigas fundada por Reinoldo Dahmer e Reinoldo Schonhorst (mais tarde, Dahmer e Cia) se constituiu como uma das principais empresas da história de Boa Vista. A chaminé, nos fundos do Salão Böhmer, é o que restou desse período. Selby conta que quase toda a produção de leite de Teutônia era levada ao local por meio de carroças puxadas por mulas. A manteiga era embalada em caixinhas de papelão.
No ápice, durante a década de 1950, a produção diária chegou a 350 quilos. Fazia-se também gelo em barras, uma exclusividade na época. Do leite desnatado era extraída a caseína que era vendida para indústrias que fabricavam pentes, botões e outros artigos.
Todos os dias, na faixa das 7h30, um ônibus da extinta Expresso Sulina, oriundo de Estrela, parava defronte ao salão. Além de levar os passageiros a Montenegro e Porto Alegre, o coletivo também levava caixas de manteiga para serem vendidas em diversos pontos da capital. Por lá, os negócios eram conduzidos por Erno Dahmer, filho do fundador Reinoldo.

Estrutura da fábrica Dahmer e Cia ocupava amplo espaço. Na ocasião, produtores participavam de confraternização. Foto: Acervo Selby Wallauer
Antes da implantação da BR-386 e da RSC-453, a estrada que atravessava a localidade, e que hoje corresponde ao traçado da ERS-419, era a principal rota regional. O trajeto passava por comunidades como Pontes Filho e Novo Paris e seguia em direção a Montenegro. Ao mesmo tempo em que essa posição favoreceu o advento estratégico comercial, também contribuiu para o declínio, à medida que as estradas principais foram erguidas.
O pagamento aos produtores considerava o teor de gordura do leite. A Dahmer realizava quatro ou cinco medições por mês, mas calculava o valor a partir da média dos resultados apresentados pelo conjunto de fornecedores. Na prática, o leite com maior teor de gordura compensava aquele que apresentava índice inferior.
Esse cenário começou a se alterar a partir de 1955. A criação da Languiru marcou uma nova etapa e contribuiu, direta e indiretamente, para deslocar o eixo econômico. Registros do escritor Guido Lang apontam que a fábrica Dahmer e o laticínio ligado à Cooperativa chegaram a disputar fornecedores e adotavam formas diferentes de remuneração conforme o teor de gordura do leite. Mais do que concorrência, o episódio colocava frente a frente estruturas econômicas distintas.
Com a queda na demanda, a empresa de Boa Vista teve de fechar as portas. A sucessora no prédio foi um matadouro gerenciado por Hugo Brackmann e Helvin Dickel.

Propaganda da Diesel, Eckerdt e Cia LTDA, veiculada na Revista dos 75 anos de Estrela, em 1950. Foto: Acervo Selby Wallauer
Calçados para as gerações
Outro empreendimento reforçava a diversidade econômica. A Diesel, Eckerdt & Cia Ltda mantinha curtume, sapataria, chinelaria e selaria. O couro era beneficiado e transformado em artigos utilizados pelas famílias e nas próprias atividades rurais.
Selby conta que trabalhou na empresa durante a adolescência, no setor chamado de “banca de sapateiros”. “Nós apoiávamos o calçado em uma forma de madeira, em cima das coxas. O trabalho era minucioso”, lembra.
A organização também se apresentava como uma “transaria”. Havia a fabricação do conjunto completo de itens para encilhar cavalo e também laços de couro cru que eram trançados com finas tiras. Um dos responsáveis pelo negócio, Reinoldo Eckerdt, morreu repentinamente em julho de 1955, aos 49 anos. Sua morte antecedeu o encerramento das atividades e ocorreu justamente quando a organização econômica da região começava a mudar. Posteriormente, o prédio foi demolido.
“Não” ao hospital
O passado da localidade também guarda uma das passagens mais curiosas da história teutoniense. Entre 1944 e 1945, conforme Selby, o médico João Lavrinenco construiu o hoje Hospital Ouro Branco em uma área elevada pertencente ao casal Ida Stapenhorst Ahlert e Gustavo Ahlert, então donos do salão de baile. Correspondia a uma extensa faixa de terras na direção leste da localidade. A proximidade com a usina hidrelétrica da Wallauer & Cia teria influenciado a escolha, uma vez que Lavrinenco acreditava que o pleno fornecimento de energia garantiria a operação do aparelho de raio-X da futura casa de saúde.
Contudo, a negociação não foi adiante. Selby afirma que Ida teria recusado a venda da área por temer que a presença do hospital atraísse doenças à comunidade. A preocupação estava relacionada ao contexto de uma epidemia de tifo, que provocou a morte de diversos moradores. Ela também chegou a contrair a enfermidade, mas conseguiu se curar. Sem a área em Boa Vista, Lavrinenco decidiu erguer em Languiru.
O presente
Mais de seis décadas depois do início das mudanças, o bairro vive um crescimento residencial, acompanhado por serviços públicos e negócios de menor porte. Os 470 moradores de 2010 se transformaram em 650 moradores, conforme o IBGE (2022).
A EMEF Bento Gonçalves atendia cerca de 60 estudantes em 2018. No início do ano letivo de 2026 eram 202, da pré-escola ao 9o ano. Atualmente, a UBS Anna Antoni também passa por obras com intervenções na cobertura, drenagem, esquadrias e pintura.
Em relação à arquitetura, poucas construções resistem ao tempo. Dois exemplos estão situados na esquina da Rua Afonso Wallauer com a ERS-419. Uma delas é o Armazém de Secos e Molhados Boa Vista, construído em 1957 por Alcido Schneider.

Construído em 1957, prédio que sediou o Armazém Boa Vista, hotel e rodoviária está entre as únicas construções pouco modificadas. Atuais proprietários mantêm letreiros e atividades comerciais
Ponto de encontro de moradores e viajantes, o local também foi rodoviária, hotel e bar. A família Röhrig é a atual proprietária e ainda mantém atividades comerciais no local. Os letreiros originais, assim como parte da fachada, igualmente foram mantidos.
Na esquina oposta, situa-se a residência que outrora sediou a casa comercial de Henrique Altmann. O imóvel de 1934 também foi o endereço da Cooperativa Boa Vista e da central telefônica, além de moradia para diversos proprietários.
Se antes a localidade crescia por aquilo que produzia e atraía de fora, hoje seu desenvolvimento aparece principalmente naquilo que precisa oferecer a quem escolheu viver ali.