LEGADOS CULTURAIS

Os cuidados na tração animal

Opinião de Guido Lang, escritor, historiador e professor

18/09/2026 | 10:08

As juntas de bois, diante da necessidade de força animal, eram consideradas o “pão na mesa” dos colonos. Qualquer família colonial, entre os anos de 1890 a 1990, ostentava uma robusta junta ou parelha de animais.

A tração animal, na escassez ou falta de máquinas e veículos automotores em geral (em especial, tratores), arrastava e puxava arados, carretas, carroças, pedras e toras. Um esbelto par de bois, no seio dos afazeres da roça ou do pastoreio nos potreiros, era sinônimo de que ali residia um colono abonado, caprichoso e exitoso. A eventual falta desses animais, em momentos de necessidade, levava à domesticação e ao manejo de alguma dupla de vacas, dotadas de menor força bruta, mas que serviam como um ocasional “quebra-galho”.

O produtor colonial, no contexto das tarefas rurais, não conseguia subsistir sem o auxílio da força de tração animal. Os inúmeros colonos, na lida com os animais, mantinham excepcionais cuidados para não inviabilizar sua utilização no trabalho. As juntas cangadas, em meio ao chuvisqueiro e à cerração, deveriam ser resguardadas da execução de tarefas sob intempéries.

A excessiva umidade entre a canga e a nuca ou o pescoço do animal, associada à contínua fricção da madeira, acabaria “assando” e machucando a pele, deixando-a em carne viva. Eventuais feridas, por vários dias, impossibilitariam o exercício da tração.

Outro cuidado, especialmente na época do inverno, consistia em preservar os cascos do bicharedo, que tendiam a amolecer em razão do frio e do excesso de umidade.

A gurizada, a título de brincadeira e passatempo colonial, especialmente nos finais de semana, procurava cangar terneiros, numa espécie de pré-ensaio para o futuro exercício da tração. Os “amanciados boizinhos”, desde tenra idade, acabavam acostumados ao manejo e à tração do cingel.

A revolução tecnológica, ao chegar ao meio agrícola e intensificar as criações e plantações, instituiu uma nova realidade no exercício das atividades primárias. Inúmeras propriedades minifundiárias de subsistência familiar, voltadas à produção de carnes, cereais e lácteos, passaram a adotar princípios do agronegócio mediante a constante introdução de tecnologia de ponta.

O preocupante resultado, decorrente da montagem de megaestruturas de produção por parte de alguns empreendedores, sobreveio sob a forma do acentuado endividamento financeiro das outrora modestas propriedades familiares.

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