O padre Bernardo Bolle, zeloso vigário cooperador na paróquia de Estrela, quis, no dia 9 de março de 1894, visitar a capela de Poço das Antas e caiu nas mãos de um grupo que se denominava Maragatos, sob o comando de José Altenhofen. Em seu estudo, o padre conta a comovida aventura nos seguintes termos:
Impunha-se visitar uma das nossas capelas mais distantes. O acompanhante não compareceu – naquele tempo era costume na colônia alemã que por ocasião da visita às capelas do interior da paróquia um morador da respectiva comunidade buscasse e devolvesse o sacerdote –, face à insegurança pelas estradas.
“O senhor tem coragem de viajar sozinho?”, perguntou o superior (padre Eugênio Steinhart, pároco de Estrela na época). O padre Bernardo acenou positivamente com a cabeça. “Então siga em nome de Deus”, completou Steinhart.
As três primeiras horas de viagem fi-las bem, sem ser molestado por quem quer que fosse. Após, segui o caminho por Teutônia, a mais linda zona do nosso município, habitada por evangélicos de confissão luterana, aproximadamente 5000 almas, e então com tendências nitidamente revolucionárias. Passei a primeira guarda. A guarda principal, oculta pela moradia de um colono um tanto retirada do caminho, não foi vista por mim. Cavalguei mais meia hora, satisfeito com o andamento da viagem, quando percebi a aproximação de um ‘oficial’ luso em louca disparada. Suas primeiras palavras foram:
“Está preso! O senhor é meu prisioneiro.”
“Por quê?”, perguntei.
“O senhor alvorotou os meus soldados”, respondeu o luso.
“Não tenho o menor conhecimento do fato”, respondi.
“O senhor vai voltar comigo até a guarda principal. Além do mais, não possui passe e isso é obrigatório para quem por ali passar”, justificou o ‘oficial’.
“Eu não vi guarda algum depois daquele bem na entrada da picada. E por que não me mandaram fazer alto? Ademais, não tenho tempo para voltar atrás. Há gente à minha espera, na capela de Poço das Antas”. Dito isto, abalançei-me para prosseguir viagem, porém o meu cálculo falhou. O elegante ´oficial’ gritou para o seu ajudante: “Pega o cavalo!”
E assim, por bem ou por mal, tive que voltar. No caminho de volta meu ‘guia’ expandia seu mau humor…
Na próxima edição, sigo contando o caminho de volta percorrido pelo padre Bernardo Bolle. Esse relato fará parte do livro de minha autoria, intitulado “A Revolução Federalista no Vale do Taquari: Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul, Arroio do Meio, Encantado, Roca Sales, Teutônia e Taquari”, que está em fase final de produção. A publicação resgata os registros originais das pesquisas do padre Alberto Träsel, patrono da Academia Literária do Vale do Taquari (Alivat), realizadas de 1953 a 1973.