
Quando perguntadas sobre quem faz parte de suas famílias, muitas crianças não se limitam a citar pais, irmãos ou outros parentes. Na lista, cães, gatos e outros animais de estimação também aparecem. Para os pequenos, o animal que divide a casa, as brincadeiras e a rotina passa a ocupar um lugar afetivo entre aqueles que fazem parte de seu cotidiano.
E essa convivência pode ser repleta de benefícios para o desenvolvimento infantil, mas não acontece de forma automática. O vínculo com o animal favorece experiências de afeto, companhia, cuidado, responsabilidade e empatia, mas a participação dos adultos é fundamental para orientar essa relação e garantir que as necessidades, tanto da criança quanto do animal, sejam respeitadas.

Franciele Balen
Conforme a psicóloga infantojuvenil Franciele Balen, o animal tende a assumir um papel importante na vida emocional da criança. Em situações nas quais ela ainda encontra dificuldade para expressar o que sente, o pet pode funcionar como uma presença acolhedora e uma fonte de segurança.
A profissional observa que o animal também pode ser uma companhia em momentos de medo, insegurança ou solidão. Ela cita situações de crianças com dificuldade para dormir sozinhas, amenizada com a presença de um animal adotado pela família.
Mais do que oferecer companhia, porém, a relação permite à criança vivenciar diferentes formas de cuidado. Ao participar da alimentação, da rotina e de outros cuidados com o animal, ela começa a compreender que existe outro ser vivo que depende dela e possui necessidades próprias. “Tudo isso também auxilia muito no desenvolvimento infantil”, analisa a profissional.
De acordo com Franciele, essa experiência contribui para o desenvolvimento da responsabilidade e também para a compreensão do que significa cuidar. A criança passa a perceber que o animal precisa ser alimentado, protegido e acompanhado quando está doente. Aos poucos, aprende que ter um animal não significa apenas brincar, mas assumir compromissos com outro ser vivo.
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Samanta Wessel
A psicóloga infantil e de família Samanta Wessel também destaca o potencial dessa convivência, mas chama atenção para um aspecto fundamental: a relação da criança com o animal está inserida em uma rede maior de relações familiares. Os adultos que convivem com ela são modelos de comportamento e têm papel importante na forma como esse vínculo será construído.
Segundo Samanta, a criança aprende sobre cuidado e responsabilidade a partir da maneira como os próprios adultos lidam com o animal. “O animalzinho na família se torna mais um elo numa grande rede de conexões em que a criança vai estar inserida”, define.
A disponibilidade dos pais ou responsáveis para acompanhar a interação é, portanto, essencial. Conforme a psicóloga, cabe ao adulto ajudar a criança a compreender as necessidades do animal, participar das tarefas e também perceber os limites dessa convivência.
Esse olhar atento permite ensinar, por exemplo, que o animal não é um brinquedo. Para Samanta, esse processo favorece experiências de autocontrole, empatia e percepção das necessidades alheias. É uma aprendizagem que pode contribuir para a maneira como a criança se relaciona com o mundo.
Embora a participação da criança seja importante, a família precisa estar disponível para assumir a rotina e garantir que o pet receba os cuidados necessários, independentemente da idade ou do interesse da criança.
A orientação dos adultos também ajuda a transformar as tarefas cotidianas em oportunidades de aprendizado. Essa mediação permite que a responsabilidade seja construída gradualmente. A criança passa a perceber que suas ações têm consequências e que cuidar de alguém envolve atenção, constância e respeito.
Samanta ressalta ainda que essas experiências podem participar da construção da própria percepção que a criança tem sobre si. Ao aprender a cuidar, ela também começa a descobrir do que é capaz e qual lugar ocupa nas relações.
A convivência, portanto, pode ensinar muito além das tarefas práticas. Pode ajudar a criança a compreender que suas atitudes interferem na vida de outras pessoas e seres vivos e que relacionamentos exigem atenção às necessidades de todos os envolvidos.
Entre as experiências proporcionadas pela convivência com animais está também uma das mais difíceis: a perda. Como a expectativa de vida dos animais costuma ser menor que a dos seres humanos, muitas crianças acabam vivenciando, ainda durante a infância, a morte de um animal que ocupava um lugar importante na família.
Franciele considera essa experiência parte significativa do desenvolvimento. O luto pela perda do animal permite à criança entrar em contato com a ideia de finitude da vida. “A criança acaba percebendo que a vida tem um fim, e que aquele animalzinho fez parte da história dela, de sua caminhada, e isso é importante também para criança”, comenta.
É uma experiência dolorosa, mas que também pode ser acompanhada pelos adultos de maneira acolhedora, permitindo que a criança expresse a saudade e compreenda seus sentimentos.
Para as duas psicólogas, é justamente essa dimensão afetiva que faz com que a relação com um animal possa permanecer como uma lembrança marcante da infância.
Samanta observa que essas experiências podem contribuir para a construção de memórias que acompanham a criança por toda a vida, “que podem até prevenir, lá na adolescência e na vida adulta, sentimentos de solidão, de baixa autoestima, de dificuldade de relacionamento com o diferente”. Ao lado do animal, ela aprende sobre afeto, cuidado, limites, responsabilidade e sobre a própria capacidade de estabelecer vínculos.
