Após impedir o padre Bernardo Bolle de prosseguir para Poço das Antas, o ajudante de Altenhofen foi dizendo: “Se o senhor fosse um missionário andaria pregando a revolução. O senhor não é missionário: é um espião, mandado de Estrela para nos especular”.
O padre relatou: Entretive com ele por largo trecho uma palestra no meu melhor português, naturalmente sem atentar as “amabilidades” que me dirigia. Afinal, chegamos à guarda principal. Fui novamente inquirido, desta vez por alemães:
“O senhor vem de Estrela?”
“Sim”, respondi.
“Para onde quer ir?”
“A Poço das Antas”, acrescentei.
“Não trouxe acompanhante?”
“A gente tem medo e por isso vim sozinho”, expliquei.
“O senhor quis afastar os nossos homens.”
“Não é verdade!”, retruquei.
“Mas na capela ´Doppelpikade´ disseram que era um herege!”
“A expressão ‘herege’ eu não emprego nunca!”, prossegui.
“Quantos padres estão em Estrela?”
“Dois. O padre F. Steinhart e eu”, respondi.
“O padre Steinhart não usaria tal palavra.”
“Foi o senhor mesmo que a pronunciou”, lembrei.
“Não! Eu não disse tal coisa!
Mais tarde fomos informados de que certa família nos acusara. Especialmente eu fui objeto de mexericos. Depois de redigido longo relatório recebi ordem de ir ter com o comandante e chefe. “Bem, agora o senhor vai montar a cavalo e se apresentar ao coronel Altenhofen, para ser ouvido por ele”.
Altenhofen era quem exercia o comando. Era um teuto brasileiro culturalmente atrasado, mas por força de várias circunstâncias conduzia a chefia dos revolucionários de ascendência germânica.
Assim, teria eu que cavalgar mais umas 5 a 6 horas, porém em direção completamente diversa daquela para onde eu pretendia chegar. Enchi-me de coragem e declarei: “Isso é impossível, não tenho tempo. Depois de amanhã é domingo. E a gente de Poço das Antas me espera.”
“E o que temos nós com isso?”, foi a resposta do ajudante, com um riso escarninho.
Ocorreu-me então o pensamento salvador: “Bem, então me deixem ir. Segunda-feira estarei de volta e aí me apresentarei. Palavra de honra! Palavra de honra!” (Continua na próxima semana…)
Esse relato fará parte do livro de minha autoria, intitulado “A Revolução Federalista no Vale do Taquari: Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul, Arroio do Meio, Encantado, Roca Sales, Teutônia e Taquari”, que está em fase final de produção. A publicação resgata os registros originais das pesquisas do padre Alberto Träsel, patrono da Academia Literária do Vale do Taquari (Alivat), realizadas de 1953 a 1973.