agro em foco

Movimentos do Agro em períodos instáveis

Opinião de Márcio Mügge, administrador

23/10/2026 | 14:10 Atualização: 23/10/2026 | 14:21

O mês de setembro, no cenário do agro do RS, em meio aos impactos do EL Niño, teve resultados bem interessantes no balanço das exportações: cresceram 10% neste ano, atingindo US$ 1,86 bilhão, com destaque para a China como principal destino (US$ 828,1 milhões, +21,8% em relação ao ano anterior).

Segundo o relatório mais recente da Farsul, os produtos que lideraram e impulsionaram as exportações do agronegócio gaúcho foram, principalmente, a soja, que teve papel fundamental no crescimento das vendas, puxado principalmente pela soja em grãos, farelo e óleo de soja. O farelo de soja, em especial, foi um dos principais motores do setor de alimentos. A carne de frango registrou um excelente desempenho, com alta de 16% em valor e 4% em volume exportado.

Também apresentaram destaque a celulose, que segue consolidada como um dos produtos com maior peso na balança e forte crescimento de embarques e o arroz, que também figurou na lista dos principais produtos em crescimento no mês, ajudando a garantir o faturamento recorde do estado.

Por outro lado, alguns setores tradicionais limitaram um avanço ainda maior da pauta exportadora gaúcha em setembro. O fumo e seus produtos sofreram uma retração expressiva, com queda de 40,6% em valor e 36,6% em volume. Também a exportação de bovinos vivos teve um recuo drástico de 60,2% em valor, gerado quase inteiramente pela redução nas compras da Turquia. Ainda a carne bovina registrou queda de 23% em valor, enquanto a suína recuou 20% no faturamento mensal.

As culturas de inverno

O cenário das culturas de inverno de 2026 no RS foi e continua sendo profundamente afetado pelo retorno e consolidação do fenômeno El Niño. Historicamente, o fenômeno é o maior detrator de produtividade dos cereais de inverno no Sul. No Rio Grande do Sul, cerca de 80% dos anos sob influência deste fenômeno apresentam produtividades abaixo da média histórica.

Trigo: queda drástica de área e quebra de safra. O trigo é a cultura mais sensível ao excesso de umidade exigido pelo El Niño. Sabendo disso, o produtor gaúcho adotou uma postura defensiva, reduzindo a área cultivada em mais de 24%, fechando em cerca de 814.220 hectares. Produtores descapitalizados e temerosos quanto ao clima preferiram reduzir a exposição ao risco.

O clima quente e chuvoso elevou drasticamente os custos com fungicidas para combater doenças que danificam a qualidade industrial do grão, rebaixando grande parte do trigo colhido para a categoria de trigo-rração (alimentação animal). Além disso, lavouras prontas enfrentam problemas de acamamento (plantas caídas) por conta de tempestades e granizo, além de solo encharcado que impede a entrada das colheitadeiras.

Efeito Cascata na Safra de Verão: os impactos do inverno avançam sobre as culturas de primavera-verão. A alta umidade do solo provocada pelo El Niño em outubro está gerando atrasos na semeadura da soja e dificuldades logísticas nas áreas de arroz irrigado, exigindo máxima atenção dos produtores gaúchos aos sistemas de drenagem e proteção de solo.

Orientações estratégias focadas em manejo de solo, drenagem e sanidade vegetal para mitigar os prejuízos nas culturas de inverno e proteger o início da safra de verão:

  • Abertura e desobstrução de valetas em áreas de coxilha ou várzea (especialmente no arroz e na soja).

  • Evitar o tráfego em solo encharcado com tratores e colheitadeiras.

  • Manutenção da cobertura de solo com a palhada das culturas de inverno.

  • Monitoramento de pragas e fungos.

  • Janelas de aplicação prática: aproveitar qualquer abertura de tempo seco para aplicar fungicidas sistêmicos e protetores.

  • Atenção à ferrugem asiática na soja.

  • Escalonamento da semeadura, não concentrando todo o plantio da soja ou do milho em poucos dias.

  • Tratamento de sementes, com o uso de fungicidas e inseticidas.

  • Parcelamento da adubação nitrogenada: aplicando mais vezes, em volumes menores quando o tempo firmar.

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