CENÁRIO PÓS-ELEITORAL

Reeleição de Lula expõe contrastes políticos e desafios para o Vale

Resultado das urnas revela diferenças. Economista destaca a necessidade de diálogo, investimentos em infraestrutura e adaptação das empresas

Por: Marcel Lovato

31/10/2026 | 12:30
Lula em ato no último fim de semana de campanha. Foto: Ricardo Stückert/Divulgação
Lula em ato no último fim de semana de campanha. Foto: Ricardo Stückert/Divulgação

Eram pouco mais de 21h de domingo, 25, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). Derrotado no primeiro turno, o presidente obteve 51,79% dos votos, mais de 64 milhões, e foi conduzido ao quarto mandato com uma virada inédita. Além dos estados do Nordeste e parte do Norte, venceu em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, que se tornou o fiel da balança para o resultado.

Já Bolsonaro não reconheceu o resultado das urnas, criticou a extensão do prazo de votação para as 19h, embora sua campanha também tenha solicitado, e pouco mais de 48 horas depois, deixou o Brasil, rumo aos Estados Unidos. A viagem foi motivada, segundo o candidato, por “perseguição política”. Aliados classificam-a como um “exílio”. Antes, o ministro Alexandre de Moraes havia determinado a apreensão do passaporte. Em nota, o PL sinalizou a concordância com os rumos do pleito, mas cobrou esclarecimentos sobre os gastos com benefícios sociais anunciados dias antes das eleições.

Assim como em 4 de outubro, Flávio venceu em toda a área da Associação dos Municípios do Sol Nascente (Amsol). Fez 68,71% na média geral. No Vale do Taquari, também manteve a liderança nas 36 cidades. Portanto, os resultados micro e macrorregionais não acompanharam o cenário nacional. Por outro lado, mesmo com a derrota em âmbito local, Lula obteve 2.412 votos a mais, crescendo de 25,96% para 31,29%. Em Teutônia, o candidato subiu de 26,38% para 32,50%, o equivalente a 1.481 votos.

A participação do eleitorado também mudou entre as duas etapas. Na Amsol, a abstenção passou de 16,65% para 14,84%. Foram 7.967 ausências no primeiro turno e 7.102 no segundo. O comparecimento no domingo chegou a 40.745 eleitores. Esse recuo acompanhou o cenário nacional, no qual o índice de ausência passou de 21,08% para 19,22%. A posse presidencial irá ocorrer no dia 5 de janeiro.

Listas de WhatsApp

Nos dias posteriores ao pleito, listas de estabelecimentos e profissionais liberais supostamente identificados com um partido político começaram a circular em grupos de Whatspp de diversos municípios gaúchos, inclusive Teutônia. Em todas, os conteúdos sugerem boicotes econômicos em função do resultado. Boletins de ocorrências foram registrados estado afora e a Polícia Civil busca identificar os responsáveis.

De acordo com o Superior Tribunal de Justiça (STJ), esse tipo de divulgação pode configurar crime de perseguição, conhecido como Stalking, de acordo com o artigo 147-A do Código Penal. Além disso, contraria o Código de Defesa do Consumidor, que proíbe a publicidade abusiva, inclusive de caráter discriminatório, conforme o parágrafo 2 do artigo 37. A ação também fere a Lei Federal 8.137/1990, que trata de crimes contra as relações de consumo.

Em função da prática, entidades representativas manifestaram preocupação com “movimentos de hostilidade, exposição e desvalorização”. Ao mesmo tempo, defenderam o respeito, a liberdade e a convivência democrática, uma vez que, independentemente da posição política, cada empreendedor contribui diariamente para o desenvolvimento do seu município. Até a publicaçõ deste texto, as notas foram emitidas pelas associações comerciais de Encantado,Bom Retiro do Sul e Taquari.

“Reconstrução não se faz em dois anos”

A continuidade da reconstrução gaúcha, as mudanças econômicas e a competitividade regional estão entre os principais desafios apontados pela economista Cintia Agostini para o governo Lula 4. Segundo ela, os impactos sobre o Vale do Taquari dependerão das políticas adotadas e da capacidade de adaptação dos setores produtivos.

Um dos pontos centrais é a relação entre o presidente Lula e o governador eleito Luciano Zucco (PL). Apesar das diferenças políticas, Cintia considera fundamental o diálogo para garantir investimentos, especialmente na recuperação dos danos causados pelas enchentes. “Nós temos de olhar para uma relação republicana do Estado com a União, e vice-versa, e conto que isso vai acontecer”, afirma.

A economista defende a prorrogação do Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs) e a ampliação dos recursos para infraestrutura. Segundo ela, experiências internacionais demonstram que a reconstrução pode exigir uma década de investimentos. “Reconstrução não se faz em dois anos. Precisa de muito tempo a mais”, ressalta.

No cenário econômico, conflitos internacionais, barreiras comerciais e oscilações do petróleo representam fatores de incerteza. Internamente, a reforma tributária e a proposta de redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, com escala 5×2, exigirão adaptações. Cintia estima aumento médio de 7,5% nos custos trabalhistas, com impactos distintos entre os setores.

Para o Vale do Taquari, a produção de alimentos representa uma oportunidade de expansão. A estrutura agroindustrial e o atendimento às exigências internacionais e ambientais podem favorecer a abertura de mercados. Entretanto, a agropecuária enfrenta o endividamento dos produtores e os prejuízos climáticos, enquanto a indústria necessita avançar em inovação, produtividade e qualificação profissional.

No comércio, a concorrência das plataformas digitais desafia principalmente os pequenos e médios estabelecimentos. Cintia também destaca o envelhecimento populacional e a expansão da economia do cuidado como fatores que exigirão adaptações no mercado de trabalho.

Para a economista, o desenvolvimento regional dependerá da continuidade da reconstrução, de investimentos em infraestrutura e da modernização produtiva, com participação dos governos federal e estadual.

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