3 de julho de 2026
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LEGADOS CULTURAIS

Acampando

Opinião do Pastor Dr. Martin Norberto Dreher, teólogo, professor, escritor e pesquisador

03/07/2026 | 11:21

Menino, cresci numa pequena cidade do Rio Grande do Sul com o nome de Montenegro. Dizíamos ser buraco cercado por morros por todos os lados. Meu mundo era pequeno. Terreno, com quinze metros de frente e trinta de profundidade. Chalé de madeira, pequeno, mas confortável, era a casa dos pais. Nos fundos dele havia galpão, poço, cinamomo, galinheiro, parreiral de uvas e pequeno orquidário. Além da indispensável latrina, esvaziada por cubeiros, profissionais da limpeza e higiene urbana que, uma vez por semana, levavam a cuba com nossos excrementos para fora do perímetro urbano. Somente uma vez tentaram interromper seu habitus, mas o prefeito, de imediato, lhes majorou o salário. 

Mas, não quero refletir sobre questões de higiene. Volto-me para o espaço sob o parreiral. Menino, ali montei acampamento e pude deixar a imaginação me levar para fora de meu pequeno mundo. Acontece que papai guardava entre os pertences de sua adolescência a barraca que o acompanhara nos tempos do Tiro de Guerra e seu quepe. No acampamento montei, muita vez, a barraca e ali acampava durante o dia. A ração era fornecida por minha mãe: pão com chimia, água e banana. Livros eram material indispensável a ser levado para o acampamento. Livros me levaram para conhecer o mundo fora de nosso terreno de quinze por trinta.

Adolescente, já no internato em São Leopoldo, sede da Colônia Alemã de São Leopoldo, em muito final de semana participei de excursões, a pé, com mochila, cantil, alimentos e fui com colegas em direção aos morros que um pouco distavam da cidade. Morro das Cabras, Morro Sapucaia, Morro do Chapéu. Pão, chimia, linguiça, café, arroz eram fornecidos pelas amáveis cozinheiras da escola. Dava para fazer um carreteiro e tomar café de tição na panela de alumínio. A água vinha da fonte. Quando a água fervia, o pó de café era colocado na água e logo um tição em brasa era enfiado na solução. O pó ia para fundo e o café podia ser sorvido.

Essas foram minhas experiências de acampamento. Depois, viajei através de descrição de viajantes. Johann Jacob von Tschudi e Robert Avè-Lallement me fizeram viajar pelo Brasil do século 19. Li a obra completa de Karl May, viajei “pelo Curdistão Bravio” e conheci a vida de “Winnetou” pelas pradarias norte-americanas. Acompanhei o “Gato Preto” de Érico Veríssimo e seu “Israel em Abril”. Li muitos “Livros de Viagem”, mas jamais pude viajar pelos Bálcãs. Nasci em Montenegro, mas jamais estive em Montenegro. Hoje, meninos que vi crescer me possibilitam ver e sentir o que em minha velhice já não poderei mais ver e sentir. Tudo isso através do que viram e sentiram ao viajar e acampar.

Vejo como meninos e meninas crescem e, pouco a pouco, vão se preparando para nos substituir na estrada da vida, sendo, não raro, mais ricos do que nós o fomos. Viajam pelos Bálcãs, comparando-os com outras regiões, refletindo com profundidade na companhia de outros tantos pensadores europeus, latino-americanos e asiáticos.  

Obrigado, meninos e meninas, por se terem tornado quem são, terem crescido e aparecido e nos presenteado com descobertas, permitindo que viaje quem não o pode (mais) fazer. Lendo meninos que cresceram ainda posso crer, em meio ao turbilhão no qual se encontra nosso belo planeta, num futuro melhor para os que nos hão de seguir. Lembro, não por último, que Deus também acampou entre nós, como escreve São João, para que nosso mundo seja mais belo.

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