JUBILEU DE OURO

Da mobilização em Canabarro à representação regional: os 50 anos do Siticalte

Sindicato iniciou trajetória em uma assembleia com 402 empregados do setor calçadista em 16 de outubro de 1976. Celebração neste sábado terá homenagens a fundadores e associados mais antigos

Por: Marcel Lovato

16/10/2026 | 10:56
Localizada na Rua Carlos Arnt, sede começou a ser erguida na década de 1990 e foi modernizada com o passar dos anos. Foto: Marco Mallmann
Localizada na Rua Carlos Arnt, sede começou a ser erguida na década de 1990 e foi modernizada com o passar dos anos. Foto: Marco Mallmann

O relógio marcava 15 horas do sábado, 16 de outubro de 1976. Reunidos no Grêmio Recreativo Canabarrense, 402 empregados do setor calçadista aprovaram a criação da Associação Profissional dos Trabalhadores das Indústrias do Vestuário de Estrela. A assembleia teve a condução do então presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Vestuário do Rio Grande do Sul,(Feticvergs), Edir Inácio da Silva.

Essa entidade surgiu durante a expansão das fábricas no então território estrelense e em outras partes do Vale do Taquari. O movimento se deu em um período de incentivo fiscal introduzido pelo governo militar para agregar valor aos produtos exportados. Embora sediada em Canabarro, abrangia também os trabalhadores de Lajeado, Arroio do Meio, Bom Retiro do Sul e Cruzeiro do Sul.

Com a emancipação de Teutônia, tornou-se o agora cinquentenário Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Calçadistas e Vestuaristas de Teutônia (Siticalte). Na presidência até março de 1988, Ervino José Scheeren explicou que a principal motivação era reverter o imposto sindical descontado de cada trabalhador para seu benefício próprio. Afinal, os valores iam para a Feticvergs e não havia um retorno efetivo aos que contribuíam localmente.

Liderada por Ervino José Scheeren, que permaneceu na presidência por quase 12 anos, primeira diretoria foi empossada no dia 31 de março de 1979. Foto: Arquivo/Siticalte

Apoio e primeiros movimentos

O gestor gerenciava a área de Recursos Humanos da Calçados Augustin Reichert/SA (mais tarde Calçados Reifer). Acompanhava, portanto, o crescimento da atividade e as necessidades de uma categoria que ainda dependia de atendimento fora da comunidade.

Sem um sindicato local, as homologações das rescisões contratuais precisavam ser realizadas na Delegacia do Ministério do Trabalho, em Lajeado. Diretores da empresa fundada em 1973, Elimar Schaeffer e Marco Antônio Fontana, incentivaram o movimento e a aproximação com os trabalhadores mostrou-se de suma importância nos primeiros passos.

Ervino acrescenta que o interesse das empresas também foi motivado pela necessidade de maior segurança jurídica ao final de vínculos contratuais. Constituir uma associação era obrigatório, de acordo com a legislação da época, para após habilitar-se à Carta Sindical. A entrega do documento ocorreu durante um almoço na então Associação dos Funcionários da Calçados Reifer, em Canabarro.

Estabelecida provisoriamente desde 1976, a primeira diretoria foi empossada no dia 31 de março de 1979. Além de Ervino, era composta pelo secretário Harry Schwingel; tesoureiro Jacy Arnaldo Mörschbächer; conselheiros fiscais Ilair Broenstrup, Gárcio João Eckert e Rubens Kremer.

Além das questões trabalhistas, havia demanda por assistência à saúde. O ex-presidente lembra que os empregados não contavam com atendimento médico e odontológico e precisavam ser treinados para as diferentes funções nas fábricas. Por conta disso, o sindicato intermediou negociações por melhores salários e condições de trabalho, os quais eram reivindicados com frequência. Em 22 de novembro de 1978, houve a instauração do primeiro dissídio.

Almoço marcado pela entrega da Carta Sindical, documento que reconheceu a função da entidade, foi realizado no fim da década de 1970 na extinta Associação dos Funcionários da Calçados Reifer. Foto: Arquivo Siticalte

Mais tarde, em 1982, firmou-se o primeiro convênio com laboratório para exames, mantido até hoje. Ainda no período, a assembleia aprovou a compra de um terreno de 372 m2 com uma casa de madeira, na Rua Capitão Schneider, 79, a qual foi a primeira sede. Hoje, o imóvel é ocupado pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras). Em meados dos anos 1980, o Siticalte expandiu a atuação para Bom Retiro do Sul, onde foi aberta uma subsede focada no atendimento aos trabalhistas do município, posteriormente encerrado.

Entre as experiências da sua gestão, Ervino destacou a ampla troca de conhecimentos entre os profissionais de Recursos Humanos, o que influenciava na evolução dos processos internos e na própria relação entre empresa e empregado. Ao falar dos trabalhadores daquela época, descreve uma rotina marcada pelo aprendizado do primeiro ofício fora do campo. Muitos moravam em pensões, começavam com o salário mínimo e tinham pouco acesso à educação. Também era comum permanecer na mesma empresa até a aposentadoria.

Sobre ter feito parte da formação e da diretoria do Siticalte, o ex-presidente definiu como uma “oportunidade de aprendizado e de exercício da liderança”. Ainda, garantiu que repetiria as escolhas e destacou a condução da entidade, caracterizada, na sua visão, pelo “fervor e muita persistência”.

Equilíbrio de forças

À frente do Siticalte desde setembro de 1993, o presidente Roberto Müller define-o como “um equilíbrio entre patrão e empregado, disciplinador da lei”. Além disso, “foi um impulsionador de empresas e postos de trabalho” ao abrir espaço e incentivar a qualificação profissional desde o princípio e ser fiel às diretrizes originais, como a conquista gradativa de direitos e a presença nas articulações para vindas de empresas e após falências.

Müller destaca que, entre os sindicatos, o Siticalte foi um dos pioneiros na oferta do curso de Informática, em meados dos anos 2000. No auge, eram 40 alunos, divididos em duas turmas com aulas teóricas e práticas. Também já houve cursos de língua estrangeira, como Inglês e Espanhol, ofertados por meio de extensão universitária com a Univates.

“Gerações de trabalhadores se formaram, por exemplo, nos cursos de corte e costura de calçados e de tecidos. A Reifer esteve entre as empresas mais participativas. Essa sempre foi uma das essências do Siticalte e ajudou o setor calçadista a se manter firme, mesmo nos momentos de maior crise”, explica o presidente.

No âmbito estrutural, a aquisição do terreno da atual sede ocorreu durante a gestão do presidente Elias Rodrigues Bueno (1988-1991), e do imóvel conhecido como “Casa de Cursos”. Já a construção iniciou no mandato seguinte, exercido por Mário Lair de Souza (1991-1993), quando o primeiro piso foi erguido. O segundo e o terceiro pavimentos se deram nas gestões de Müller, assim como a inauguração do elevador e do salão de festas.

O papel social do Siticalte também se evidenciou entre os anos 1990 e 2020 com dezenas de edições do “Baile da Mais Bela Comerciária”. No auge, quando era realizado no salão da Comunidade Martin Luther, chegou a reunir 3 mil pessoas e vender 13 mil latas de cerveja em uma noite. Foi realizado também no ginásio do Colégio Cenecista General Canabarro e na SER Gaúcho, local da última edição, em 2024.

Preocupação com o futuro

Müller: “O Siticalte é um equilíbrio entre patrão e empregado, disciplinador da lei, impulsionador de empresas e postos de trabalho”. Foto: Gabriela Arendt Schwingel

Na chegada aos 50 anos, o principal desafio é garantir a sobrevivência. Embora a entidade esteja com as contas em dia, Roberto manifesta preocupação com o futuro do movimento sindical. Para ele, questões políticas e econômicas, agravadas pela ampla polarização, fazem com que esta seja a “fase mais perigosa da história”.

Atualmente, o Siticalte possui entre 2 mil e 2,2 mil associados, representa 5 mil trabalhadores e 112 empresas, sendo 80 calçadistas e 32 de vestuário. Com a inclusão de Estrela, Imigrante e Colinas, em 1o de julho de 2026, o sindicato abrange oito municípios. São eles: Teutônia, Paverama, Westfália, Poço das Antas e Santa Clara do Sul.

Homenagem neste sábado

A celebração do cinquentenário vai ocorrer durante a manhã deste sábado, 17, no Auditório da entidade. Após a recepção com café, o evento contará com lançamento de uma revista alusiva ao jubileu de ouro, homenagem aos idealizadores, lançamento de vídeo institucional com imagens históricas e pronunciamento de autoridades.

Também haverá a reapresentação da música do sindicato. Produzida em 2006 em alusão à passagem dos 30 anos, a canção e a letra foram idealizadas pelos irmãos músicos Ademir e Darlei da Costa. Agora, houve uma atualização de um trecho a fim de deixar a obra temporal. Ainda, serão reconhecidos os 93 associados com mais de 38 anos de filiação.

Programação
  • 8h – Recepção com coquetel e café
  • 8h30 – Apresentação cultural
  • 9h – Início do cerimonial com lançamento da revista, homenagem aos idealizadores e associados fundadores, lançamento de vídeo institucional, reapresentação da música do sindicato e pronunciamento das autoridades
  • 11h – Encerramento

Local: Auditório do Siticalte

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