Pequenas, discretas e sem ferrão, as abelhas ocupam cada vez mais espaço em propriedades, conversas do dia a dia e nas vidas dos produtores. Em Teutônia, a meliponicultura avança sem alarde e conecta a criação, a importância da preservação e o conhecimento contínuo para qualificar as técnicas de manejo.
Um dos criadores é o técnico em contabilidade, Evídio Antônio Eidelwein, 68. Ele se dedica à prática desde 1978. Por muitos anos, cuidou das abelhas do gênero Apis, ou seja, com ferrão. Devido à amputação de parte de uma perna, o que lhe limitou movimentos e também por segurança, se tornou meliponicultor. Ele mantém colmeias em sua casa, no Bairro Canabarro, e no sítio da família, em Bom Retiro do Sul.
Cria espécies como a Jataí, presente em todo o Brasil, Mandaçaia, dois tipos da Mirim e Uruçu-Amarela, popularmente conhecida como “Bugia”. Conforme Evídio, o objetivo é terapêutico, pois utiliza o mel e o própolis para consumo próprio, como um “remédio natural”. Também fabrica as caixas das colmeias (compostas pelo ninho, sobreninho e melgueira), posicionadas próximas às árvores e flores nativas.
Ele estima que a produção anual de mel em cada uma seja de 1 kg. No mercado, o mel da Jataí, por exemplo, é muito apreciado pelo sabor e propriedades medicinais. Brasil afora, o valor pode chegar até R$ 1,3 mil, conforme a região.
Em relação aos cuidados, enfatiza que as abelhas não devem ser tratadas como um animal de estimação, especialmente pelos cuidados específicos. Além disso, requerem um olhar mais especial do ser humano. “As pessoas são as maiores inimigas. Temos de entender que as abelhas não fazem mal, fazem mel. E isso é vida”, conclui.

Evídio lida com as abelhas sem ferrão há pelo menos 10 anos. Para ele, a prática representa terapia, medicina natural e respeito ao ecossistema
“Para mim é diversão”
Romualdo Petter, 77 anos, encontrou na meliponicultura muito mais do que um passatempo. A atividade começou há cerca de oito anos, após participar de um encontro sobre abelhas sem ferrão em Arroio do Meio. Logo ficou interessado e, aos poucos, foi montando e adquirindo as estruturas necessárias para desenvolver seu meliponário no pátio da residência, no Centro Administrativo.
Hoje, mantém cerca de 60 caixas – número que já chegou a 90 –, com pelo menos oito espécies diferentes. Entre elas, destaca-se a Bugia, considerada por ele a principal, além de Manduri, Mandaçaia, Jataí, Tubuna e outras espécies nativas.
Depois de uma vida dedicada ao trabalho na construção civil, Romualdo viu na aposentadoria a oportunidade de se dedicar à criação das abelhas. A atividade acabou se tornando uma “verdadeira terapia”. Segundo ele, observar o movimento das colmeias ajuda a aliviar o estresse e proporciona momentos de tranquilidade.
“Quando a gente está estressado, senta na frente de uma caixinha e fica olhando. A cabeça fica bem melhor”, relata. Para ele, a meliponicultura representa uma forma de manter-se ativo e em contato com a natureza.
A produção de mel é destinada praticamente ao consumo da família e de amigos próximos. Romualdo afirma que evita retirar grandes quantidades das colmeias, pois prefere preservar o alimento das próprias abelhas. O retorno financeiro nunca foi o objetivo. “Não é negócio para mim. É diversão”, resume.

Romualdo cria diferentes espécies em sua propriedade, como a Jataí, Mandaçaia, Uruçu-Amarela e a Manduri
Fortalecimento
O responsável técnico da Associação dos Apicultores de Teutônia, Adilson Cord, salienta que uma mudança recente no estatuto abriu caminho para os meliponicultores. Um dos próximos passos consistirá no envase e venda do mel das sem ferrão no entreposto do Bairro Teutônia.
Paralelamente, a entidade trabalha na elaboração de um apiário educativo, para visitas de escolas mediante agendamento. Hoje, a sede conta com três espécies: Jataí, Mandaçaia e Canudo, doadas por criadores. A intenção é obter mais duas e iniciar os trabalhos experimentais a partir do começo da primavera, quando inicia o período de maior atividade das abelhas. Em períodos mais frios, elas se resguardam e fazem poucos voos.
“Com fins didáticos e demonstrativos, objetivamos que as crianças desenvolvam as noções de conservação ambiental e entendam o valor das abelhas. Afinal, onde há abelha, a natureza está saudável”, explica Cord. Para 2027, a ideia é aliar as visitas ao turismo, em parceria com o poder público.
Sobre o mel, a principal diferença é que o produto das abelhas sem ferrão possui uma taxa de umidade superior, logo fica mais líquido. Também precisa ser armazenado na geladeira e a tonalidade é diferenciada, conforme a espécie.
Importância regional e estadual
Segundo o chefe do escritório local da Emater/RS Ascar, Carlos Fries, um dos fatores que corroboram com a percepção de crescimento é a quantidade de colmeias na área urbana, hoje até superior à zona rural.
O trabalho da entidade consiste na orientação, suporte e acompanhamento dos produtores. Um exemplo é a altura das caixas das colmeias, que deve ser mais baixa do que a fonte do alimento. Assim, ao retornar, a abelha economiza a energia necessária para outros voos. A maioria encara como um hobby e forma de ajudar a natureza.
Em termos econômicos, o principal foco neste momento é a comercialização dos enxames, sendo que o da Jataí, por exemplo, o custo médio é de R$ 250. A produção de mel e a fabricação das caixas aparecem em segundo plano. Ao polinizar as frutas, o próprio inseto contribui para melhores resultados, uma vez que frutas como o morango ficam maiores e mais saborosas.
Fries lembra que Teutônia já sediou duas das 11 edições do Seminário Regional de Meliponicultura, promovido pela Associação dos Meliponicultores do Vale do Taquari (Amevat). A última, em 2025, reuniu cerca de 500 participantes. Este fator, acrescenta, é um sinal da relevância local no setor.
A própria criação da Amevat, em 2014, é considerada a grande virada de chave para a meliponicultura no Vale, pois a conservação das abelhas é o ponto-chave da entidade. Embora não haja um número consolidado, estima-se que mais de 5 mil pessoas se dedicam à criação.
Conforme o Diagnóstico da Meliponicultura no Rio Grande do Sul, elaborado pela Seapi-RS e Emater, são 16,2 mil famílias envolvidas. As colônias de abelhas sem ferrão ultrapassam 80 mil, com predomínio da região Noroeste. Um marco recente ocorreu em junho, quando a cidade de Caraá, no Litoral Norte, sediou o primeiro envase de mel 100% realizado no Rio Grande do Sul, com autorização federal do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Regulamentação
A meliponicultura foi regulamentada pelo Decreto Estadual no 57.372/2023, que trata da criação, comércio e transporte das abelhas e prevê o cadastro dos meliponários no Sistema Online de Licenciamento Ambiental (SOL). No entanto, quem mantém até 49 colônias e não possui fim comercial está dispensado da autorização ambiental.
São quatro categorias: produção zootécnica, conservacionista, educativa ou pesquisa. A legislação estabelece, ainda, que o meliponicultor busque capacitação técnica contínua para manejar a espécie escolhida, conforme o objetivo. As Secretarias do do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA-RS) e da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI-RS) são responsáveis por monitorar a atividade.
