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Patrimônio musical

No vinil e na memória: o grupo que gravou a trilha sonora regional

Primeira a lançar um disco na região, Super Banda Maringá construiu uma trajetória marcada por inovação, reconhecimento e valorização da cultura germânica

Por: Marcel Lovato

28/02/2026 | 07:00 Atualização: 28/02/2026 | 10:20
Norberto exibe dois dos álbuns mais conhecidos da Super Banda Maringá: o Sesquicentenário da Imigração Alemã em Estrela, e o volume intitulado "Baile de Antigamente", seu preferido. Foto: Marco Mallmann
Norberto exibe dois dos álbuns mais conhecidos da Super Banda Maringá: o Sesquicentenário da Imigração Alemã em Estrela, e o volume intitulado "Baile de Antigamente", seu preferido. Foto: Marco Mallmann

Um símbolo de nostalgia, pertencimento e continuidade cultural que transcendeu a música, embalou multidões dentro e fora do Vale do Taquari. Fundada em 7 de julho de 1957 na Linha Schmidt, então Estrela, e hoje Westfália, a Super Banda Maringá escreveu um importante capítulo na formação da identidade regional. Ficou ativa por mais de três décadas e segue viva no coração de quem testemunhou sua trajetória.

Prestes a completar 94 anos, Norberto Grave dirigiu a Banda por mais de 30 anos, além de ter sido gaiteiro e por vezes tecladista. A origem do conjunto está diretamente ligada à gaita, sendo que ele possui o mesmo instrumento, da Todeschini, há 72 anos. Ele aprendeu a tocar com o pai e, desde cedo, já se apresentava em festas de casamento. “A cada sábado tinha e eu ia a cavalo pela Schmidt, Languiru, Boa Vista. Começamos com apenas uma caixa de som”, relembra. O aparelho, inclusive, está guardado até hoje em um pequeno acervo em sua residência.

Primeiros movimentos

A inauguração da estrada entre a Linha Schmidt até a Linha Berlim foi o primeiro grande evento. Essa participação partiu de um convite dos então prefeito e vice de Estrela, Aloísio Schwertner e Alfredo Driemeier. Para auxiliá-lo na missão, Norberto, com a gaita, convocou os tios Arnildo e Albino Rex, responsáveis pelo bandoneon e banjo; o sobrinho, Flávio Rex, foi o baterista; e o amigo Helmuth Ahlert operou o violino.

Estava composta a primeira formação do grupo. Tão relevante quanto a entrega da estrada, que contribuiu para a melhoria logística entre as comunidades, foi a apresentação. Devido ao sucesso, os músicos foram contratados para a realização de bailes periódicos no Salão de Helmuth Schröer, da mesma localidade. No repertório, além das clássícas músicas germânicas, havia espaço para Maxixe, Dobrado, Salsa, Marchinhas, Samba, Valsa e Bolero. Portanto, eram ecléticos.

Do cavalo, ocorreu a evolução para o trator. Para transportar os músicos, o veículo recebeu uma estrutura adaptada. Antes da nomenclatura reconhecida, a banda foi chamada de “Saudades do Sertão” ou até “Bandinha do Sertão”, como menciona Norberto. Segundo ele, tratava-se de uma referência aos grupos do Nordeste e do Norte que eram as principais atrações ouvidas no rádio a bateria. Mais tarde, os músicos Werno, Erni e Ari Staggemeier passaram a fazer parte.

Transformação, pioneirismo e popularidade

A origem do nome “Maringá” é ainda mais curioso. Conforme Norberto, um parente dos Staggemeier possuía uma banda homônima no Paraná, possivelmente na cidade localizada no norte do referido estado, mas teve de se mudar para São Leopoldo. Por conta disso, a formação foi desfeita e o então responsável, que fez amizade com o restante do grupo, sugeriu que a denominação tivesse continuidade. Proposta aceita.

Entre as décadas de 1960 e 1970, a banda foi a atração musical da Festa dos Motoristas. O histórico evento ocorria na Linha Schmidt e contava com uma ampla carreata, com saída do distrito de Teutônia e passagem por Languiru, Boa Vista, Linha Capivara, Pontes Filho, Linha Clara e Linha Frank até chegar ao destino. Destaque para as vestimentas dos artistas e dos participantes, uma vez que todos vestiam apenas roupas brancas.

Com destaque para as roupas brancas usadas tanto pelos músicos quanto público, grupo animou diversas edições da Festa dos Motoristas. Foto: Arquivo Pessoal

A Maringá marcou presença frequente nos bailes de Carnaval do Salão de Kurt Böhmer, além de apresentações pelo Rio Grande do Sul – destaque de municípios da Fronteira Oeste e Noroeste –, Santa Catarina e quatro idas ao Paraguai. Em 1970, o primeiro show fora da região.

Em Pareci, no Vale do Caí. O cachê combinado foi de 2,5 mil cruzeiros. Sem contrato redigido, apenas a confiança na palavra. Mais uma vez, salão lotado. Por conta do êxito comercial do evento, a banda recebeu mais 2,5 mil de gratificação.

Norberto lembra que o próprio dirigente do clube sugeriu que o grupo aumentasse o passe nas apresentações seguintes devido à crescente fama. Dito e feito. Uma década depois, em 1981, o Clube Comercial de Rosário do Sul pagou 280 mil cruzeiros por quatro noites de Carnaval, bem mais que a média dos shows pelo Paraguai, por exemplo, que foram de 100 mil.

“Mais tarde, nós acrescentamos o “Super” ao Banda Maringá porque aumentamos os músicos, o aparato técnico ficou mais qualificado e o público considerava que éramos os melhores. Concorríamos com Os Futuristas e os Montanari”, lembra o ex-diretor. A formação máxima chegou a 10 integrantes. Entre eles, Airton Grave, filho de Norberto, que o acompanhou desde pequeno. Com o passar do tempo, a quantidade variou e houve muitas chegadas e partidas. Dezenas de músicos integraram o grupo nas três fases.

Depois do cavalo e do trator, a Super Banda Maringá se deslocou por muitos anos em kombis. Amplas distâncias eram percorridas para dar conta da agenda de shows aos fins de semana. Um exemplo é o caminho entre Santa Rosa e Tramandaí, que é de 600 km no caminho mais curto. Apenas nos últimos anos é que houve a aquisição de um ônibus.

Entre 1973 e 1974, um momento histórico: o lançamento do primeiro dos seus cinco discos. Mais do que o ingresso no universo dos LP’s, a gravação foi especial. Era a primeira vez que um grupo do Vale do Taquari realizava tal feito. O volume 1 se chamou “Sesquicentenário da Imigração Alemã em Estrela”.

Norberto destaca que isso foi possível graças ao empresário Odilon de Oliveira, de Montenegro, que esteve em Estrela e pediu indicações de uma banda para intermediar a gravação de um disco. Como a Super Banda Maringá estava em evidência, o caminho foi aberto para a produção realizada pela Gravadora Califórnia, de Porto Alegre. Hoje, o material pode ser encontrado no YouTube.

Legado

“Não tocamos em nenhum baile fraco”, orgulha-se Norberto. Ele exalta que os artistas estavam sempre bem vestidos, embora com simplicidade, distribuíam simpatia e tinham talento de sobra. Todos possuíam a carteirinha da Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) e, alguns, inclusive, pagaram suas faculdades com o dinheiro dos cachês. A combinação desses fatores fez a diferença.

Em relação aos trajes, que ilustram principalmente as capas dos álbuns, o diretor os idealizava para o alfaiate transformá-los em realidade. O conjunto se apresentou em mais de 500 bailes durante a trajetória. Os músicos tomavam conhecimento do destino apenas na hora do embarque.

Anos mais tarde, uma enfermeira atendeu Norberto no Hospital Ouro Branco e o reconheceu por conta das apresentações do passado. De Santiago, a profissional lembrou da gaita, lhe deu um abraço e exaltou a trajetória.

Afastamento e nova fase

Entre o fim da década de 1980 e começo dos anos 1990, Norberto se afastou da banda, principalmente, em função do cansaço. Ao mesmo tempo, remanescentes levaram adiante a ideia de mudar o nome para Zabadak.

Porém, o legado seguiu por meio de Airton e outros músicos que criaram o “Musical Maringá” algum tempo depois, uma vez que os direitos do nome seguiram com a família. Mesmo com o estilo próprio, o grupo mantém a essência original e marca presença, especialmente, em bailes da terceira idade, festas das comunidades e eventos particulares. “Se minhas pernas deixassem, eu ainda iria para o palco. É importante que as pessoas saibam que a Maringá não está morta. Está com Airton Grave e isso me emociona”, conclui Norberto.

Discos

  • Sesquicentenário da Imigração Alemã de Estrela – Volume 1
  • Super Banda Maringá – Volume 2
  • Para Ouvir e Dançar – Volume 3
  • Bailes de Antigamente – Volume 4
  • Welten Bummler – Volume 5

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