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SEQUELAS DAS CHEIAS

Pontes e contenções marcam avanço na recuperação regional

Dois anos depois, obras públicas e privadas buscam restabelecer acessos, proteger áreas vulneráveis e reduzir impactos de futuros eventos climáticos severos

Por: Marcel Lovato

30/05/2026 | 09:00 Atualização: 30/05/2026 | 10:34
Se o clima permitir,
nova travessia em
Pontes Filho deve estar
concluída até julho.
Diferentemente da atual,
Na Comunidade Mãe de Deus, os trabalhos ocorrem com baixo efetivo de funcionários. Mesmo assim, prazo está mantido para o fim do ano tráfego terá mão dupla. Foto: Marcel Lovato
Se o clima permitir, nova travessia em Pontes Filho deve estar concluída até julho. Diferentemente da atual, Na Comunidade Mãe de Deus, os trabalhos ocorrem com baixo efetivo de funcionários. Mesmo assim, prazo está mantido para o fim do ano tráfego terá mão dupla. Foto: Marcel Lovato

Dois anos após os eventos climáticos extremos que impactaram o Vale, os efeitos das enchentes ainda seguem presentes, mas com mitigação gradual. Um dos pontos centrais está na mobilidade, com foco no restabelecimento de conexões entre as comunidades, campo e indústria. Entregue no último sábado, 23, a Ponte do Cafundó, em Poço das Antas, é um dos símbolos deste processo.

A obra integra a segunda fase do programa Reconstrói-RS, parceria que une a Câmara da Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT), a Federasul e os Institutos Ling e Floresta. Executada pela entidade regional, a estrutura recebeu investimento aproximado de R$ 1,1 milhão. Possui 30,55 metros de comprimento e 4,10 metros de largura, com capacidade para suportar veículos de até 24 toneladas. Sua construção se deu após o colapso parcial da antiga ponte devido à enchente.

De acordo com o presidente da CIC-VT, Ângelo Fontana, um dos pontos cruciais do Reconstrói-RS é a execução das obras em localidades onde, por vezes, os governos estadual e/ou federal demoram a chegar. “O valor desta estrutura não está no seu tamanho, mas no que ela representa para a cadeia da proteína animal, a fortaleza econômica da localidade. Aqui, se produz aves, leite, suínos e essa ligação é fundamental no transporte à indústria”, salienta Fontana.

O vice-presidente da entidade, Adelar Steffler, acrescentou que essa e as demais entregas significam um trabalho em prol do “crescimento e desenvolvimento do Vale do Taquari”. Segundo o vice-presidente regional da Federasul, Ivandro Rosa, o setor agropecuário nem sempre é percebido e valorizado o suficiente. Logo, é estrategicamente importante dar atenção às comunidades e fazer todo o esforço necessário para viabilizar e aplicar os recursos. Sobre o Reconstrói-RS, destacou a transparência e a fiscalização constante das ações.

Mãe de Deus

Enquanto a ponte do Cafundó já foi entregue, outra travessia sobre o Arroio Boa Vista — em substituição a uma destruída pelas águas em 2024 — está em obras. Localizada na comunidade Mãe de Deus, entre a Ponte Pênsil e a Sociedade União Boa Vista (SUBV), a estrutura conta com recursos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), no valor de R$ 1,590 milhão.

Este montante foi destinado exclusivamente para a ponte. Serviços de terraplenagem das cabeceiras e do leito do arroio ficaram a cargo da Prefeitura. Os trabalhos começaram apenas no fim de janeiro, com atraso de oito meses. Uma placa instalada no canteiro de obras indica que a previsão inicial era maio de 2025 e prazo de entrega em até um ano. Questões burocráticas teriam contribuído para esse desajuste.

A expectativa da Administração é de que a obra esteja pronta no fim de 2026, embora atualmente conte com poucos funcionários. Quando a reportagem esteve no local, na tarde de quarta-feira, 27, eram apenas quatro. Vencedora da licitação, a Construtora Edil LTDA conduz a nova ponte. Quando estiver pronta, terá 51,95 metros de extensão e 6,96 metros de largura.

Na Comunidade Mãe de Deus, os trabalhos ocorrem com baixo efetivo de funcionários. Mesmo assim, prazo está mantido para o fim do ano. Foto: Marcel Lovato

Muro de gabião e ponte

Um dos principais danos causados pelos eventos climáticos extremos em Teutônia foi o deslizamento de parte da encosta do local conhecido como Morro de Areia, na Linha Ribeiro. Na época, parte da estrada teve de ser interditada e casas foram afetadas. A via é uma das principais ligações entre o Bairro Canabarro e Estrela.

Muro de Gabião foi construído junto ao Morro de Areia, em Linha Ribeiro. Local desmoronou em meio à catástrofe de maio de 2024. Foto: Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Teutônia

Com investimento de R$ 824 mil, oriundo da Defesa Civil Nacional, a construção do muro de gabião começou em 27 de outubro do ano passado e está em fase final. A estrutura tem 28 metros de comprimento e 6,5 metros de altura. É composta por gaiolas de aço galvanizado — que não sofre com ferrugem — preenchidas com pedras. Além disso, resiste ao empuxo da terra, deformações do solo e é drenante. Os trabalhos incluem a reconstrução da estrada.

Já em Pontes Filho, o foco é a nova ponte sobre o Arroio Boa Vista, entre a ERS-419 e a estrada de Linha Clara, erguida ao lado da antiga. A obra deve ser concluída, se o tempo colaborar, até meados de julho, conforme estimativa do Executivo. Um atraso na concretagem forçou a readequação do cronograma, anunciada mês passado.

Viabilizada também com recursos da Defesa Civil Nacional, no valor de R$ 1.699.821,43, a obra é executada pela empresa DG Participações e Construções. Prevê uma travessia com 30 metros de extensão e 8,5 metros de largura, em mão dupla, e espaço para pedestres. A capacidade será de 45 toneladas. Construída em concreto armado e protendido, foi projetada para não ter pilares no leito do arroio, a fim de proporcionar maior resistência em períodos de cheia.

“Para os moradores das localidades de Pontes Filho, Linha Clara e municípios vizinhos de Poço das Antas e Westfália, esta obra passa a ser um marco histórico. Aliada à ponte, ainda haverá nas proximidades uma rotatória, que trará dinamismo ao trânsito e mais segurança em um contexto de fluxo intenso de veículos”, destacou o secretário de Obras, Viação e Transportes, Ariberto Magedanz.

Outras obras

Também no sábado, a CIC-VT inaugurou uma obra de contenção no município de Colinas. Com investimento de R$ 1,1 milhão, a intervenção visa estabilizar uma área afetada por deslizamentos e erosão.

Já em Imigrante, a entidade conduziu quatro frentes de trabalho entre o fim do ano passado e o início deste, em parceria com a Prefeitura e Metalúrgica Hassmann, no valor de R$ 4,4 milhões. Foram elas: muros de gabião no Centro, na Rua Guilherme Ernesto Lagemann e na Avenida Dr. Ito João Snell, em dois trechos, além de galerias na Rua Getúlio Vargas. O total chegou a R$ 4,4 milhões.

Entrega da Ponte do Cafundó sobre o Arroio Boa Vista foi celebrada pela comunidade no último sábado, 23. Obra devolve a mobilidade aos moradores (Foto: Alexandre Miorim)

E o El Niño?

Segundo a responsável pelo Núcleo de Informações Hidrometeorológicas (NIH) da Univates, Luana Lermen Becchi, os prognósticos indicam que o fenômeno comece a se estabelecer a partir desta semana, mas com maior incidência durante a primavera, quando impacta diretamente no clima do Sul do Brasil. A chance é de 82% durante o inverno e até 96% nos últimos meses de 2026.

Apesar das anomalias positivas já observadas no Pacífico Equatorial, ainda é necessário acompanhar a ligação entre oceano e atmosfera, especialmente os ventos alísios — massas de ar quente e úmida — e a circulação tropical, para confirmar a intensidade do evento.

“Afirmar que haverá chuva igual ou superior, ou enchentes semelhantes às registradas durante o El Niño 2023/24 no Vale do Taquari, neste momento, é especulação. Embora exista relação histórica entre os episódios do fenômeno, cada um possui força, duração e impacto distintos”, destaca Luana.

Para o NIH, em caso de chuva acima da média, devem ser monitoradas áreas de encosta, zonas ribeirinhas, várzeas e sistemas de drenagem urbana. Fatores como ocupação irregular, solo impermeabilizado, saturação hídrica e acúmulo de resíduos também podem ampliar os riscos.

A prevenção, portanto, exige monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas, atualização de boletins técnicos, acompanhamento hidrológico, emissão de alertas e comunicação clara com a população. Essas medidas são essenciais para reduzir os possíveis efeitos em uma região naturalmente vulnerável a eventos de chuva intensa.

Reconstrói-RS

Criada logo após a catástrofe de 2024, o Reconstrói-RS une o Instituto Ling, a Federasul e o Instituto Floresta, com foco em obras de recuperação nas regiões atingidas. O Vale do Taquari concentra o maior volume de recursos, uma vez que a CIC-VT articulou R$ 30,5 milhões dos R$ 83,5 milhões mobilizados pela iniciativa privada.

Ao todo, 25 municípios tiveram projetos aprovados. Além de contenção de encostas e reconstrução de pontes, o pacote inclui drenagem urbana e recuperação de acessos, em especial no interior. Obras visam ampliar a resiliência regional diante de futuros extremos climáticos.

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