
Quando a bola rola, o sotaque muda, as lembranças voltam e a torcida atravessa fronteiras. Em Teutônia, imigrantes de diferentes nacionalidades acompanham a Copa do Mundo com o coração dividido entre a vida em construção no Brasil e o vínculo com o país de origem. Em casa, no trabalho ou pelo celular, cada partida reacende o pertencimento, a saudade e o orgulho.
Tais elementos possuem um significado especial para a trajetória de Emmanuel Boniface. Há quase 12 anos no Brasil, o haitiano acompanha, pela primeira vez, a sua seleção em uma Copa. Ele tem 47 anos e não assistiu à, até então, única participação do Haiti no torneio, ocorrida em 1974, na Alemanha Ocidental. A presença no mesmo grupo do Brasil é um fator que torna a experiência marcante e memorável, independentemente do resultado.
Vida no Brasil
Assim como outros tantos compatriotas, Emmanuel chegou ao país como refugiado, em busca de uma vida melhor, durante a Copa do Mundo de 2014. Estava no Acre quando assistiu pela televisão a goleada de 7 a 1 aplicada pela Alemanha sobre a Seleção Brasileira. Tempos depois, por meio de uma mobilização da Cooperativa Languiru, foi trazido a Poço das Antas onde trabalhou no Frigorífico de Suínos até a paralisação das atividades, em junho de 2023, devido à crise.
Além da atuação profissional, criou vínculos com a região e encontrou caminhos para mudar a trajetória da família. “Uma coisa é muito importante dizer: sou feliz aqui. O Brasil me deu oportunidades. Aqui temos médico, meus filhos sentam ao lado dos brasileiros na escola, somos respeitados, há chance para todos”, afirma Boniface.
Por conta desse envolvimento, destaca que seu coração está dividido entre a terra natal e o país que lhe acolheu. Quando as duas seleções medirem forças pela segunda rodada do Mundial, nesta sexta-feira, 19, às 21h30, a torcida será pelo empate. Sobre a campanha, acredita ser muito difícil avançar para fase eliminatória. O desafio ficou ainda maior após a derrota por 1 a 0 na estreia contra a Escócia, em jogo marcado por lances polêmicos.
Símbolo de esperança
Para Emmanuel, a presença do Haiti na Copa possui um peso que vai muito além do futebol. A mobilização é comparada ao Carnaval brasileiro, com milhares nas ruas, mesmo diante de um amplo domínio da violência na capital Porto Príncipe.
Jogadores como os atacantes Wilson Isidor e Frantzdy Pierrot, o lateral-esquerdo Martin Expérience e o meia Ruben Providence estão entre as principais esperanças do torcedor haitiano. Os 26 convocados são considerados heróis nacionais e exemplos, no contexto do país caribenho, de “que nada é impossível e o futuro pode ser melhor”.
Além da torcida, Emmanuel vê na Copa uma forma de aproximação entre culturas. Em Teutônia, mantém contato com outros haitianos, inclusive por meio de um time formado por imigrantes, o HT Valiencia, que participa de campeonatos sindicais. O nome é uma referência a um dos principais clubes do país.
Nesse contexto, o futebol ajuda a preservar vínculos com a terra natal e, ao mesmo tempo, reforça a integração com a comunidade brasileira. Emmanuel acompanha a Copa como alguém que aprendeu a dividir a própria identidade, sem abrir mão de nenhuma parte dela.

Na cadeira de trabalho, Bambaji amarrou a bandeira de Senegal. O gesto visa exaltar o amor pela seleção e reforça a expectativa por um bom desempenho no torneio.
Geração senegalesa
Senegal está em sua 4ª participação na Copa e um de seus torcedores mais ilustres em terras teutonienses é o empresário Khadim Gueye (30), natural da cidade de Louga. Mais conhecido como “Bambaji”, em referência a um líder religioso da nação africana, ele demonstra a paixão pelo seu país de duas formas bem distintas e igualmente simbólicas.
Uma bandeira foi amarrada em sua cadeira de trabalho. Além disso, as cores vermelho, amarelo e verde integram a identidade visual da Africell, loja de produtos eletrônicos e assistência técnica que mantém no Bairro Canabarro e hoje é uma referência. “Quando a seleção joga, eu vou para casa. O trabalho pode esperar. Eu também torço 100% para o Brasil. Me apaixonei pelo futebol ao assistir Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Roberto Carlos, Dida”, comenta.
A referência é especial para o senegalês. Assim como o pentacampeonato canarinho, o ano de 2002 foi marcado pela estreia da equipe africana no Mundial. No primeiro jogo, o atacante Papa Bouba Diop (falecido em 2020) calou a torcida francesa ao marcar o histórico gol da vitória por 1 a 0. Senegal fez uma campanha memorável, até as quartas de final, quando perdeu para a Turquia. Se avançasse, teria enfrentado o Brasil.
Segundo Bambaji, todas as gerações posteriores fizeram a diferença e contribuíram para escrever o nome dos “Leões de Taranga”, como a seleção é conhecida, na prateleira mundial. Além de Diop, Diouf, hoje aposentado, Sadio Mané, Kalidou Koulibaly, Ismaïla Sarr e Édouard Mendy são citados como os principais expoentes históricos da equipe. O título da Copa Africana de Nações, conquistado em janeiro sobre o Marrocos, reforça a expectativa por um bom desempenho. Esse sentimento segue inabalável, ainda que a França tenha levado a revanche a sério e vencido por 3 a 1 na última terça-feira, 16.
Copa no celular
A distância não diminui o sentimento de Cintia Pamela Insaurralde pela Seleção Argentina. Aos 38 anos, ela vive em Teutônia há cerca de um ano e meio, para onde veio com a família à procura de trabalho. Atua em uma granja. Já seu esposo, Lucas Gonzales, é pedreiro.
De origem humilde, eles não possuem TV e nem camisas da alviceleste e de algum clube. Desta forma, eles se reúnem para assistir aos jogos nos celulares. Segundo Cintia, diversificação das opções de transmissão contribuiu para democratizar o acesso ao torneio. É uma válvula de escape em meio à uma rotina desafiadora. Trata-se de uma experiência inédita. “A paixão que sentimos pela seleção é incrível e incontrolável”, define Cintia.
Essa identificação passa, sobretudo, pela lembrança dos grandes ídolos do futebol argentino. Para Cintia, ainda que Lionel Messi tenha marcado três gols contra a Argélia e, neste momento, seja o maior artilheiro da história das Copas, o posto de principal jogador “Hermano” segue ocupado por Diego Armando Maradona.
Em relação ao Mundial, o entendimento é de que a Argentina está entre as favoritas e tem totais condições de chegar à decisão no dia 19 de julho e alcançar o tetracampeonato. Acompanhar as partidas é uma forma de reforçar os vínculos com o país de origem enquanto busca escrever novas histórias em Teutônia.
ENTENDA A SITUAÇÃO DO HAITI
Disputar novamente a Copa é considerado um ato de resistência no Haiti. Nação mais pobre das Américas, o país possui mais de 90% da sua capital dominada por facções criminosas e com frequência é atingido por desastres naturais, como furacões. Há ampla crise política e humanitária. Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), ao menos 600 mil haitianos imigraram ao longo dos anos.
Desde 7 de julho de 2021, o Haiti não possui presidente. Nessa data, o então chefe do Executivo, Jovenel Möise, foi assassinado com 12 tiros em sua própria casa. Sem novas eleições, o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé assumiu o poder. Para Emmanuel, um homem que atende a determinadas classes. “Ele governa aos ricos. O povo não observou mudanças até hoje. Meu sonho é trazer o resto da minha família, mas hoje os protocolos estão mais rígidos”, lamenta.
Naturalmente, o cenário se reflete no âmbito esportivo. A própria seleção não consegue jogar em casa por causa da insegurança. Desta forma, todos os compromissos pelas Eliminatórias da Concacaf foram disputados nos Estados Unidos, Curaçao e República Dominicana.
Às vésperas da Copa, outro desafio. A Fifa exigiu e a Federação Haitiana de Futebol teve de mudar o uniforme. Nele, havia uma ilustração da Batalha de Vertières, travada em 1803, e considerada decisiva para a independência do país após conflito com a França. A entidade alegou a existência de “mensagens políticas”.

Agravada pela violência, crise política e humanitária assola Porto Príncipe, a capital haitiana. Foto: Divulgação