A campanha Julho Amarelo reforça, neste mês, a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento das hepatites virais, infecções que atingem o fígado e podem provocar complicações graves quando não identificadas e tratadas a tempo. As hepatites A, B e C são as formas mais frequentes da doença e apresentam diferentes formas de transmissão, prevenção e tratamento.
Na maioria dos casos, a doença evolui de forma silenciosa ou provoca apenas sintomas inespecíficos, como fadiga, náuseas, dor abdominal, febre e amarelamento da pele e dos olhos. Por isso, especialistas destacam a importância da ampliação da testagem, da vigilância em saúde e da conscientização da população para reduzir a transmissão, evitar casos crônicos e prevenir complicações como cirrose e câncer de fígado. Medidas como manter a vacinação em dia, utilizar preservativos nas relações sexuais e adotar cuidados de higiene também são fundamentais para a prevenção.
No Rio Grande do Sul, as hepatites virais seguem como um importante desafio para a saúde pública. Somados os registros de hepatites A, B e C, o Estado contabilizou quase 5 mil casos no último ano. O cenário é ainda mais preocupante em relação à hepatite C, cuja taxa de detecção no Estado é a mais alta do país: foram 28,1 casos por 100 mil habitantes em 2024, frente à média nacional de 9,1.
A infectologista do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Isadora Hallal, ressalta que a hepatite C responde por mais de 60% das notificações registradas no Estado e pode ser transmitida por via sexual, pelo contato com sangue contaminado e da mãe para o bebê, assim como a hepatite B.
Segundo a especialista, a doença costuma evoluir sem sintomas, tornando a testagem essencial para evitar complicações futuras.
“Na maioria das vezes, a pessoa não sente nada. O vírus provoca uma inflamação que pode se tornar crônica e, anos depois, evoluir para cirrose e até câncer de fígado. Por isso, é tão importante diagnosticar precocemente e iniciar o tratamento antes que esses danos apareçam”, afirma.
Isadora destaca ainda que os avanços no tratamento elevaram significativamente as chances de cura. “Hoje contamos com medicamentos orais que curam a hepatite C. O tratamento, que antes era mais difícil, passou a ser feito com comprimidos por um período de três a seis meses, na maioria dos casos.”
Apesar da eficácia dos medicamentos, ela alerta que a prevenção continua sendo indispensável. “A cura não gera imunidade. Mesmo após o tratamento, a pessoa pode voltar a se infectar se não adotar os cuidados necessários.”
Hepatite A
Transmissão: ocorre principalmente pelo consumo de água e alimentos contaminados e pela falta de higiene adequada. Também pode ser transmitida pelo contato próximo entre pessoas e por práticas sexuais com exposição fecal-oral.
Sintomas: febre, cansaço, mal-estar, náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia, urina escura e pele e olhos amarelados. Em geral, é mais leve em crianças e pode apresentar maior gravidade em adultos.
Tratamento: não há tratamento específico. A recomendação é evitar a automedicação e manter acompanhamento médico.
Vacinação: integra o calendário infantil, com uma dose aos 15 meses. Também é oferecida pelo SUS para grupos específicos, como pessoas com doenças hepáticas crônicas, hepatites B ou C, HIV/Aids, coagulopatias e usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP).
Prevenção: lavar as mãos com frequência, consumir água tratada, higienizar frutas e verduras, cozinhar bem os alimentos e utilizar preservativos nas relações sexuais.
Casos de hepatite A no RS
- 2025: 257
- 2024: 198
- 2023: 338
- 2022: 130
Hepatite B
Transmissão: ocorre principalmente por relações sexuais sem preservativo e pelo contato com sangue contaminado, incluindo o compartilhamento de seringas, agulhas e objetos perfurocortantes. Também pode ser transmitida da mãe para o bebê durante a gestação ou no parto.
Sintomas: muitas pessoas não apresentam sinais da doença. Quando surgem, podem incluir cansaço, febre, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes claras e amarelamento da pele e dos olhos.
Tratamento: pode ocorrer nas formas aguda ou crônica. Embora não tenha cura, o tratamento oferecido pelo SUS reduz o risco de complicações, como cirrose e câncer de fígado.
Vacinação: é a principal forma de prevenção. O esquema prevê quatro doses na infância (ao nascer e aos 2, 4 e 6 meses) e três doses para adultos não vacinados.
Prevenção: utilizar preservativos, não compartilhar seringas, agulhas ou objetos de uso pessoal, realizar tatuagens e piercings apenas em locais que sigam normas de biossegurança e manter o acompanhamento pré-natal.
Casos de hepatite B no RS
- 2025: 1.284
- 2024: 1.059
- 2023: 1.173
- 2022: 1.065
Hepatite C
Transmissão: ocorre por relações sexuais sem preservativo e pelo contato com sangue contaminado, incluindo o compartilhamento de agulhas, seringas, cachimbos, canudos, lâminas de barbear, materiais de manicure e pedicure ou equipamentos sem esterilização adequada.
Sintomas: cerca de 80% das pessoas não apresentam sintomas. Quando presentes, podem incluir febre, fadiga, náuseas, vômitos, dor abdominal, urina escura, fezes claras e pele e olhos amarelados.
Tratamento: é realizado com antivirais de ação direta disponibilizados pelo SUS, que alcançam taxas de cura superiores a 95%, geralmente em 12 a 24 semanas.
Vacina: não existe vacina contra a hepatite C.
Prevenção: não compartilhar objetos que possam ter contato com sangue, utilizar preservativos, realizar tatuagens e piercings apenas em locais com normas de biossegurança, realizar os exames recomendados durante o pré-natal e procurar os serviços de saúde para testagem e diagnóstico precoce.
Casos de hepatite C no RS
- 2025: 3.384
- 2024: 3.222
- 2023: 3.158
- 2022: 2.748
Hepatites D e E
As hepatites D e E são menos frequentes. A hepatite D ocorre principalmente na Região Norte e só pode infectar pessoas que já tenham hepatite B, podendo surgir simultaneamente ou em indivíduos com a forma crônica da doença. Já a hepatite E é mais comum em países da África e da Ásia e, na maioria dos casos, provoca uma infecção aguda, de curta duração e evolução benigna, embora, raramente, possa evoluir para formas graves e potencialmente fatais.
O Ministério da Saúde disponibiliza um painel de monitoramento das hepatites virais com dados por tipo de vírus em estados e municípios. A série histórica tem início em 2012.