18 de julho de 2026
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ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

Longevidade construída com movimento e convivência

Estudo divulgado nesta semana revela aumento da expectativa de vida no estado. Idosos da região compartilham pilares necessários para o bem-estar e autonomia na terceira idade

Por: Marcel Lovato

18/07/2026 | 07:00
O jogo de cartas é uma das principais atividades recreativas de Nilo e Vera. Hábito estimula a concentração, raciocínio e reforça a parceria que já dura mais de 60 anos. Fotos: Gabriela Arendt Schwingel
O jogo de cartas é uma das principais atividades recreativas de Nilo e Vera. Hábito estimula a concentração, raciocínio e reforça a parceria que já dura mais de 60 anos. Fotos: Gabriela Arendt Schwingel

O Rio Grande do Sul consolidou um ponto de virada em sua composição populacional. É o que constata o levantamento divulgado pelo Departamento de Economia e Estatística (DEE-RS) nesta semana, o qual informa que pessoas com 60 anos ou mais já representam 20,6% dos habitantes. O índice é superior ao de crianças e adolescentes de até 15 anos (17%). Em paralelo, a expectativa de vida alcançou 76,49 anos no triênio 2022-2024, sendo que entre as mulheres já chega a 79,63 anos.

Diante deste panorama, a seguinte questão se apresenta: qual é o segredo da longevidade? Para o casal Nilo (81) e Vera Klein (83), existem diversos fatores a serem considerados. Casados desde 1965 e com dois filhos, eles residem na Linha Germano, interior de Teutônia, em um local cercado pela natureza, aves e, por vezes, animais silvestres como lebres. São responsáveis por grande parte da flora da propriedade de 3 hectares, plantada ao longo das décadas. A tranquilidade e o ar puro do campo funcionam como uma terapia.

Em ação

Nilo destaca que a alimentação equilibrada e o esporte fazem toda a diferença. Ele joga câmbio duas vezes por semana, com duração de duas horas, na Associação da Água e também já foi técnico da modalidade semelhante ao voleibol. “Jogo bola desde os 13 anos. Quando era jovem, fui atleta do extinto Guarani da Linha Capivara”, lembra. Coleciona medalhas também no tiro ao alvo, com participações regionais nos anos 2000. A coleção é um dos seus grandes orgulhos.

Em casa, auxilia a esposa nos cuidados dos três cachorros e demais serviços, como a manutenção da área externa. Também pratica caminhadas em um simulador. Ainda, alimenta pássaros diariamente. Ao longo dos anos, ergueu a área ao redor da piscina e demais pisos. No campo profissional, trabalhou por mais de 30 anos como caminhoneiro e em uma fábrica de queijos.

Já Vera foi agricultora durante muitos anos. Um dos seus principais entretenimentos é reunir-se com as amigas para jogar pife e canastra, uma maneira de manter a mente ativa. A rotina do casal inclui acordar bem cedo, fazer o “sagrado” chimarrão, seguido de um café reforçado com pão caseiro, geralmente adquirido na comunidade. O jantar ocorre no começo da noite e nele não há espaço para comidas pesadas.

O casal também possui ampla participação nos grupos da terceira idade. Eles são sócios-fundadores do “Vida Alegre”, da Linha Germano, criado em novembro de 1999 e que realiza confraternizações mensais e dois bailes por ano. Comida, bebida, música e prosa ditam o ritmo dos encontros, sendo que o de julho ocorreu nessa quinta-feira, 16. Nilo e Vera já foram rei e rainha da melhor idade de Teutônia em 2001. Ela também celebra com gratidão e saudosismo a coroa de Miss Simpatia do Vale do Taquari, conquistada em Cruzeiro do Sul, há 17 anos.

Para Nilo, a sociedade gaúcha está mais preparada para lidar com o envelhecimento, o que se reflete em Teutônia, embora sempre haja espaço para maior conscientização. Ele e a esposa garantem que suas necessidades estão atendidas, seja em mobilidade pública ou acesso aos serviços básicos.

Independência e atividade

Moradora da Linha Wink, Reni Schwingel (86) possui uma rotina repleta de afazeres. Diariamente, logo ao acordar, realiza a leitura da obra “Castelo Forte”, produzida pela Editora Sinodal e ligada à Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). A idosa mantém o hábito há décadas, assim como a oração. Segundo ela, é uma maneira de trabalhar o cérebro e, por si só, a saúde mental.

Também opta por refeições nutritivas, come frutas nos  intervalos, não bebe e tampouco fuma. Ainda, realiza crochê, costuma escutar rádio e cuida das cadelas Preta e Pretinha. Para alimentar a dupla, prepara uma panela diária de arroz, apropriado para cães, com pedacinhos de carne.

Quando se fala em movimento, dona Reni exalta as aulas de hidroginástica que realiza duas vezes por semana, nas quais sempre vai de táxi, sem depender de terceiros. A prática iniciou há cerca de dez anos por indicação médica, após problemas no joelho e uma cirurgia no fêmur. Com o tempo, a atividade reforçou a musculatura e proporcionou mais disposição.

O ir e vir se estende para as caminhadas que realiza pela chácara, a busca por lenha para abastecer o fogão, e as saídas para os chás da Ordem Auxiliadora das Senhoras Evangélicas (Oase) e encontros do Grupo de Idosos Simpatia, realizados na comunidade. “Cuidar-me fez toda a diferença para chegar a essa idade e, acima de tudo, muito bem!”, conclui Reni.

Independente e cheia de vitalidade, dona Reni mantém uma rotina diversificada, mas não abre mão da leitura todos os dias pela manhã

Atenção aos dados

Na visão do Dr. Enrico Neiss, geriatra e clínico geral, o viver mais reflete avanços no diagnóstico, no tratamento e na reabilitação de doenças, mas não significa, necessariamente, que a população envelheça com mais saúde. Segundo o médico, equipamentos modernos, técnicas de diagnóstico mais precisas e a eficácia maior dos medicamentos têm contribuído. A redução das infecções e das mortes provocadas pela Covid-19 também ajudou na recuperação do indicador, que havia sido afetado entre 2020 e 2022.

Segundo o especialista, os idosos estão mais ativos, permanecem por mais tempo no mercado de trabalho e ampliaram a participação em atividades sociais e comunitárias que vão além dos grupos de lazer e recreação. Ao mesmo tempo, cresceu a incidência de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, cardiopatias, problemas osteomusculares e demências. Esse panorama exige o acompanhamento contínuo e maior uso de medicamentos.

Quedas, fraturas, osteoporose, artrose, Alzheimer, Parkinson e doenças mal controladas estão entre os principais fatores de perda da independência. Para reduzir esses riscos, doutor Enrico recomenda alimentação equilibrada, atividade física regular, especialmente exercícios de força, sono adequado, acompanhamento médico, vacinação, estímulo cognitivo e manutenção dos vínculos sociais.

O envelhecimento saudável é resultado de hábitos desenvolvidos ao longo de toda a vida, e não apenas depois dos 60 anos”, defende o geriatra. Além disso, indica a ampliação da prevenção na atenção básica, a capacitação de profissionais, o apoio às famílias e cuidadores e a adaptação das cidades, com calçadas acessíveis, transporte adequado, moradias seguras e centros de convivência.

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