Estrada e resistência

“O caminhoneiro move o Brasil, mas precisa de mais atenção”

Após 36 anos no transporte, empresário relembra os riscos, aponta a crise do setor e encontra na equipe e no legado familiar motivos para seguir

Por: Marcel Lovato

26/07/2026 | 12:00
Elói ao lado de um dos caminhões de sua granja. O transporte de diferentes riquezas faz parte do DNA da família | Crédito: Gabriela Arendt
Elói ao lado de um dos caminhões de sua granja. O transporte de diferentes riquezas faz parte do DNA da família | Crédito: Gabriela Arendt

A vida na estrada começou cedo para Elói Wiebusch, 54 anos. Antes de assumir o volante, acompanhou o pai, Werno Wiebusch, de quem herdou o gosto pelo transporte. Dos 18 aos 21 anos, trabalhou como ajudante na empresa do pai. Depois, adquiriu o primeiro caminhão, um Mercedes-Benz 1113, conhecido como “Muriçoca” e um ícone nas rodovias do país. Hoje, soma 36 anos de atuação no setor.

Com a morte do pai, em 2004, Elói assumiu a empresa com outro sócio. Dois anos depois, empreendeu com a criação da Transportes Linha Clara, na localidade homônima, em Teutônia. Começou sozinho. O carro-chefe é o transporte de leite a granel, além de cargas secas.

A rotina nas estradas, porém, cobrou seu preço. Elói dirigiu até 2017, quando ocorreu a morte de um funcionário em um tombamento. O episódio se somou a um cochilo ao volante, no trevo de Estrela, que o fez errar o caminho, mas poderia ter terminado de forma mais grave. Os sinais do corpo reforçaram a decisão de desacelerar e concentrar  a energia na gestão.

Cenário preocupante

Para ele, o sono continua sendo o maior inimigo dos caminhoneiros. A pressão por prazos, jornadas de até 14 horas e os longos períodos longe de casa ajudam a explicar a dureza da atividade. Além disso, considera crítica, em especial,  a situação de autônomos e pequenas e médias transportadoras, pressionados pela extrema  burocracia imposta por órgãos reguladores, alta constante do diesel, fretes desvalorizados e custos de manutenção. Segundo Eloi, a mão de obra mecânica, por exemplo, triplicou de preço nos últimos cinco anos, enquanto o faturamento não acompanhou essa escalada. 

Outro problema é a falta de renovação. Na avaliação do empresário, muitos jovens evitam a responsabilidade e o desgaste da profissão, o que amplia a escassez de motoristas. Hoje, a geração dos 40+ sustenta boa parte do serviço. “O caminhoneiro move o Brasil, mas precisa de atenção”, afirma.

Desejo de parar 

Eloi relata que deseja encerrar a transportadora no futuro, para se dedicar à granja que mantém com os dois filhos. Este passo ainda não foi dado, especialmente porque encontra motivação e competência na sua equipe. É algo a ser trabalhado com cuidado, acrescenta. 

Devoto de São Cristóvão, atribui ao padroeiro a proteção recebida em décadas de asfalto e estradas de chão. Ao rever a trajetória, a principal conquista vai além dos quilômetros percorridos, mas na história construída a partir do exemplo do pai, no sustento de famílias e na continuidade de um serviço que, apesar de cada vez mais difícil, segue indispensável ao país.

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