O que esperar?

Dúvidas sobre efeitos do El Niño geram insegurança no agro gaúcho

Meteorologista e consultor analisam os impactos do fenômeno sobre o planejamento agrícola e antecipam discussão de evento que será promovido pelo Informativo Regional e parceiros

Por: Marcel Lovato

01/08/2026 | 07:30
Influência do fenômeno deve ganhar força a partir das próximas semanas, com ápice na primavera. Na lavoura, o desafio será o trabalho durante os possíveis períodos curtos de tempo firme. Foto: Marcel Lovato
Influência do fenômeno deve ganhar força a partir das próximas semanas, com ápice na primavera. Na lavoura, o desafio será o trabalho durante os possíveis períodos curtos de tempo firme. Foto: Marcel Lovato

A sucessão de alertas meteorológicos acerca do El Niño divulgados nas últimas semanas traz uma série de dúvidas ao setor agropecuário. Enquanto previsões climáticas orientam o planejamento da próxima safra, a dificuldade de determinar com precisão a intensidade, a duração e os efeitos das condições meteorológicas, neste momento, ampliam a insegurança no campo.

Essas incertezas e diferentes leituras integrarão a espinha dorsal do debate “El Niño e as perspectivas no Agro”, evento do qual o Informativo Regional é um dos promotores e que será realizado na próxima quarta-feira, 5, a partir das 19h, no Auditório do Colégio Teutônia. O propósito é aproximar especialistas, lideranças e produtores das questões que deverão influenciar a nova temporada agrícola.

Agosto decisivo

Um deles é o pesquisador, meteorologista e coordenador do Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos do Rio Grande do Sul (Simagro-RS), Flavio Varone. Segundo ele, agosto é um mês-chave, porque a influência do fenômeno deverá aumentar gradativamente. Com mais chuva e temperatura acima da média, o desenvolvimento sofrerá impactos e a qualidade do grão vai acabar prejudicada. Com o solo encharcado, o cenário tende a permanecer durante a introdução das culturas de verão ao longo da primavera, com reflexos nos plantios e colheitas.

Varone acrescenta que o futuro agropecuário do Rio Grande do Sul, especialmente nos próximos três ou quatro meses, passará pela escassez de períodos mais amplos de sol e poucas nuvens. Logo, muitos produtores, em especial quem possui lavouras extensas, não terão tempo hábil para realizar a semeadura. Nesse cenário, o Vale do Taquari poderá enfrentar novos transtornos devido aos rios e ao relevo.

“É importante destacar que a condição climática é diferente da condição de tempo. Hoje, nós conseguimos prever um El Niño, no mínimo, de intensidade moderada a forte nos próximos seis meses. Já os efeitos são determinados pela previsão, que é de curto prazo, ou seja, até uma semana”, explica Varone. Logo, a decisão no campo, inevitavelmente, vai passar por uma questão de dias. O produtor deve combinar os planos a longo prazo com a programação de ações imediatas.

Segundo o meteorologista, a cada atualização, o panorama será mais concreto, embora se espere o ápice dos fenômenos a partir de setembro. Neste período, a energia da atmosfera deverá ser ainda mais forte do que já naturalmente ocorre nos períodos de La Niña. Em relação a 2024, por exemplo, entende que a rede de estações está mais robusta e preparada no Rio Grande do Sul. há condições de determinar com exatidão as consequências. Nesse sentido, entende que é necessária a criação de uma cultura social que leve a sério a importância dos alertas.

“Sensacionalismo climático”

Presidente da Brasoja, empresa de consultoria voltada ao agronegócio, Antônio Sartori entende que a atual conjuntura é insuficiente para nortear os movimentos do produtor. Para o dirigente, existe uma imprevisibilidade, uma vez que certos prognósticos recentes não se confirmaram, seja em relação a eventos climáticos extremos ou à subestimação de inundações.

Tais fatores, acredita, ampliam as dúvidas na hora de buscar os dados. Também critica o que definiu como “irresponsabilidade” de algumas publicações. “Há a propagação de tom alarmista, sensacionalista, em relação ao clima. O agricultor já tem um leque de problemas e precisa de fontes confiáveis para não errar na sua estratégia. Incertezas existem, sim, o cenário é complexo, mas o que precisamos é de boas informações. Torcemos para o melhor, estejamos preparados para o pior”, avalia.

A preocupação se dá, conforme Sartori, em um contexto de redução dos investimentos por conta das dívidas crescentes e pela convicção de que, cada vez mais, o produtor terá de buscar as próprias alternativas para as suas pendências. Culturas como o trigo, o arroz e a soja, por exemplo, operam com margens apertadas.

O especialista afirma que, na prática, “ninguém sabe o que está por vir”. Ainda, critica referências quanto à intensidade do El Niño comparada a da década de 1870, pois “não existia monitoramento nesta época e os registros oficiais teriam começado somente nos anos 1950”. Na sua concepção, esse tipo de análise contribui para ampliar o temor da população acerca do assunto e em nada contribui para o debate.

O excesso de umidade pode dificultar a semeadura e comprometer o desenvolvimento das culturas ao longo da próxima safra. Foto: Marco Mallmann

Sartori também levanta a discussão sobre a quantidade de boias existentes no Oceano Pacífico ao apontar a sua extensão da Indonésia até a América do Sul.

“Hoje são apenas 48 para uma área de 19,3 mil quilômetros e que é utilizada para definir a ocorrência do fenômeno. A medição é fraca. Por isso, insisto na importância da confiabilidade das informações”, reitera.

Com base em dados que recebeu durante visita realizada a Lima, no Peru, há pouco mais de dois meses, o presidente da Brasoja sublinhou que não acredita em efeitos catastróficos decorrentes do El Niño no Rio Grande do Sul, como alertam institutos como a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), nos Estados Unidos. Essa posição já havia manifestado a seus pares durante evento na Federasul dias após o seu retorno.

Ainda, destacou que o Estado não está preparado para lidar com esse tipo de situação. As amostras, exemplifica, estão nos recentes erros da Defesa Civil sobre a magnitude de inundações e na ausência de obras capazes de mitigar futuros problemas. “Não defendo lado A ou B. O meu partido é o agro”, encerra.

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