ILUSTRE CIDADÃO

“O coral vai muito além da música: ele é um laboratório de convivência e cura”

O quadro Ilustre Cidadão entrevista Martin Alexandre Altevogt

14/08/2026 | 11:08
Martin Alexandre Altevogt
Martin Alexandre Altevogt

O maestro Martin Alexandre Altevogt tem 49 anos. Natural de Mondaí (SC), é bacharel em Regência Coral pela UFRGS, formado em 2002, e especialista em Regência Coral pela Universidade Federal da Bahia, em 2021. Casado com Débora e pai de Heitor Alexandre, o regente desenvolve trabalhos na área de gravação coral desde 2011, com 11 CDs lançados. Em 2014, foi professor do Pronatec-Regência Coral – realização do governo federal –, num curso de 200 horas realizado em Teutônia, envolvendo mais de 30 musicistas do Vale do Taquari. Participou de diversos cursos/oficinas e workshops, como: Painel de Regência Coral Fecors e Funarte (RJ), Oficina de Inverno Unisinos (RS), Festival de Música de Curitiba (PR), Fórum Rioacappella de Música Vocal (RJ), Convenção Nacional de Regentes de Coros – ABRACO, além de vários cursos de extensão da UFRGS.


Como surgiu em ti o interesse pela música e, em especial, pelo canto coral?

Martin Alexandre Altevogt O que seria da música sem público, sem plateia? O que seria da arte se ela não tocasse o coração e as memórias das pessoas? Seria algo belo, mas vazio. Nasci num ambiente onde a música era interação. Tomei gosto pela arte, fiz dela minha paixão e profissão e sempre trabalhei para democratizá-la. Sou filho de pastor da Igreja Luterana (IECLB), desde a infância vi a minha mãe reger corais dentro das comunidades onde o meu pai atuava. Assim, o contato com a música foi algo natural: aprendi instrumentos em casa e, aos 9 anos, já tocava o harmônio nos cultos, junto com a família. Por conta da profissão do meu pai, foram várias mudanças de endereço durante a infância e adolescência. Em cada cidade, busquei o aprendizado e o contato com a música. Quando completei 18 anos, com a família morando no RS, decidi mudar para São Leopoldo, onde fui estudar Teologia e, paralelamente, fazer um curso técnico de Música Sacra. Foi neste período que aprendi a tocar piano, passei a reger corais profissionalmente e a viver a música de uma forma muito mais intensa.

Em quais corais atuaste como regente e em quais estás atuando hoje?

Altevogt Já trabalhei em várias regiões do RS, regendo coros em Porto Alegre, Guaíba, Canoas, São Leopoldo, Estância Velha, Picada Café, Feliz e Imigrante. Atualmente sou maestro dos seguintes grupos: Coral Municipal de Teutônia; Coral Municipal de Arroio do Meio, Coral Municipal de Salvador do Sul; Grupo Vocal Univates de Lajeado, Coro da Comunidade Cristo (IECLB) de Lajeado; Grupo Vocal Tramavoz, de Carlos Barbosa; Coro Feminino ELO de Vozes de Bom Princípio e Coro Masculino de Bom Princípio.

O ato de cantar proporciona quais sensações?

Altevogt Entrar no universo do canto coral é testemunhar uma das transformações humanas mais profundas que existem. Ao longo de mais de 25 anos erguendo os braços diante dos mais diversos grupos, vi timbres isolados se transformarem em uma única alma vibrante. Como maestro, especialista em voz e estudioso do comportamento humano, posso lhe dizer que o coral vai muito além da música: ele é um laboratório de convivência e cura. São ensinamentos para a vida, como: a escuta ativa, respeito à diversidade e às fraquezas, disciplina e paciência, além do valor da sua própria identidade musical.

Qual a emoção do maestro quando o coral é bem sucedido numa apresentação?

Altevogt – Para simplificar, quando um coro faz uma apresentação muito boa, a sensação técnica é a de ver uma máquina humana funcionando em harmonia. Ouvir um acorde afinado, com todo mundo cantando junto, dá uma sensação física de bem-estar. O cérebro do maestro (e dos cantores) recebe uma descarga de hormônios do prazer. É a recompensa biológica por ter alcançado um objetivo difícil após meses de trabalho. O sucesso no palco prova para o grupo que eles podem confiar uns nos outros e no maestro. As pessoas saem do palco mais unidas e seguras. É a certeza de que o trabalho em equipe funciona e que, juntos, eles são capazes de fazer coisas que ninguém conseguiria fazer sozinho.

O que significa a música coral na tua vida?

Altevogt – Ver pessoas de realidades, idades e pensamentos completamente diferentes se unirem para construir uma única beleza me faz acreditar no potencial coletivo. O coral me ensina, diariamente, que nós somos melhores quando aprendemos a ouvir quem está ao nosso lado. A música é o meio, mas o meu objetivo final sempre foi o desenvolvimento das pessoas. Minha realização está em ver um coralista tímido ganhar confiança, uma equipe desunida aprender a cooperar e um grupo descobrir que a sua voz tem valor. Onde as palavras falham ou dividem as pessoas, a música coral aproxima. Ela é o meu canal para gerar harmonia, equilíbrio e bem-estar em um mundo que, muitas vezes, é barulhento e individualista.

Qual a importância da família na vida de um regente?

Altevogt – Agradeço profundamente à minha esposa, Débora, e ao meu filho, Heitor, por compreenderem a fundo o peso e a beleza da minha profissão. Obrigado por aceitarem com tanto carinho e generosidade as minhas ausências nos finais de semana, transformando a saudade em um combustível essencial através do apoio incondicional e dos votos diários de sucesso; vocês são o meu porto seguro e a verdadeira harmonia que sustenta a minha vida fora dos palcos.

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