LEGADOS CULTURAIS

A banha e o cheiro do dinheiro

Opinião de Guido Lang, escritor, historiador e professor

31/07/2026 | 09:07

A “Colônia Particular de Teutônia”, nos idos da sua povoação (1868-1898), começou a salientar-se com sua ampla produção agrícola. A fertilidade dos solos, com a fartura da produção de cereais e tubérculos, mostrou-se um incremento para as criações (em decorrência da abundante alimentação).

O porco macau, trazido da Ásia e miscigenado na América, com o hábito de apreciar qualquer alimento, transformou-se na principal variedade das criações. Os amplos potreiros, cercados como currais (edificados com rachadas pedras grês), abrigavam porcas e geravam leitões, em consorciação com criatórios de aves, bovinos e equinos. A importância econômica da ampla criação suína estava relacionada à produção da banha, com larga aceitação no mercado das florescentes cidades.

A tamanha aceitação do artigo, provindo das colônias teutonienses, fez com que um distrito até recebesse a alcunha de “Ouro Branco”. O distrito do município de Estrela, então chamado de “Pinheiro Machado” (atual Bairro Languiru), chegou a ser denominado “Ouro Branco” (entre 1939 e 1944).

A tradição oral, em função da riqueza proporcionada, registra fatos pitorescos sobre o período. Alguns exemplos são: o bom pretendente, proveniente de família abonada e requisitado pelas donzelas, deveria “ostentar a impregnada fragrância do esterco de porco” (sinônimo de “auferir dinheiro”, pois a banha detinha um bom preço); inúmeras moças, como “chamarisco aos seus futuros maridos”, nas primeiras visitas às suas casas paternas, serviam aos enamorados o cardápio dos “apetitosos assados de porco” (com carnes mergulhadas na salmoura e assadas nos tradicionais fornos de lenha).

O velho procedimento, de “apanhar os peixes pela boca”, imitava a assemelhada atitude da pesca para formar os potenciais parceiros dos posteriores casórios. A estratégia assemelhada, nos dias atuais, conforme o jargão popular, consiste em algumas moças procurarem jogadores de futebol ou pretendentes com bons carros, sendo chamadas de “marias chuteiras” ou “marias gasolina”.

O intensivo cultivo da soja, nos idos de 1970, em função da “explosão internacional da demanda por óleo e proteína vegetal”, levou à derrocada do “celeiro da produção de banha”. O episódio, na agricultura minifundiária de subsistência familiar, fez as famílias diminuírem as criações, acentuou as “crises econômicas nas colônias” e contribuiu para a massiva evasão de jovens das localidades.

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