CAFÉ COM O HOB

Demanda por saúde mental cresce e pressiona rede do Vale

Estrutura regional avançou nas últimas décadas, mas profissionais relatam sobrecarga e defendem estratégias de prevenção antes do agravamento dos casos

Por: Marcel Lovato

29/09/2026 | 11:30
Painelistas compartilharam experiências e preocupação com o volume alarmante de casos. Foto: Marcel Lovato
Painelistas compartilharam experiências e preocupação com o volume alarmante de casos. Foto: Marcel Lovato

O crescimento da procura por cuidados em saúde mental tem ampliado a pressão sobre serviços, profissionais e famílias no Vale do Taquari. No Hospital Ouro Branco (HOB), 96 pacientes foram internados até setembro deste ano, com permanência média de 16 dias. Mais da metade, 55%, chegou diretamente pela Emergência, enquanto apenas 6% foi encaminhada pela Atenção Primária.

Números foram apresentados durante o Café com o HOB, realizado nesta terça-feira, 29, na CIC Teutônia, alusivo ao Setembro Amarelo. Com o tema “Saúde Mental: um novo olhar sobre o cuidado e os desafios do nosso tempo”, o encontro reuniu profissionais e gestores para discutir os obstáculos encontrados na assistência.

Conforme a assistente social e coordenadora de Saúde Mental do HOB, Núbia Weber, entre as internações registradas, a dependência de álcool e outras drogas representa 38% dos diagnósticos e a depressão, 32%. A maior concentração está entre pacientes de 30 a 59 anos, que correspondem a 65%. O Bairro Canabarro responde por 32% dos pacientes. Ainda, a profissional detalhou atividades incorporadas ao período de hospitalização, como exercícios físicos, horta, oficinas e jogos.

Mediador do painel, o diretor técnico do HOB, Dr. Guilherme Vogt, definiu a saúde mental como uma das grandes questões do século XXI. Para o psiquiatra Nael Hamid, parte da resposta precisa ocorrer antes que o quadro exija intervenção hospitalar. “Temos de trabalhar a prevenção”, afirmou. Ele chamou atenção principalmente para crianças e adolescentes, citando isolamento, bullying, automutilação e alterações emocionais entre os sinais que exigem atenção das famílias. Também defendeu maior presença dos pais na definição de limites e no acompanhamento das dificuldades enfrentadas pelos filhos.

A preocupação com pacientes mais jovens também foi destacada pela coordenadora regional de Saúde Mental, Ariane Arenhart. Segundo ela, eles têm chegado aos serviços com quadros clínicos mais agravados. Políticas voltadas à infância, como o Primeira Infância Melhor, foram mencionadas como ferramentas que podem contribuir para um atuação mais precoce e efetiva.

Estrutura melhor e desafios maiores

Ariane lembrou que a organização regional em relação ao tema é relativamente recente. Há cerca de 30 anos, o Vale não dispunha de atendimentos e pacientes precisavam recorrer a referências de outras regiões, entre elas o Hospital Ana Rech, em Caxias do Sul.

Hoje, nove hospitais oferecem assistência na área no Vale do Taquari, com aproximadamente 80 leitos. “Temos uma rede mais estruturada. Não perfeita, mas existe”, avaliou. Para a coordenadora, nem todo cuidado começa por uma internação. Acolher, ouvir, orientar e encaminhar a pessoa ao serviço adequado também são etapas importantes. É necessário fazer com que a população conheça os pontos disponíveis e consiga acessá-los no momento necessário, sem julgamento.

O subsecretário de Saúde de Teutônia, Natanael Anastácio, confirmou uma procura significativamente maior pelos serviços. Além de atender quem já chega à rede, o município enfrenta a dificuldade de identificar pessoas que precisam de auxílio, mas ainda não buscaram a rede de saúde.

A situação também produz desgaste entre os próprios trabalhadores. Anastácio relatou a carga emocional enfrentada pelas equipes em casos complexos e ressaltou que a hospitalização reduz riscos em determinados momentos, mas não encerra o tratamento. “Apenas medicação não vai resolver”, afirmou. Para ele, psiquiatras, psicólogos, serviços de saúde e familiares precisam atuar de maneira articulada, especialmente quando o paciente é criança e o problema repercute em todo o núcleo familiar.

A psicóloga Lidia Maria Herbes acrescentou ao debate os efeitos das enchentes enfrentadas pelo Vale do Taquari. Ansiedade, depressão e estresse pós-traumático estão entre os problemas observados na região. Sobre a infância, a profissional destaca a percepção de que algumas famílias têm dificuldades em reconhecer os sinais ou saber como agir, o que pode retardar a procura por auxílio. Já no ambiente profissional, defendeu que gestores observem a organização do trabalho e as condições enfrentadas pelos colaboradores, inclusive diante das exigências relacionadas à NR-1.

A atenção deve alcançar também quem trabalha diariamente com situações de sofrimento e emergência. Ao abordar médicos, socorristas e outros profissionais da linha de frente, a psicóloga resumiu a necessidade como “cuidar de quem cuida”.

Apesar do avanço da estrutura regional, os participantes apontaram o financiamento como um dos entraves para acompanhar a complexidade dos casos. Conforme dado apresentado no encontro, apenas 2% dos recursos destinados à saúde no mundo são direcionados à saúde mental.

Na avaliação dos painelistas, o cenário exige aproveitar melhor a estrutura existente e fortalecer os diferentes níveis de assistência.

Melhorias no HOB

No HOB, novos investimentos também estão previstos. O presidente da Associação Beneficente Ouro Branco, Marco Aurélio Weber, anunciou a ampliação da farmácia interna e a aquisição de equipamentos ainda neste ano. Segundo ele, o desenvolvimento do hospital passa ainda pela aproximação com empresas, entidades e comunidade. Ainda, afirmou que cerca de 85% dos atendimentos são destinados a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Há uma busca constante por melhorias na estrutura.

O diretor administrativo, Gilson Silveira, enfatizou a recorrência da temática e que a casa de saúde dispõe de 10 leitos, hoje insuficiente. Por isso, a importância de trabalhar ao máximo aos antecedentes para que não haja a internação e o sistema não fique ainda mais sobrecarregado. “É sobre estarmos mais presentes e prestarmos um atendimento de excelência”, conclui.

Saúde mental no HOB
Indicador Dado
Internações até setembro 96
Permanência média 16 dias
Entrada pela Emergência 55%
Encaminhamento pela Atenção Primária 6%
Dependência de álcool e outras drogas 38%
Depressão 32%
Pacientes entre 30 e 59 anos 65%
Homens 68%
Mulheres 32%
Pacientes do Bairro Canabarro 32%
Leitos de saúde mental no HOB 10

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