Vozes da Serra e do Vale do Taquari vão se encontrar neste sábado, 26, em Teutônia, para cantar o Rio Grande do Sul. Coros de Bento Gonçalves, Nova Prata, Travesseiro e do município anfitrião vão participar da primeira edição do Canta Rio Grande – Festival de Coros. Com entrada franca, o evento será realizado a partir das 18h, no CTG Rincão das Coxilhas, no Bairro Languiru.
Idealizado pela Secretaria de Juventude, Cultura, Esporte e Lazer em conjunto com o maestro Martin Alexandre Altevogt, o festival visa aproximar grupos com diferentes formações e experiências. Estão confirmados: Corais Municipal e Infantojuvenil de Teutônia; Coral Maturidade Ativa, de Bento Gonçalves; Coro Armorial, de Nova Prata; e Vocal Novo Brilho, sediado em Travesseiro. Inicialmente previsto, o Coral de Vale do Sol cancelou a participação na metade desta semana.
Antes do concerto, haverá um momento de integração entre os grupos. Após, está previsto um jantar de confraternização típico gaúcho com carreteiro e saladas, no valor de R$ 35, mediante reserva. O convite pode ser adquirido com integrantes.
União cultural
A proposta nasce do encontro entre duas expressões presentes na formação cultural de Teutônia: o canto coletivo, difundido desde as primeiras comunidades de colonização alemã, e a tradição gaúcha. No palco, essa aproximação ganhará forma em repertórios relacionados à identidade e à trajetória do povo rio-grandense.
De acordo com o maestro, o evento foi pensado na esteira das celebrações dos 400 anos das Missões Jesuíticas, o tema dos festejos farroupilhas de 2026. “Como uma das maiores expressões da fusão cultural desse período, o canto coral atua como uma ponte temporal nas comemorações gaúchas, revivendo a harmonia entre a polifonia barroca europeia e a ancestralidade espiritual do povo Guarani”, explica Altevogt.
A relação entre os quatro séculos de história e o canto coral se manifesta “intensamente”, acrescenta Altevogt, por meio de grupos nativos e repertórios especiais que dão voz à memória missioneira. O maestro cita que o padre jesuíta Roque Gonzales, fundador da redução de São Nicolau em 3 de maio de 1626, utilizou a música para aproximar e evangelizar os indígenas. Os nativos, por sua vez, possuíam uma “percepção musical extraordinária” e rapidamente dominaram técnicas vocais, leitura de partituras e a construção de instrumentos.
Além disso, o Canta Rio Grande faz parte de uma sequência de atividades locais que abordaram temas como os 200 anos e 150 anos, respectivamente, das imigrações alemã e italiana, celebrados em 2024 e 2025. Além de parceiro, o CTG Rincão das Coxilhas foi escolhido devido ao fácil acesso. Os cantores e a comunidade estão convidados a comparecerem pilchados. Embora não obrigatória, a utilização da indumentária faz parte da proposta de ambientação do encontro.
Para Altevogt, o festival poderá fortalecer a iniciativa em diferentes frentes. Em primeiro lugar, promove o intercâmbio e a troca de experiências entre os coralistas, o que abre espaço para o aprendizado e debates sobre o estado da arte do canto coral.
Há também a questão da visibilidade, pois o festival reforça o papel de Teutônia como capital nacional da atividade.
Ainda, aproxima o público e incentiva a adesão de novos participantes. “A música coletiva preserva as raízes e a tradição cultural da nossa região. Logo, promove-se um resgate histórico”, enfatiza Altevogt.
A preocupação com a continuidade se justifica porque o número de corais caiu praticamente pela metade nos últimos 20 anos, processo acelerado em especial após a pandemia. Dos mais de 40 em ação no começo da década de 2000, hoje são apenas 22, de acordo com dados do Executivo. Logo, entende-se de que é preciso buscar alternativas de reinvenção de maneira constante.
Segundo a secretária Vanessa Carniel, a realização do evento em um CTG amplia o significado do encontro.
Potencial ainda a explorar
Em recente entrevista ao Informativo Regional, a ex-presidente da Associação dos Coros de Teutônia (Acote) e atual tesoureira, Rosita Jussara Schneider, destacou que o Canto Coral simboliza o trabalho em equipe, disciplina e harmonia. Além disso, beneficia de forma profunda quem participa, a partir do despertar de diversos e distintos sentimentos. Entre eles: alegria, amor, serenidade, tristeza, inquietação.
Com a experiência de quem participou da criação de corais e liderou a entidade representativa, Rosita acredita que Teutônia, apesar de ostentar o título, ainda não aproveita todo o potencial artístico. Este patrimônio cultural pode ser mais um motor de desenvolvimento para o segundo maior município do Vale do Taquari, a começar, por exemplo, pelo turismo.
Contudo, é necessário que isso faça parte de uma visão de longo prazo, independente de governo. Uma das estratégias seria ampliar a inserção nas escolas, o que vai ao encontro do objetivo de atrair as novas gerações e garantir que as vozes não se calem com o passar do tempo.
RELEMBRE
A relação de Teutônia com o canto coral antecede em décadas o reconhecimento oficial. Em 2004, por exemplo, uma equipe do Guinness Brasil esteve no município para aferir o número de grupos existentes. Anos depois, quando a concessão do título nacional chegou ao Congresso, os documentos legislativos apontavam 46 corais e mais de 5 mil cantores no município.
Esse cenário motivou a apresentação, em 2011, do projeto do então deputado federal Ronaldo Zulke para reconhecer Teutônia como “Capital Nacional dos Corais”. Durante a tramitação, a denominação foi modificada para Capital Nacional do Canto Coral. A proposta passou pela Câmara e pelo Senado até resultar na Lei 13.563, sancionada em 21 de dezembro de 2017 e publicada no dia seguinte, quando entrou em vigor.
Antes, em 4 de setembro do referido ano, o Executivo instituiu o Movimento Canto Coral, no qual foram oficializados o Coral Municipal, Anos Dourados e Infantojuvenil. Em novembro de 2021, Zulke recebeu o título de Cidadão Teutoniense. Na época, o ex-deputado destacou o profundo significado do projeto, pois “reconhece um povo que não esquece de cantar a beleza da vida”. A homenagem foi proposta pelo então vereador Vitor Ernesto Krabbe (PDT) e aprovada por unanimidade.
Os corais
CORAL MUNICIPAL DE TEUTÔNIA
Criado em 1983, o grupo mantém viva a tradição do canto coral ligada à colonização alemã. É regido por Martin Altevogt desde 2009 e, em 2025, representou o Rio Grande do Sul no Festival Internacional de Coros 3 Fronteiras, com apresentações no Brasil, no Paraguai e na Argentina.

(Foto: Divulgação)
CORAL MUNICIPAL INFANTOJUVENIL DE TEUTÔNIA
O projeto iniciou em 2018, após seleção de vozes nas escolas de Teutônia. Sob a regência de Marlon Gausmann, reúne jovens cantores em atividades de formação musical e prática coral.

Foto: Divulgação
CORO MATURIDADE ATIVA, DE BENTO GONÇALVES
O grupo iniciou em 1993 como projeto do Sesc Bento Gonçalves. Reestruturado em 1995, tornou-se independente e manteve o nome original. Participa de encontros em diferentes regiões do Estado e apresenta repertório variado, com destaque para canções sacras. A regência é de Cibele Tedesco.

Foto: Prefeitura de Bento Gonçalves/Divulgação
CORO ARMORIAL, DE NOVA PRATA
Com mais de 50 anos de trajetória, o grupo atua na formação e difusão do canto coral. Continua presente no circuito de encontros da região e, em agosto de 2026, promoveu uma programação do gênero em Nova Prata. Assim como o Infantojuvenil de Teutônia, é regido por Marlon Gausmann.

Foto: Prefeitura de Nova Prata/Divulgação
VOCAL NOVO BRILHO, DE TRAVESSEIRO
Oficialmente constituído em 26 de maio de 2011, o Vocal Novo Brilho surgiu de um projeto de musicalização na Escola Estadual Monsenhor Jacob Seger. Regido por Paulo Roberto Haas, reúne jovens, com participação voluntária de adultos, e interpreta músicas sacras, eruditas e populares.

Foto: Felipe Stefani/Arquivo/Prefeitura de Travesseiro