O engenheiro agrônomo Lauderson Holz é um defensor da produção orgânica e da agroecologia. Natural de Pelotas, filho de agricultores familiares, está residindo em Linha Wink há 19 anos. Formado na Universidade Federal de Pelotas, completará 47 anos na segunda-feira, 10. Iniciou seu trabalho profissional em 2003, no Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa), em Marechal Cândido Rondon, no Paraná, onde atuou por três anos e meio. Em 2007, veio para o Vale do Taquari para trabalhar no núcleo de Santa Cruz do Sul do Capa, entidade na qual atuou até setembro de 2023. Atualmente, divide seu tempo com assessoria técnica a uma propriedade na área de produção orgânica, com a atividade de auxiliar de marceneiro numa marcenaria em Linha Wink, e no cuidado com sua pequena produção de alimentos orgânicos, ao lado da família.
Qual a importância da agroecologia para a humanidade?
Lauderson Holz – A agroecologia resgata conhecimentos e saberes tradicionais dos agricultores, juntando a questão da pesquisa, da tecnologia e dos conhecimentos modernos. Por meio desse resgate, a agroecologia proporciona o sentir a qualidade, o sabor dos alimentos, a importância do cuidado com a vida e o estar mais ligado com os ciclos da natureza. Costumo dizer que a humanidade anda num ritmo frenético, maluco, de tantas tecnologias, que a gente nem tempo de parar e observar as flores, as plantas e os animais, a beleza que existe ao nosso redor. A humanidade precisa ter mais tempo para esses detalhes, pois nossa vida é tão passageira, tão curta, que devemos dar mais importância para isso. Dentro desse contexto, a agroecologia é um movimento: integra agricultores, pessoas, o ambiente como um todo, percebe o alimento não apenas como um produto que é comercializado, mas que nele existe toda uma questão de vida, de cuidado e de ambiente.
Como a agroecologia pode contribuir com as mudanças no clima mundial?
Holz – Dentro da produção orgânica, um dos principais elementos está relacionado justamente com o manejo do solo. Nele, uma das principais questões é a incorporação da matéria orgânica. As mudanças climáticas estão acontecendo em função do excesso de gás carbônico que está na atmosfera e a atividade humana tem contribuído significativamente com essa emissão, que ocasiona o aquecimento global, o chamado “efeito estufa”. Na produção agroecológica, uma das questões fundamentais é o aumento da incorporação de matéria orgânica no solo, o que significa aprisionamento desse material. Junto com a questão do manejo, a produção orgânica aumenta a diversidade de espécies e plantas presentes em uma propriedade, o que contribui significativamente na questão da segurança alimentar. Além disso, a produção agroecológica se destina, em sua maioria, a mercados locais, representando um menor gasto de energia e uma menor emissão de poluentes, visto que não é necessário transportar esses alimentos para grandes distâncias. Outro aspecto relacionado à diversidade é que hoje a agricultura, como um todo, cada vez vem reduzindo mais a base alimentar da população. Hoje a base alimentar está concentrada em poucos produtos, como trigo, arroz e milho, o que fez com que se perdessem outros alimentos, que também têm um papel importante para a questão da saúde. A agroecologia contribui de diversas maneiras para mitigar ou impedir o avanço das mudanças climáticas, pela diversidade, pela menor emissão de gases poluentes, pelo menor uso de maquinário – buscando uma agricultura menos intensiva – e utilizando mais os recursos locais, como os materiais orgânicos, de compostagem e de esterco, sem buscar nutrientes em longas distâncias.
Como enxergas a tua participação em relação ao meio ambiente?
Holz – Acredito que o maior exemplo é o que eu estou fazendo, não o que eu vou dizer para as outras pessoas fazerem. Não adianta eu dizer para alguém: “vai plantar uma árvore”; preciso eu primeiro fazer isso. Eu acho que dentro dessa minha caminhada, desse tempo de atuação, sempre procurei ser muito didático, muito simples na minha atuação e tentando ser sempre uma referência, um exemplo. Eu já plantei várias árvores plantadas, de todas as espécies, inclusive frutíferas. A minha participação é nesse sentido: quero fazer uma agricultura diferente, mas também quero ser diferente no meu modo de ser, seja num evento na comunidade, seja em casa, seja onde for. Quando eu falo em agroecologia para as pessoas, da importância do consumo dos alimentos locais, eu preciso fazer primeiro, dar o exemplo. Esta é a referência, a influência que eu posso ser para outras pessoas.
E a “casa viva” que vocês construíram é também um exemplo disso?
Holz – Sim. Eu e a Ana moramos numa bioconstrução. É um estilo totalmente diferente de construção de casas, de uma maneira geral. Ela tem os princípios de sustentabilidade, tanto no uso dos materiais quanto na forma de construir, na questão do aproveitamento da energia solar, a questão da presença das plantas, da diversidade, também a questão do escoamento das águas. Então, acho que de diversas maneiras posso estar sendo uma referência, mas preciso sempre aperfeiçoar nesses conhecimentos, essa sabedoria que eu venho acumulando para poder, a partir disso, passar esses conhecimentos a outras pessoas.