Dois anos após os eventos climáticos extremos que impactaram o Vale, os efeitos das enchentes ainda seguem presentes, mas com mitigação gradual. Um dos pontos centrais está na mobilidade, com foco no restabelecimento de conexões entre as comunidades, campo e indústria. Entregue no último sábado, 23, a Ponte do Cafundó, em Poço das Antas, é um dos símbolos deste processo.
A obra integra a segunda fase do programa Reconstrói-RS, parceria que une a Câmara da Indústria, Comércio e Serviços do Vale do Taquari (CIC-VT), a Federasul e os Institutos Ling e Floresta. Executada pela entidade regional, a estrutura recebeu investimento aproximado de R$ 1,1 milhão. Possui 30,55 metros de comprimento e 4,10 metros de largura, com capacidade para suportar veículos de até 24 toneladas. Sua construção se deu após o colapso parcial da antiga ponte devido à enchente.
De acordo com o presidente da CIC-VT, Ângelo Fontana, um dos pontos cruciais do Reconstrói-RS é a execução das obras em localidades onde, por vezes, os governos estadual e/ou federal demoram a chegar. “O valor desta estrutura não está no seu tamanho, mas no que ela representa para a cadeia da proteína animal, a fortaleza econômica da localidade. Aqui, se produz aves, leite, suínos e essa ligação é fundamental no transporte à indústria”, salienta Fontana.
O vice-presidente da entidade, Adelar Steffler, acrescentou que essa e as demais entregas significam um trabalho em prol do “crescimento e desenvolvimento do Vale do Taquari”. Segundo o vice-presidente regional da Federasul, Ivandro Rosa, o setor agropecuário nem sempre é percebido e valorizado o suficiente. Logo, é estrategicamente importante dar atenção às comunidades e fazer todo o esforço necessário para viabilizar e aplicar os recursos. Sobre o Reconstrói-RS, destacou a transparência e a fiscalização constante das ações.
Mãe de Deus
Enquanto a ponte do Cafundó já foi entregue, outra travessia sobre o Arroio Boa Vista — em substituição a uma destruída pelas águas em 2024 — está em obras. Localizada na comunidade Mãe de Deus, entre a Ponte Pênsil e a Sociedade União Boa Vista (SUBV), a estrutura conta com recursos do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), no valor de R$ 1,590 milhão.
Este montante foi destinado exclusivamente para a ponte. Serviços de terraplenagem das cabeceiras e do leito do arroio ficaram a cargo da Prefeitura. Os trabalhos começaram apenas no fim de janeiro, com atraso de oito meses. Uma placa instalada no canteiro de obras indica que a previsão inicial era maio de 2025 e prazo de entrega em até um ano. Questões burocráticas teriam contribuído para esse desajuste.
A expectativa da Administração é de que a obra esteja pronta no fim de 2026, embora atualmente conte com poucos funcionários. Quando a reportagem esteve no local, na tarde de quarta-feira, 27, eram apenas quatro. Vencedora da licitação, a Construtora Edil LTDA conduz a nova ponte. Quando estiver pronta, terá 51,95 metros de extensão e 6,96 metros de largura.

Na Comunidade Mãe de Deus, os trabalhos ocorrem com baixo efetivo de funcionários. Mesmo assim, prazo está mantido para o fim do ano. Foto: Marcel Lovato
Muro de gabião e ponte
Um dos principais danos causados pelos eventos climáticos extremos em Teutônia foi o deslizamento de parte da encosta do local conhecido como Morro de Areia, na Linha Ribeiro. Na época, parte da estrada teve de ser interditada e casas foram afetadas. A via é uma das principais ligações entre o Bairro Canabarro e Estrela.

Muro de Gabião foi construído junto ao Morro de Areia, em Linha Ribeiro. Local desmoronou em meio à catástrofe de maio de 2024. Foto: Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Teutônia
Com investimento de R$ 824 mil, oriundo da Defesa Civil Nacional, a construção do muro de gabião começou em 27 de outubro do ano passado e está em fase final. A estrutura tem 28 metros de comprimento e 6,5 metros de altura. É composta por gaiolas de aço galvanizado — que não sofre com ferrugem — preenchidas com pedras. Além disso, resiste ao empuxo da terra, deformações do solo e é drenante. Os trabalhos incluem a reconstrução da estrada.
Já em Pontes Filho, o foco é a nova ponte sobre o Arroio Boa Vista, entre a ERS-419 e a estrada de Linha Clara, erguida ao lado da antiga. A obra deve ser concluída, se o tempo colaborar, até meados de julho, conforme estimativa do Executivo. Um atraso na concretagem forçou a readequação do cronograma, anunciada mês passado.
Viabilizada também com recursos da Defesa Civil Nacional, no valor de R$ 1.699.821,43, a obra é executada pela empresa DG Participações e Construções. Prevê uma travessia com 30 metros de extensão e 8,5 metros de largura, em mão dupla, e espaço para pedestres. A capacidade será de 45 toneladas. Construída em concreto armado e protendido, foi projetada para não ter pilares no leito do arroio, a fim de proporcionar maior resistência em períodos de cheia.
“Para os moradores das localidades de Pontes Filho, Linha Clara e municípios vizinhos de Poço das Antas e Westfália, esta obra passa a ser um marco histórico. Aliada à ponte, ainda haverá nas proximidades uma rotatória, que trará dinamismo ao trânsito e mais segurança em um contexto de fluxo intenso de veículos”, destacou o secretário de Obras, Viação e Transportes, Ariberto Magedanz.
Outras obras
Também no sábado, a CIC-VT inaugurou uma obra de contenção no município de Colinas. Com investimento de R$ 1,1 milhão, a intervenção visa estabilizar uma área afetada por deslizamentos e erosão.
Já em Imigrante, a entidade conduziu quatro frentes de trabalho entre o fim do ano passado e o início deste, em parceria com a Prefeitura e Metalúrgica Hassmann, no valor de R$ 4,4 milhões. Foram elas: muros de gabião no Centro, na Rua Guilherme Ernesto Lagemann e na Avenida Dr. Ito João Snell, em dois trechos, além de galerias na Rua Getúlio Vargas. O total chegou a R$ 4,4 milhões.

Entrega da Ponte do Cafundó sobre o Arroio Boa Vista foi celebrada pela comunidade no último sábado, 23. Obra devolve a mobilidade aos moradores (Foto: Alexandre Miorim)
E o El Niño?
Segundo a responsável pelo Núcleo de Informações Hidrometeorológicas (NIH) da Univates, Luana Lermen Becchi, os prognósticos indicam que o fenômeno comece a se estabelecer a partir desta semana, mas com maior incidência durante a primavera, quando impacta diretamente no clima do Sul do Brasil. A chance é de 82% durante o inverno e até 96% nos últimos meses de 2026.
Apesar das anomalias positivas já observadas no Pacífico Equatorial, ainda é necessário acompanhar a ligação entre oceano e atmosfera, especialmente os ventos alísios — massas de ar quente e úmida — e a circulação tropical, para confirmar a intensidade do evento.
“Afirmar que haverá chuva igual ou superior, ou enchentes semelhantes às registradas durante o El Niño 2023/24 no Vale do Taquari, neste momento, é especulação. Embora exista relação histórica entre os episódios do fenômeno, cada um possui força, duração e impacto distintos”, destaca Luana.
Para o NIH, em caso de chuva acima da média, devem ser monitoradas áreas de encosta, zonas ribeirinhas, várzeas e sistemas de drenagem urbana. Fatores como ocupação irregular, solo impermeabilizado, saturação hídrica e acúmulo de resíduos também podem ampliar os riscos.
A prevenção, portanto, exige monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas, atualização de boletins técnicos, acompanhamento hidrológico, emissão de alertas e comunicação clara com a população. Essas medidas são essenciais para reduzir os possíveis efeitos em uma região naturalmente vulnerável a eventos de chuva intensa.