A torre de 21,5 metros que se impõe na paisagem de Linha Clara não marca apenas a passagem do tempo. Testemunha nomes, encontros, despedidas, promessas e silêncios de uma localidade que encontrou na Igreja da Comunidade Evangélica de Confissão Luterana Cruz uma de suas principais referências. Em 8 de novembro, a construção completa 90 anos, marco de uma trajetória iniciada muito antes da inauguração do templo.
De acordo com o livro “Linha Clara, Teutônia e os 180 anos da Imigração Alemã no Rio Grande do Sul”, escrito por Ariberto Magedanz em 2004, a colonização de Linha Clara começou a partir de 1870, com a chegada de famílias westfalianas. Era a segunda fase do povoamento, que compreendeu, ainda, as atuais Linhas Frank, Welp e Schmidt. Superadas as dificuldades iniciais e com o acréscimo de moradores, surgiu a necessidade de uma escola.
Esse desejo se concretizou em 1878, quando lideranças das Linhas Clara, Frank e Pontes Filho se reuniram para criar a mais tarde denominada “Sociedade Escolar Dom Pedro I” (atual Emef Dom Pedro I). O primeiro prédio era uma casa de madeira. Além dos fins educacionais, sediava ofícios religiosos, como cultos, batismos e casamentos. Presidente da Comunidade Cruz, Silvério Schwingel destaca que as celebrações eram conduzidas por pastores de Porto Alegre. Os religiosos vinham, no máximo, duas vezes por ano.

Presidente da
comunidade pela
terceira vez, Silvério
revela que uma cápsula teria sido colocada junto à pedra fundamental. Foto: Gabriela Arendt
A obra e a cápsula
Com o passar dos anos, a demanda cresceu e a construção de uma igreja tornou-se primordial. Em 9 de novembro de 1935, integrantes das Linhas Clara, Pontes Filho e Catarina abordaram o tema pela primeira vez. Como a ideia surgiu na Linha Clara, decidiu-se que a localidade seria a sede do futuro templo. Duas semanas depois, uma nova reunião, desta vez com a presença de pais, alunos e professores, confirmou a intenção. O orçamento inicial foi estimado entre 30 e 35 contos de réis.
Silvério menciona que os membros da futura comunidade se comprometeram a pagar 100 mil réis cada e mais cinco dias de serviço. Parte do custo foi coberta por doações de localidades vizinhas, e o pastor Bernhard Theunert, então responsável pela Paróquia Teutônia Norte, obteve auxílio da Alemanha. O terreno foi cedido por Hermann Driemeier, e a limpeza do espaço começou no dia 28 de janeiro de 1936.
Menos de dois meses depois, em 14 de março, houve o lançamento da pedra angular. Junto a ela, segundo Silvério, foi colocada uma cápsula do tempo com lista de membros, exemplares dos jornais Correio do Povo e Deutsche Zeitung, diversas moedas e uma nota de dinheiro. Após culto conduzido por Theunert, o professor Berthold Kremer leu o nome dos 84 membros fundadores. Na sequência, foi realizada uma festa, cujo lucro chegou a 2 contos e 700 mil réis.
Sobre a cápsula, o presidente afirma que soube da existência há alguns anos por meio de Helmuth Osterkamp, um dos moradores mais antigos de Linha Clara, pouco tempo antes de seu falecimento. No entanto, ele não teria indicado a localização exata, o que dificulta a retirada para conhecimento das novas gerações. Sem essa informação, há receio de dano estrutural em caso de intervenção. O compartimento, portanto, deve repousar por tempo indeterminado.
Sem caminhões de frete, tijolos, areia e demais materiais foram transportados em carroças puxadas por bois. A água vinha do Arroio Águas Claras, em barris, após longos deslocamentos. Gottlieb Karrer chefiou os trabalhos, acompanhado por Hugo Karrer, Alfred Dhein, Reinold Planthold, Edvin Dietze e August Krützmann. No livro, Magedanz menciona que a contribuição em uma obra dessa envergadura era motivo de “honra”. Ao final, o custo total do prédio foi de 36 contos, 418 mil e 800 réis, uma verdadeira fortuna para os padrões da época.
Inauguração e anos posteriores
No segundo domingo de novembro de 1936, a igreja foi inaugurada. Após uma celebração de despedida na escola, o mestre da obra, Henrique Scheer, entregou a chave ao primeiro presidente da comunidade, Karl Driemeier. O professor Berthold e Frederico Guilherme Lindemann completaram a diretoria, nas respectivas funções de secretário e tesoureiro. Na mesma ocasião, a comunidade teve o nome oficializado, em dia marcado por culto e festa.

Em 15 de maio de 1938, moradores se reuniram para a
inauguração do segundo sino da igreja. Esta é uma das poucas fotos coletivas que resistiram ao tempo. Foto: Arquivo Bruno Tiggemann
Nascido em junho de 1936 na localidade, Selvino Tiggemann foi o primeiro batizado no novo templo. Parte dos detalhes sobre a obra e dos registros em atas se perdeu com o tempo. Pouco menos de dois anos depois, em 15 de maio de 1938, houve a inauguração do segundo sino. A peça foi doada pela então Gustav Adolf Verband (hoje Gustav Adolf Werk), organização ligada à igreja luterana alemã, que presta apoio pastoral a congregações irmãs mundo afora. Durante muito tempo, manualmente. A automatização ocorreu somente nos anos 2000.
Em 1989, houve o desmembramento de Linha Catarina e, em 2007, de Pontes Filho. Ambas criaram suas

Harmônio ‘repousa’ no mezanino da igreja e é uma relíquia fabricada na época da inauguração do templo.
comunidades e constituíram suas respectivas igrejas. Quanto ao prédio, segundo Silvério, a igreja preserva a maior parte de suas características arquitetônicas originais.
Bancos e pilares de madeira, escada para o mezanino, púlpito, vidros coloridos e altar, por exemplo, seguem iguais. Em nove décadas, a principal intervenção ocorreu no piso, com a troca do parquet pelo cerâmico em função do desgaste. A conservação é atribuída às paredes duplas e à qualidade dos materiais empregados.
Entre os objetos preservados, uma relíquia repousa no mezanino. Trata-se de um harmônio fabricado pela J. Edmundo Bohn, sediada inicialmente em Bom Princípio e, depois, em Novo Hamburgo, referência histórica na construção desse tipo de instrumento. De acordo com Silvério, estaria na igreja desde a época da inauguração. Embora ainda funcione, está em desuso desde a chegada dos teclados eletrônicos. O transporte até o mezanino é uma incógnita, especialmente devido ao peso e à largura da escada.

Iloni e Orlando se casaram em 20 de
fevereiro de 1970. Na época, grandes
árvores ornamentavam o pátio da igreja. Foto: Arquivo Iloni Bergmann
Outros registros
Além das atas e dos relatos da comunidade, parte da memória da igreja sobrevive em documentos guardados por moradores. Proprietária do museu Antick Haus Bergmann, Iloni Bergmann se casou com Orlando Bergmann (in memoriam) em 20 de fevereiro de 1970, no templo. Segundo ela, ao menos 200 convidados prestigiaram a cerimônia, cuja festa seguiu na Sociedade de Atiradores.
Entre os documentos preservados em sua residência, estão duas relíquias ligadas ao passado da igreja. A primeira é um convite endereçado ao sogro, Arthur Bergmann, para uma assembleia geral ordinária marcada para o dia 20 de janeiro de 1945, às 15h, cuja pauta principal seria a “majoração da anuidade do pastor”. O envio ocorreu ainda em dezembro do ano anterior.
Do mesmo acervo consta uma relação de produtos vendidos por Arthur, que possuía uma casa comercial no local onde hoje funciona o Antick Haus, para a realização de uma reforma na igreja em 1947. Chama a atenção que a lista incluía desde pregos e tijolos até alimentos, bebidas e produtos de limpeza. A conta ultrapassou 3,3 mil cruzeiros.
Ao lado do armazém, havia um salão de baile, onde os trabalhadores se hospedaram no período das obras. Iloni destaca que a intervenção foi necessária depois de parte do telhado ser danificada por um raio. Fotos antigas da igreja são raras. Ela atribui a escassez à ação do tempo e ao possível desinteresse de famílias em preservar arquivos domésticos. Em relação às comemorações dos 90 anos, as atividades estão em fase de planejamento e serão divulgadas nas semanas anteriores à data.
Pastores que atuaram na Paróquia Teutônia Norte
• Wilhelm Kleingünther — 1870 – 1872
• Ferdinand Häuser — 1873 – 1890
• Wilhelm Hasenack — 1890 – 1910
• Emil Bartsch — 1910 – 1921
• Wilhelm Wolf — 1921 – 1925
• Edward Lewerenz — 1925 – 1934
• Bernhard Theunert — 1934 – 1946
• Werner Wahlhäuser — 1946 – 1955
• Georg Lecke — 1955 – 1974
• Edgar Hummes — 1974 – 1986
• Will Becker — 1986 – 2008
• Albino João Vortmann — 1988 – 1994
• Elton Pothin — 1995 – 2002
• Carin Rahmeier — 1995 – 2002
• Valmir Frank e Silvane Dragon Frank — 2003 – 2008*
*Até 2008, a igreja esteve vinculada à Paróquia Teutônia Norte. A partir de 1º de janeiro de 2009, passou a fazer parte da Paróquia Boa Nova. Os pastores Valmir e Silvane seguem responsáveis pelos cultos.
*A lista considera todos os pastores ligados à paróquia que prestaram serviços em Linha Clara, mesmo antes da fundação do templo.